André Trigueiro SumayaVocê está estreando na Conferência Estadual Espírita. Qual a sua expectativa nesta participação?

Está sendo um enorme prazer, uma honra poder participar de um evento nesta ordem de grandeza, neste lugar enorme, com pessoas que vêm de várias partes do Brasil e do Continente. Espero estar à altura do convite e fazer o que se espera que eu faça.

Você está trazendo o tema A valorização da vida. Pode dizer o que isto vai acrescentar para o público?

Estou vindo na semana em que aconteceu o lançamento do mapa da violência, um estudo muito criterioso que toma por base os índices oficiais de óbitos, apurados pelo Ministério da Saúde no Brasil. Óbitos por causas não naturais: homicídios, suicídios e acidentes de trânsito. Esse mapa indicou o aumento preocupante do índice de suicídios de jovens, na maior cidade do Brasil, São Paulo.

Estou vindo para cá, na semana em que encontraram o corpo do neto de Chico Anísio, numa praia no litoral norte do Estado do Rio, um episódio que causou comoção porque nem a família, nem os amigos conseguiram entender a razão do que tudo indica ter sido um suicídio: ele ter optado por se isolar, de uma forma abrupta, repentina e atentar contra a própria existência.

Estou lançando, nesta Conferência, um livro que reporta exatamente a essa dor invisível, que está fora do radar da sociedade em que vivemos; que, do ponto de vista epidemiológico, gera preocupação porque, no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde, há mais óbitos por suicídio do que por homicídios ou conflitos armados, guerras.

É um problema de saúde pública no mundo e no Brasil. Ele é invisível, um problema que não está colocado na agenda, como algo que merece atenção. Em 90% dos casos, os suicídios são preveníveis e as pessoas não sabem disso, porque há intercorrência com patologias de ordem mental diagnosticáveis.

De todas as doutrinas, filosofias, tradições religiosas, o Espiritismo é aquela que oferece o maior número de informações e a maior quantidade de detalhes sobre a realidade do suicida no plano espiritual. Por isso, eu diria que a minha fala se divide entre a ciência médica, porque avançamos muito na área da suicidologia, uma área nova da ciência, e o que diz a Doutrina Espírita a respeito dessa precipitação de alguns, quando no auge de uma dor que precisa ser respeitada e acolhida, que decidem retornar à pátria espiritual, e as consequências desse ato.

Entrevista André Trigueiro Carlos MoroNa sua opinião, qual seria a causa do aumento de suicídios?

Este não é um assunto que se deva tratar de forma linear, como se fosse uma equação, uma ciência exata. Temos um conjunto de fatores. Um deles é a pandemia da depressão, que é considerada um dos principais fatores de risco para o comportamento suicida.

É outro assunto pouco discutido ou falado. Muitas pessoas têm depressão e não sabem. Muitas delas se sentem culpadas por, apesar de terem uma vida que está resolvida, terem família, trabalho, casa, terem tudo, a vida aparentemente bem, se sentirem calcinadas por dentro, sem alegria e vontade de viver. Essas pessoas, muitas vezes, têm um comportamento natural de encapsulamento, isolamento, o não compartilhamento desse momento com outros, não se sentem à vontade para falar sobre isso com outros e começam, em alguns casos, a ter a ideação suicida.

Também estamos num momento em que as pessoas estão vivendo mais e melhor. Mas, a longevidade traz um pacote de perdas, ao longo da existência: perda da vitalidade, dos amigos, da capacidade de enxergar ou ouvir ou ter força física como antes, perda do direito de comer e de beber o que quiser, a hora que quiser, perda do sono tranquilo, perda do respeito daqueles que a pessoa, com sacrifício, criou e colocou no mundo e, esses que eram seus tutelados, passam a ser os seus algozes. Vivemos em cidades que não são acolhedoras para esse segmento mais longevo. Temos um conjunto de fatores que tornam a vida complicada, exatamente na reta final que deveria demandar mais cuidados.

Estatisticamente, na Literatura, o índice de suicídio no segmento mais idoso é alto. E há uma conta preocupante com esse segmento mais jovem. Por que tantos jovens estão se matando? Precisamos fazer as perguntas certas para buscar as respostas certas. Há uma quantidade de meninos e meninas que estão em crise existencial, com a sensação de vazio, que não estão se sentindo encaixados na existência, não sabem o que querem fazer; não têm a menor vontade de ir para a escola; o estudo é um fardo, os pais não têm tempo para eles.

Há adolescentes que escondem dos pais a autoflagelação, invariavelmente, com cortes nos braços e nas pernas. Por que fazem isso? Um psicoterapeuta nos disse: Na minha experiência, o principal fator é a desatenção dos pais.

Temos, assim, um conjunto de fatores que vão determinando a perda da graça de viver. Como explico a dor e o sofrimento para mim? Como tento me encaixar no tabuleiro da vida?

Na verdade, no livro, como na palestra, abordamos fatores químicos, que são conhecidos e fatores sociais.

 

Resumo de entrevista concedida por André Trigueiro a Estêvão Mello, da Web Rádio Fraternidade, durante a XVIII Conferência Estadual Espírita, ocorrida em Pinhais, de 4 a 6 de março de 2016.
Jornal Mundo Espírita nº 1583, de junho.2016.
Fotos: Sumaya Risso e Carlos Moro