Trecho de entrevista concedida a Sumaya Klaime/Cascavel/PR, Claudinei Binder/Irineópolis/SC e Bandeira/São Sebastião do Caí/RS, ao ensejo da realização da XVII CEE, em Pinhais, de 13 a 15.3.2015]

Quem é Sandra Borba e de onde vem?
Sou pernambucana de nascimento, potiguar por casamento e estou há mais de trinta anos no Rio Grande do Norte. Tive a ventura de ter sido evangelizada na infância. Então, sou de Movimento Espírita desde a infância. A evangelização da criança e do jovem é a minha grande paixão, seguida do trabalho da divulgação doutrinária. Sou alguém que está na luta tentando ver o que consegue realizar mediante todo o conteúdo que a Doutrina Espírita apresenta.

sandra borba

O livro O céu e o inferno, que é o grande enfoque nesta Conferência, dá condições para que o homem consiga sair do seu inferno consciencial?
Podemos dizer que esta obra analisa, destrincha as questões que estão, principalmente, na quarta parte de O Livro dos Espíritos. O que é interessante e podemos dizer, usando expressão muito feliz de Herculano Pires, na sua tradução de O céu e o inferno [editora LAKE], que essa obra é uma peça jurídica, que tem, na sua primeira parte, os princípios, as premissas, toda a parte teórica e na parte segunda, o enfoque testemunhal.

Por exemplo, sobre as penas eternas Kardec apresenta o argumento da sua existência e a refutação. O leitor que adentrar na leitura, com isenção de determinadas posturas fanáticas, encontrará um forte argumento, revelando a visão espírita que coloca por terra aquele conceito que, lastimavelmente, muitos ainda têm da eternidade da pena.

A título de ilustração, lembramos que, mesmo entre os chamados pagãos, encontramos misericórdia. Uma das versões do mito de Prometeu, aquele que rouba o fogo do Olimpo, e é acorrentado por Zeus ao monte, no qual, durante o dia, as aves de rapina consomem o seu fígado, que se recompõe à noite, para recomeçar tudo no dia seguinte, diz que as ninfas intercederam junto a Zeus e, um belo dia, ele libertou Prometeu.

Assim, se até mesmo entre os pagãos temos essa concepção, essa mudança de visão, não podemos imaginar que nós, como cristãos, pudéssemos ou possamos até hoje, admitir a ideia de que uma falta, um momento de loucura, enfim, uma imaturidade, uma circunstância, remeta a criatura à penalidade eterna.

Quando Jesus narra a parábola do filho pródigo, aquele filho que é irresponsável, leviano, dissoluto, conta que, ao voltar para casa, seu pai o recebe com todo o amor dizendo que aquele filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. Dessa forma, o leitor que se debruçar sobre O céu e o inferno, de Allan Kardec, terá todos os elementos para renovar as suas percepções.

Na sua opinião, acredita que estamos vivendo, atualmente, tempos melhores? Existe alguma esperança de que, um dia, não existam mais guerras, desarmonia e desamor entre as pessoas?
Já vivenciamos tempos melhores na tecnologia, por exemplo, no avanço da Ciência, no avanço das possibilidades das discussões, embora vivamos muito recrudescimento do egoísmo.

O grande problema na atualidade é que recebemos, por exemplo a informação da mesma tragédia, do mesmo crime, repetidas vezes, no mesmo dia. No entanto, constatamos que ações vinculadas ao bem, ao humanismo e à solidariedade, não têm veiculação. Por isso, a importância da mídia espírita, a importância da mídia que apresenta coisas boas.

Divaldo, algum tempo atrás me disse, em Salvador, no Movimento Você e a Paz, que reuniu doze mil pessoas, que não havia uma televisão, uma emissora de rádio para o registro e a posterior divulgação. Entretanto, quando alguém em desequilíbrio apanha uma arma e mata, todas as emissoras televisivas estão ali, para a promoção do que configura maldade e crime.

Dessa forma, é inegável que vivemos momentos tormentosos, difíceis. São momentos de transição. Temos uma perspectiva de futuro melhor porque existe algo chamado fastio do mal. O livro Libertação, do Espírito André Luiz [psicografia de Francisco Cândido Xavier], narra a história de Gregório, o chefe de uma cidade trevosa e de sua mãe Matilde. É muito bonito porque Matilde intercede junto aos companheiros do plano espiritual para que atuem junto a Gregório. Ela dizia, e nunca esqueci, registrei para mim: Ele está enfastiado do mal.

Então, haverá uma hora em que não se suportará mais e desejaremos mudar. Há uma música sobre a paz, de Nando Cordel que diz que ninguém suporta mais o desamor. É preciso que tenhamos uma atitude pró-ativa. Nesse sentido, o Movimento Espírita tem responsabilidade muito grande. A responsabilidade de nos mantermos coesos para que possamos mostrar e testemunhar, com as nossas atitudes, que estamos confiantes nessa proposta de construção de um mundo melhor.

Vivemos, sim, um momento conturbado, mas vivemos igualmente um momento de grande crescimento. Nunca se viu tanto amor, tantas manifestações de generosidade, carinho. Isso deve ser divulgado, precisa ser multiplicado para que comecemos a contrabalançar a atual situação, preparando-nos, de fato, para o mundo de regeneração, onde vai reinar um pouco mais de serenidade, de tranquilidade, embora ainda não seja a paz completa.

O processo evolutivo é lento e sendo lento, principalmente sendo um processo coletivo, vai redundar em muito a se fazer, em muito investimento no bem. Esta a nossa grande responsabilidade como espíritas.