alberto almeida 338x232Estamos habituados a ouvir o conferencista, a ler o escritor espírita. Como é o homem Alberto Almeida, no mundo, na administração do atendimento à família, à profissão, ao movimento espírita?

É uma articulação que está estabelecida desde o início das minhas atividades, à medida que fui saindo para a divulgação do Espiritismo. Há um contrato familiar, nessa composição, de modo que as coisas pudessem ficar bem distribuídas e a contento de todas as partes. Digo que quando viajo, eu experimento o relaxamento e quando eu volto, trabalho e vice-versa.

Certa feita, passei um mês e meio sem viajar e a impressão que eu tinha é que estava de férias. Estava faltando alguma coisa. Dei-me conta de quanto também as viagens representam responsabilidades. Isso gera um nível de preocupação, de tensão que é relativo ao grau de desafio do trabalho proposto. Quando uma atividade é, por exemplo, muito conflitiva, encontro de trabalhadores ou uma região, que é um terreno minado, onde existem divergências, às vezes acentuadas, percebo que há uma necessidade de uma melhor preparação. Esse investimento interno gera uma tensão psíquica.

Então, esse período em que fiquei um mês e meio sem viajar, me pareceu estar de férias do trabalho. Mas, eu estava trabalhando profissionalmente, normalmente, as atividades espíritas em Belém regularmente. Essa composição é muito saudável porque é a mudança de atividades e essa mudança relaxa numa perspectiva e proporciona vitalização em outra.

Alberto, você nos tem trazido palestras e seminários em que destaca a amorosidade como estratégia nos relacionamentos interpessoais.
Em se falando de atividade junto a crianças de rua ou com nossos próprios filhos, essa estratégia sempre dá certo? Não existem criaturas que parecem inacessíveis a essas demonstrações, reagindo mal, inclusive?

Penso que o relacionamento humano é o que há de mais desafiador na Terra. Quando há uma contraposição que ressalte diferenças, esse relacionamento é mais enriquecedor. Lidar com os filhos em casa demanda diferenças menores porque há uma hierarquia de comando, no sentido da educação; há princípios e valores que vão sendo cultivados desde criança, desde que os Espíritos estão renascendo. Então, se tem um ambiente mais ou menos controlado. Quando se vai para debaixo de uma marquise, numa praça pública, esse processo está completamente oposto porque há uma vulnerabilidade e uma imprevisibilidade do que vai acontecer e se precisa, portanto, mobilizar outros conteúdos da alma.

Às vezes, chegamos para desenvolver atividades com crianças de rua e apenas deixamos o alimento, não conseguimos ficar, tal, naquele dia, o nível de risco. Não podíamos, de modo algum, ficar. De outras vezes, não. Por que íamos? Porque misturavam-se as crianças, os adultos de rua, a ausência ou a presença da polícia que pode representar um risco; às vezes, estavam num tal índice de comprometimento de drogas que era ameaçador chegar. Eles quase em surto ou em surto, num grupo que precisava ter minimamente um treinamento para ter uma chegada adequada. Então, esses espaços de rua e de casa e, entre eles, a Instituição na periferia, são níveis diferentes que, de alguma forma, demandam conteúdos internos, que nos acionam possibilidades de exercícios no campo da amorosidade e que nos premiam porque crescemos muito nessa relação.

Quanto mais diferente a relação, mais rica ela é. Diferença de idade, de cultura, de classe social, de religiosidade, de competências intelectuais... Penso que o amor pode trafegar em todos esses níveis, não são processos excludentes - daí o exercício da amorosidade.

Quando Jesus resolve nos exemplificar, Ele vai desde a sinagoga, do templo, que é o espaço com alta respeitabilidade dentro daquela cultura, até a via pública, até o contato com uma meretriz, com aquele que por onde Ele passa, pede ajuda. Ele vai para os diferentes movimentos. Creio que a amorosidade se espraia, na medida em que conseguimos articular um processo relacional que afere como estamos conosco mesmos e nos habilita a desenvolver recursos e talentos de que ainda não dispomos. Ou dispomos, de uma forma, às vezes, precária, ou de forma até razoável e abre espaço para que esse conteúdo possa emergir numa troca sempre muito rica. Penso que precisamos valorizar a amorosidade em qualquer espaço onde sejamos convidados a conviver.


Alguns estudos apontam que as redes sociais podem provocar um isolamento social em termos de contatos reais. Qual sua visão a respeito? Estamos caminhando para nos distanciarmos uns dos outros? Isso não estaria em desacordo com a Lei de Amor que deve reinar na Nova Era?

Como tudo na vida, depende da forma como se estabelece o uso. A rede social pode estar a serviço de uma comunicação muito rica, mas pode estar a serviço da defesa de alguém que tem dificuldade de fazer relações presenciais, que se exclui de interações mais ricas. Há muitas pessoas que chegam a processos psiquiátricos usando rede social para não fazer contato presencial com as pessoas. Isso pode se dar dentro de casa. Às vezes, os jogos para as crianças, o acesso ao celular, ao Youtube, por exemplo, empobrece a relação presencial. Vivi essa experiência em casa, recentemente, com meu neto. Ele tem sete anos e eu lhe disse:

“Você percebeu que todas as vezes que subtraímos o seu celular você entra em irritabilidade?”

Ele precisava de meia hora de abstinência para poder voltar ao normal. Certo dia, conversou com sua mãe e concluiu:

“Mamãe, acho que estou viciado.”

Uma criança de seis para sete anos concluir, a partir da reflexão que eu estava fazendo com ele e que tinha pertinência, porque ele fica mais agressivo, mais irritado porque ele fica numa relação compulsiva, foi curioso. Um dia, cheguei de uma forma mais dura e ele disse:

“ Olhe o celular.”

Eu disse:

“Eu posso pegar o seu celular, eu posso confiscar o seu celular porque eu tenho autoridade.”

“ Não, o senhor está dependente do celular.”

Aí ele estava falando o que eu tinha dito para ele, de que o celular gerava uma dependência e eu estava agressivo porque estava usando o celular. Achei o máximo porque eles vão checando. Eu disse:

“Não, eu não estou por isso, estou porque a pouco você fez um movimento de desrespeito a sua mãe.”

E ele tinha feito, eu tinha visto. Ele calou e não continuou a confrontação, porque os garotos de hoje são muito ousados.

Nessa cultura do celular hoje, pode correr o risco de um isolamento social. Você chega numa sala que tem sete pessoas e cada uma está com seu celular. As relações ficam empobrecidas porque cada uma estando no seu celular não se troca. Quando estamos juntos, sem celular, começamos a perguntar um ao outro:

“E, aí, como é que estão em casa, sua mãe, seu pai?”
E se começa a tecer uma relação, eu começo a interagir com você, a acessar a sua vida, você a minha. Começamos a criar laços, presencialmente, que escasseiam quando nos encontramos em qualquer espaço social, seja o profissional, o familiar, companheiros espíritas porque todo mundo tem que atualizar a sua comunicação virtual. O whatsapp ainda está num sistema de viciação, não conseguimos adquirir habilidade para usá-lo, de forma adequada. Quando ele surgiu, meus irmãos foram unânimes em dizer:

“Você não pode usar o Whatsapp.”

Eu ainda não tenho o Whatsapp, por incrível que pareça, muito embora reconheça que é uma ferramenta fundamental nos dias modernos, imprescindível. O progresso vem mas, a forma como vamos nos educando para lidar com o Facebook, com o Instagram, o Whatsapp, com as redes sociais, de um modo geral, demanda tempo. Enquanto isso vai se estabelecendo, é algo que faz com que o jovem esteja conectado com cem jovens, sem sair da sua cama, sem sair de casa. Ao mesmo tempo em que ele está articulando um encontro, um movimento ou uma ONG, ele pode estar usando isso para permanecer na solidão, para não fazer contato presencial, para defender-se de uma fobia social que experimenta. Ele se esconde através dos jogos ou através das atividades, contatos que são virtuais. Penso que tudo tem uma medida certa. Tudo nos é licito, na fala de Paulo [Apóstolo], mas, nem tudo nos convém. Se você tem cem grupos de Whatsapp, não consegue atualizar-se ou você fica dependente do Whatsapp. É muito difícil porque ainda estamos aprendendo a lidar com as mídias sociais. De modo algum, elas devem comprometer a qualidade das nossas interações.

Outro dia, fiz uma palestra para a Alemanha, sentado na minha cama, com o computador, o Skype, a uma hora da tarde. Nunca pensei que pudesse fazer uma conferência assim. Fiquei encantado com aquilo. Falar com o outro lado do mundo, um outro Continente, a uma hora da tarde. Com a diferença de fuso lá era o horário da reunião. Fiquei pensando como a tecnologia é abundante, firme, fantástica, quando está colocada como meio para que possamos alcançar os nossos fins.

Em Brasília, vi uma família que tinha um filho na Austrália, o outro na Inglaterra, os pais em Brasília e eles fazem o Evangelho no lar, pelo Skype. Usam a rede social para fazer a atividade do Evangelho no lar, que era uma prática familiar e que ficou um pouco comprometida pela evasão dos dois filhos. Eles combinaram e fazem todos os domingos o Evangelho no lar. Está aí para nosso bom uso.

O que você teria a dizer aos jovens que, participando de reuniões de juventude espírita, afirmam ser muito difícil ser espírita no mundo?

O jovem vive num mundo frenético, veloz, com os adultos que, em alguns campos, não acompanham, especialmente nessa área da velocidade da computação, da cibernética. O jovem está vivendo num mundo muito tumultuado porque de transição, com muitas diferenças, com demandas de vários níveis, extremadas. Penso que para o jovem viver é um mundo que lhe oferece maiores possibilidades de saltos de qualidades mas, de mais riscos também porque tem de tudo.

Quando vejo, por exemplo, o pó de amor sendo proposto ou a relação entre os jovens no modismo dos relacionamentos sexuais e da bissexualidade apresentada como algo como quem toma um café, fico me perguntando o que está acontecendo no nosso mundo e que alcança o jovem de uma forma tão intensa. Percebo quantos conflitos emergem porque o Espírito reencarnado traz uma história afetiva, emocional, sexual e vai experimentando relações hetero, relações homo e bissexuais, com um estado de franqueamento, de liberalidade, direito a postagem no Facebook, no Instagram. Fico pensando o quanto esses jovens são perturbados em função dessa cultura desses dias, nesse movimento novo que vem surgindo, porque aciona memórias muito conflituosas e o jovem experimenta alguns espaços de convivências e de interações que precisariam de mais recato, sem nenhuma hipocrisia, mais precisaria de mais cautela.

A invasão da sexualidade misturada com a afetividade, misturada com o descartado, com a velocidade do mundo moderno, das comunicações e das relações gera desgaste e perturbações psicológicas, que tenho acompanhado como psicoterapeuta e que seriam absolutamente dispensáveis. Como todo mundo entra na onda e no ficar, fica-se de uma forma inteira. Percebo quão difícil, por exemplo, nesse setor, é viver uma juventude sem se comprometer e sem levar algumas cicatrizes ou algumas chagas para a idade adulta porque se faz uma imersão e, quando se sai daquele movimento, sai muito machucado, não pelo outro, machucado por si mesmo, por tudo que acorda dentro de si.

Nesse caminho, com as drogas sendo apresentadas, num regime de facilidade incrível, com a legalização da maconha, por exemplo, em alguns países, percebemos o quanto essa mistura de sexo, de convivência de qualquer jeito, de drogadição, de álcool, de cigarro propriamente dito, tem levado os nossos jovens a alguns atropelos desnecessários.
Por outro lado, temos um espaço para que o jovem cresça porque ele tem acesso a informações pelos meios de comunicação. Com sua capacidade criativa, com a sua abertura interior, o jovem pode se deslocar para qualquer país do mundo dentro de sua casa, pode fazer um intercâmbio ou uma tese de Mestrado, uma dissertação de Mestrado ou uma tese de Doutorado vivendo no seu país. Os intercâmbios, as relações sem fronteiras geraram para os jovens um movimento de possibilidades de interações culturais e de acesso às informações e a experiências, que fico perplexo.

Um sobrinho meu viajou por nove países. Ele saiu de casa com um projeto e em cada país ele encontrava uma possibilidade de poder desenvolver um pouco de arte, ganhar um dinheiro para fazer a viagem para o próximo país. Foi usando dramaturgia, foi usando seu instrumento musical, um violão. Num ele se vestia de palhaço, noutro trabalhava como garçom, noutro como jardineiro. Fiquei pensando que eu quase não ia à praça próximo de casa. Ele sai pelo mundo como se fosse efetivamente uma aldeia, ganhando prêmio na Índia, foi para a África, para o México, os Estados Unidos.

O jovem tem essas possibilidades, envolvendo, naturalmente, riscos se não tiver uma base que lhe dê sustentação. Para os pais é difícil, mais difícil porque com o mundo tão franqueado, tão aberto, se eles não tiverem uma pegada de interação afetiva bem profunda, ficam comprometidos os valores e os princípios que devem servir como elementos de referência para que o jovem possa fazer essa excursão sem se perder nesse mundo, que fomenta muitas possibilidades e traz muitos apelos. Quero crer que para os pais dos jovens atuais é um desafio maior porque há que se fazer um investimento maciço na construção de uma base que dê possibilidade de que o jovem voe do ninho e não seja tomado pelo predador.


Ante as comemorações dos 160 anos de O livro dos Espíritos, qual sua opinião a respeito do movimento espírita em geral?

O Movimento cresceu demasiadamente, nos últimos tempos. Numa época de crise, o Espiritismo surge como uma possibilidade de esperança ou uma Doutrina que oferece uma Filosofia de interpretação muito rica, uma ética que está assentada em valores morais, que asseguram uma postura de honestidade, de integridade, de verdade, de congruência que faz falta no mundo moderno. Uma religiosidade, que garanta uma espiritualidade límpida, não caricaturada, um religioso não dogmático, que fica usando o traje de religioso para poder estabelecer a sua convivência no mundo. O Espiritismo é diferente. Nestes dias, ele tem esse ganho de inserção social.

Com o advento dos filmes que vieram de fora e de dentro do Brasil, o Movimento Espírita, especialmente no Brasil, graças a Chico Xavier, a reedição do Pinga Fogo, à posição do Chico no filme que tratou da sua própria vida, da composição do Nosso Lar, enfim, essa série de filmes tratando das temáticas da transcendência, ganhou muito, em termos de divulgação e de expansão.

O que me pergunto e me questiono é se ele conseguiu manter a qualidade. O que ganhamos em largueza, parece que perdemos em profundidade. Há necessidade de imersão nos estudos. Hoje quase não se lê nada. Faz-se uma gravação de oito minutos e a pessoa não consegue ver. Precisa-se gravar até quatro, três e meio. Então, houve um certo distanciamento daquele que se debruça sobre o livro. O livro escasseou.

A cultura espírita, no Centro Espírita, está desafiada a reavaliar as suas atividades para fazer uma proposição que suscite o aprofundamento dos estudos, porque corremos o risco de perder a qualidade. Estabelecemos algumas inserções que não são consertantes no pensamento espírita, fazemos alguns amálgamas, acréscimos, que não fazem parte da estrutura doutrinária espírita.

O Centro Espírita pode, portanto, nesse caminho, perder a sua identidade. Então, o que ganhamos em expansão, talvez não tenhamos ganho correspondente em termos de qualidade doutrinária. Há necessidade, notadamente das lideranças espíritas, dos dirigentes, dos trabalhadores, terem um pouco mais de atenção com o estudo espírita.

Os Centros Espíritas têm recebido uma avalanche de pessoas que os procuram na busca de seus questionamentos, para resolver as suas dores, com a descaracterização que o Espiritismo é coisa do demônio, com a respeitabilidade de Chico Xavier, de Divaldo Franco que, cada vez mais, ganha representatividade em nosso país e fora dele.

Temos uma grande afluência de público aos Centros Espíritas, os eventos quase sempre estão muito cheios, todavia, a unidade fundamental do Movimento Espírita é o Centro Espírita e as Casas que fazem uma coordenação dos Movimentos, as Federativas devem se ocupar para nutrirem os Centros Espíritas com aquilo que é de fundamental importância, que é básico. Um olhar kardequiano, um olhar das obras fundamentais para que não se perca a base, o alicerce para manter o fio de prumo a fim de que o Centro Espírita dê conta de atender as pessoas sem se deixar comprometer, sem se permitir deformar, nas suas atividades para atender aqueles que chegam e tentam imprimir na Casa Espírita, do seu jeito, do seu modo, os seus atavismos, os seus modos personalísticos, as suas histórias religiosas.

Esse caminho exige mais hoje em dia dos dirigentes espíritas. Tenho percebido isso, com relativa preocupação. Mesmo Casas Espíritas respeitáveis, se percebe alguém, numa posição de acolhimento, de trabalhador, claudicando no alinhamento doutrinário, fazendo abordagens que são díspares. Isso demonstra que nosso Movimento Espírita, os dirigentes não estão dando talvez atenção ou não tenham tido tempo suficientemente dispensado para a qualificação. E o Centro Espírita tem como que patinado para manter a sua funcionalidade com fidelidade a Kardec e a Jesus - penso que esse talvez seja o grande desafio, a qualidade.

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 18.3.2017.
Em 27.4.2017.