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Concepção de vida e Imortalidade
A concepção de vida tem estado adstrita ao sistema nervoso central, mais especificamente ao sistema nervoso. Hoje, um grupo de geneticistas, juristas, se inclina a definir a vida do ser humano a partir do neuroblasto, portanto, da primeira célula nervosa, a partir da fecundação. E a sua terminalidade na morte cerebral. Esse é o enquadramento da visão de vida que representa a visão materialista, mecanicista, organicista. É isso que tem regido as decisões, em nível legal, no Brasil e no mundo.

A proposta do Espiritismo ultrapassa o paradigma materialista, sem desconsiderar a matéria. Considera o ser como alguém que está antes do cérebro, durante a vivência cerebral e prossegue à morte cerebral. O paradigma materialista coloca o cérebro como sendo o ser, e o pensamento, o amor, a saudade, as emoções como sendo um epifenômeno, a alma como consequência do cérebro.

O paradigma espírita propõe que o Espírito é o ser e o cérebro, uma consequência do ser. A ciência vem, nos últimos tempos, apresentando comprovações, fatos e também hipóteses que se inclinam à demonstração de que há vida antes do cérebro. Notadamente, nas experiências que envolvem as lembranças espontâneas, demonstrando que há uma memória que não está no cérebro.

É uma memória que antecede o cérebro, uma memória extracerebral, documentada por Ian Stevenson, Banerjee, Hernani Guimarães Andrade. Um grupo de outros cientistas coloca, não só esse conhecimento como um fato, mas o aplica nas ciências que dele se vale para beneficiar o ser humano. Esses cientistas estão representados em Morris Netherton e Edith Fiori, ambos que, em 1978, criaram a abordagem da Terapia Regressiva a Vivências passadas – TVP. Também em outros cientistas, como Bryan Weiss, Maria Julia  Peres, muito conhecidos no Brasil e Patrick Druout, na França.

Existem vários países que colocam na regressão de memória uma possibilidade de acesso e de resolução de conflitos e problemas, mostrando que o ser antes do cérebro apresentava esses conflitos. Também há outro grupo de pesquisadores que fala da vida para além do cérebro, mostrando que a consciência não decorre dele, quando das análises de pacientes terminais, no leito de morte.

A Tanatologia estuda esses fenômenos, demonstrando, mesmo antes do cérebro declinar completamente, as experiências de vida que falam que há uma vida para além da estrutura cerebral. Nesse particular, o ícone máximo é Elizabeth Kübler-Ross que, em seu livro Sobre a morte e o morrer, documentou a vida fora do corpo. Além disso, existem as pesquisas que falam da vida pós-cerebral, quando das Experiências de Quase Morte – EQM, representadas pela vivência de Rich que, aos vinte anos, teve uma experiência fora do corpo, na mesma época em que o Espírito André Luiz estava psicografando, através de Francisco Cândido Xavier, o livro Nosso Lar, Seguiram-se outros estudos, várias pesquisas mostrando que a vida está além do cérebro.

O Espiritismo vem observando as confirmações da sua tese fundamental, apresentada por Allan Kardec, de que o ser humano é um ser que transcende a vida corpórea, um ser que vive o contínuo da existência no corpo e fora do corpo; que a concepção é o marco de entrada e o túmulo é o marco de saída do corpo, mas não da vida, pois ela é um fenômeno contínuo e, portanto, o cérebro não define o ser humano.

A Imortalidade, por sua vez, vem sendo documentada pelas pesquisas científicas que estudam a memória, os pacientes terminais, as experiências de quase morte; que estudam, através da hipnose, essa existência do ser e com a mediunidade, que documenta cientificamente que o Espírito existe para além da morte.

A proposição espírita, mais do que afirmar a Imortalidade da alma, que era uma afirmativa dogmática nas religiões, vem cientificamente comprovar que a morte é apenas um portal, que o ser vive para além da morte física. É um fato, somos imortais. Isso tem consequências absolutamente fulgurantes, porque ser imortal, na perspectiva do conhecimento espírita, viabiliza também a possibilidade de que, em saindo do corpo, sobrevivendo à morte, podemos nos comunicar.

Mais do que isso, podemos voltar a renascer num corpo novo feito por nós mesmos. Progredimos sempre, nesse ir e vir, nesse mergulho corpóreo e a Terra não é o único planeta habitado. Podemos transitar para outras moradas da Casa do Pai, conforme a fala de Jesus, nesse progresso contínuo da alma, que sai da ignorância para a lucidez completa, que sai do estágio de primitividade para a plenitude.

Essa perspectiva da compreensão da Imortalidade nos convida a poder viver, no cotidiano, a vida no seu sentido macro, pleno. Não nos encontramos na expectativa do céu e inferno após a morte. Estamos no compromisso de vivermos a construção de um céu no cotidiano e de trabalhar nosso inferno interno. Essa compreensão da Imortalidade da alma, ofertada pelo Espiritismo, nos faz viver o aqui e o agora sem nenhum escape, sem nenhuma transferência para o futuro de uma vida que poderia estar colocada, hipoteticamente, na Imortalidade, sem muito a ver com nosso cotidiano.

A compreensão da Imortalidade da alma nos compromete a viver o ser existencial e interexistencial porque estamos no corpo, saímos do corpo durante o sono, antes da morte, nesse ensaio de morrer. E compreendemos que o mais fundamental na perspectiva desse conhecimento é podermos viver o amor e reeditarmos o Evangelho de Jesus, dando à nossa vida um sentido nobre, fecundo, verdadeiro e justo para nossa existência.

Resumo de entrevista concedida por Alberto Almeida a Sumaya Risso, do Jornal A Voz do Paraná,
de Cascavel, durante a XVIII Conferência Estadual Espírita, ocorrida em Pinhais,
de 4 a 6 de março de 2016.
Publicada no Jornal Mundo Espírita, maio.2016, ed. FEP.

Créditos da foto: Sumaya Risso