alessandro viana Você realiza suas palestras baseando-se na obra mediúnica de Raul Teixeira. Assim foi desde que iniciou a sua trajetória de divulgação espírita pela palavra ou somente o fez, após a enfermidade do médium Raul, no intuito de ampliar a divulgação dos seus preciosos livros?

Desde o início do trabalho de divulgação do Espiritismo, tivemos um carinho e uma convivência muito grande com nosso querido Raul Teixeira. Ele sempre foi amigo da família, do meu avô, do meu pai. Quando me tornei espírita, em torno dos quinze anos de idade, já tínhamos contato com Raul Teixeira. Então, houve uma identificação com a forma como ele abordava o Espiritismo, Raul abordou muito a questão da fidelidade na conduta e com a Doutrina. Isso sempre me chamou a atenção. Também a forma de Camilo escrever. Ele é um educador, gosta muito dos assuntos educação e família. Também me identifico com esses assuntos. Portanto, desde o início vimos utilizando seus livros.

Após o AVC de Raul, intensificamos, para ajudar na divulgação da obra. Desenvolvemos algumas palestras, alguns seminários cujo foco são obras de Raul, que eu não tinha antes. Às vezes, usava trechos, pedaços da obra. Depois disso, para estimular a venda dos livros para ajudar o Remanso Fraterno, criamos seminários, palestras, às vezes focando,explicitamente, algumas obras de Raul Teixeira.


Sabemos de um projeto a que você se dedica e que envolve textos da Revista Espírita, de Allan Kardec, uma parceria entre a FEB e a editora Fráter. Poderia nos falar a respeito?

Nas nossas palestras, visitas a outras Casas Espíritas, sempre tive o hábito de fazer uma enquete, perguntar sobre a Revista Espírita. Notei que menos de 1% do público espírita já leu a Revista Espírita integralmente. Onze anos e quatro meses, aproximadamente, de Revista Espírita. Eu queria, de alguma forma, colaborar para a divulgação da Revista Espírita. Então, comecei inicialmente incorporando às minhas palestras mais textos da Revista Espírita para chamar atenção. Depois, surgiu a ideia de estudar toda a Revista Espírita, fazer uma aglutinação por temas. Criei oito temas para que rendesse um livro de três volumes. Isso nos diz quanto a Revista Espírita é grandiosa. O titulo, Um tesouro inestimável, é exatamente isso, temos um tesouro imenso na Doutrina Espírita, que é a Revista Espírita, e ela fica um pouco à margem, esquecida.

Eu trouxe uma parte da Revista Espírita para esses três volumes, estimulei quinze a vinte por cento da Revista Espírita para chamar a atenção do público espírita, para despertar o interesse para quem inicialmente, em lendo a obra, possa buscar integralmente a Revista Espírita, que é algo interessante. Muitas pessoas se esquecem disso. Ela compõe a Codificação Espírita. Se pergunto quais as obras da Codificação as pessoas vão dizer, O livro dos Espíritos, o Evangelho etc. Acabam esquecendo da Revista Espírita. Particularmente, nela aprendi a conhecer mais Allan Kardec. Não que não vejamos Allan Kardec nas demais obras da Codificação. Mas, na Revista Espírita o vemos com mais profundidade. Ali, temos textos mais longos do Codificador, permitindo conhecer um pouco melhor a sua personalidade. Muitas vezes, o Espiritismo é atacado. Allan Kardec defendia o Espiritismo, mas com elevação, pacífico, sem devolver ofensa, sem agredir ninguém. Algo que também muito me chamou a atenção é essa personalidade pacífica de Allan Kardec, o seu bom senso e a sua pedagogia, o que se verifica bastante nos textos da Revista Espírita.


Qual a sua visão do Movimento Espírita, em geral: não estamos perdendo o rumo estabelecido pela Codificação, em termos de unidade de pensamento, considerando a enxurrada de publicações ditas espíritas, nem sempre de boa qualidade?

Isso tem acontecido. Não teria condições de dimensionar em termos de porcentagem do nosso Movimento Espírita. Encontramos muitas Casas Espíritas boas, trabalhadores, pessoas estudiosas, mas também encontramos uma grande parte de pessoas desinteressadas em estudar verdadeiramente a Doutrina.

Quando se fala em unidade de pensamento, de doutrina, não podemos esquecer da unificação do sentimento que, muitas vezes, decorre da falta de estudo. Percebem-se no Movimento Espírita os melindres, brigas, divisões. Enquanto não aceitarmos o sentimento e aprendermos a conviver pacificamente, essa unificação doutrinária fica muito complicada. É verdade que tem faltado estudo à grande parte do Movimento Espírita abrindo uma brecha para que obras de péssima qualidade surjam e sejam aceitas. O problema não é a obra surgir, o problema é ser aplaudida, enaltecida, amplamente divulgada dentro do Movimento Espírita, sem nenhum critério, sem nenhum bom senso.

Esquecemos de uma premissa que o Codificador anota na Revista Espírita e nas demais obras da Codificação, que é a universalidade do ensino [dos Espíritos]. Muitas obras de má qualidade, que trazem ideias esquisitas, confusas, vêm por um médium só. Allan Kardec fala da universalidade do ensino. A falta de estudo faz com que essas ideias estranhas cheguem à Doutrina Espírita, sejam aceitas e acabem gerando divisões, confusões, atritos. Verificamos isso por parte do Movimento Espírita, por conta dessa carência em estudar a Codificação, voltar aos clássicos da Doutrina Espírita. Quando se pergunta sobre Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, Herculano Pires, Cairbar Schutel, Deolindo Amorim, Yvonne do Amaral Pereira, não há referência desses clássicos da Doutrina.

Então, é o momento de resgatarmos Kardec e esses clássicos da Doutrina, Chico Xavier, para que possamos ter essa base sólida doutrinária. Daí, essas obras de má qualidade naturalmente, não serão aceitas, irão deixando de existir dentro do Movimento Espírita.

E considerando a arregimentação para a qual rumamos, muitos têm falado da reforma íntima, da melhoria da criatura, mas ainda temos visto que não despertamos para algo crucial que é o cuidado com nosso planeta, o cuidado com onde estamos e que deverá abrigar essa Nova Era. O que fazer para despertarmos para essa questão e trabalharmos isso com profundidade?

Devemos levantar esta temática na Casa Espírita. É uma temática da Ecologia, o cuidado com o planeta Terra. O confrade espírita André Trigueiro trouxe mais recentemente esse assunto para a Doutrina Espírita. Mencionamos, no início, a obra de Camilo. Em Educação e vivências, os três primeiros capítulos são destinados à Ecologia, onde ele fala do cuidado com o planeta, da nossa conduta em relação a esta casa, esta morada comum que temos que cuidar. Quando tratamos de transição planetária é importante que possamos tratar de todos esses segmentos. Falamos agora há pouco do estudo, da parte intelectual, da formação doutrinária. Temos que tratar assuntos que habitualmente não fazem parte da pauta das exposições da Casa Espírita. A preocupação é verídica e da nossa parte, enquanto dirigentes, enquanto trabalhadores da Casa, incluirmos esses temas.

Em nossa cidade, Itapetininga, anualmente, estudamos esse assunto, Ecologia, onde falamos desse cuidado que temos que ter com o planeta, o cuidado com o meio ambiente, o amor aos animais. Camilo chama a atenção para tomarmos cuidado com a paixão neurótica pelo meio ambiente porque há pessoas que amam os animais, mas, não convivem com pessoas. Há pessoas que dizem que amam a Amazônia, mas são incapazes de abraçar o próximo. Quando a Doutrina Espírita nos fala de Ecologia, esse amor à Terra abrange todos os seres vivos.

Então, respeito ao vegetal, ao animal, o respeito à criatura humana, a convivência e os cuidados. As pessoas pensam: Eu cuido do meio ambiente, não jogo papel no chão etc. Camilo fala da Ecologia mental, da poluição energética do planeta, porque às vezes nós não jogamos um papel no chão, mas, somos fonte emissora de pensamentos de má qualidade, de pessimismo, de inveja, ódio. Estamos poluindo o planeta energeticamente.

Vejamos que é um assunto bem complexo. Ecologia, do ponto de vista material, que é o meio ambiente propriamente dito e esta Ecologia do ponto de vista psíquico, energético com o qual temos que colaborar. A Terra, nesse processo de transição planetária, vai se elevando e temos que entrar em sintonia com essa elevação do planeta, não só por essas ações mais simples, mas, também pelo comportamento, pelo pensamento, pelas aspirações. Temos que tratar desse assunto como mais profundidade no Movimento Espírita.


Prepararmo-nos para essa Nova Era, adquirindo virtudes que ainda não conquistamos não é fácil, nem rápido. Como desenvolver a perseverança, a humildade, o altruísmo, as virtudes que necessitamos para migrarmos do planeta de provas e expiações para o de regeneração?

Quando falamos de um mundo de regeneração é importante entender que esse mundo de regeneração primeiro começa em nossa morada íntima, temos que regenerar de dentro para fora para colaborar para um planeta de regeneração. É importante essa tomada de consciência, porque alguns cruzam os braços aguardando que os Benfeitores Espirituais ou que os Espíritos que estão reencarnando para colaborar nesse momento promovam a regeneração do planeta. Temos que cooperar para a regeneração do planeta.

Para a nossa mudança moral, não vejo outra forma senão o autoconhecimento, que, às vezes, é uma palavra muito usada pelo Movimento Espírita, mas, muito pouco exercitada pelos espíritas. Fala-se muito de autoconhecimento, mas, se em uma palestra, no grupo de estudos, pedirmos que as pessoas, em trinta segundos, anotem três dos seus defeitos e três virtudes, veremos a dificuldade. É uma ansiedade, a pessoa não sabe.

A pessoa vai ficar com o papel dez, trinta minutos na mão, incapaz de anotar uma ou duas virtudes, um ou dois defeitos. Por quê? Porque não se conhece. E para desenvolvermos virtudes, temos que fazer esse trabalho de escaneamento, de autópsia espiritual para que possamos identificar, não só as fragilidades, mas, também os aspectos bons que trazemos. E trabalhar, reforçar esses aspectos bons. Trabalharmos esses defeitos para conseguirmos desenvolver as virtudes. Ver quais são as virtudes de que carecemos: paciência, desprendimento, caridade, desapego. E vamos trabalhando no dia a dia, no cotidiano, vamos nos auto-observando desde as experiências mais simples às mais complexas do cotidiano, no relacionamento humano. Vamos observando em que ponto estamos avançando.

Outro ponto importante: autoavaliar-se,periodicamente. Joanna de Ângelis propõe isso numa de suas obras. Ver como éramos há cinco anos, como estamos hoje. O que melhoramos, o que nos está faltando? A evolução é pessoal, esta autoanálise é essencialmente pessoal. É verdade que as pessoas podem colaborar. Alguns chegam e nos apontam alguns equívocos e, se tivermos humildade, diremos: Você está correto, preciso mudar isso. Sem autoconhecimento não há mudança moral e sem mudança moral, não estamos colaborando para esse mundo de regeneração do porvir.


Em sua opinião, as mídias sociais com suas possibilidades enormes, tanto para o bem quanto utilizadas mais negativamente, favorecem ou constituem um entrave à nossa evolução, ao surgimento desse homem novo?

Nós podemos fazer uma análise sob duas perspectivas. É fato que a mídia, a tecnologia, a Internet, as redes sociais são uma ferramenta neutra. Cabe ao indivíduo fazer bom ou mau uso, mas, como a maioria das criaturas humanas tem essa dificuldade moral, Joanna de Ângelis aponta que, por falta de moral, a criatura humana ainda não aprendeu a usar bem a tecnologia.

Ela se distrai demais com a tecnologia, perde muito tempo com as conexões da Internet. Às vezes, passa muito tempo com bate-papos vazios, perde tempo. Vemos pessoas a todo momento conectadas, mexendo no celular sem que isso lhes traga nenhum aprendizado, nenhum crescimento. Como, às vezes, faltam recursos morais, para grande parte dos habitantes da Terra, esse excesso de tecnologia pode gerar essa distração para as questões reais.

Também é verdade que as pessoas conscientes podem usar essas ferramentas para ajudar, e muito na divulgação espírita. Allan Kardec, quando dividiu os quatro períodos do Espiritismo, na Revista Espírita, assinalou como quarto período – A influência sobre a ordem social. É o que estamos vivendo no momento. Ele fala que um dos meios de influenciar a ordem social é atingir as massas e atingimos as massas também pelas redes sociais. Então, colocando uma mensagem, colocando um texto, uma palestra no Youtube, podemos usar esses meios nas redes sociais para gerar essa colaboração para a divulgação do Espiritismo, para o bem do Evangelho.

Deixamos essas duas perspectivas, uma mais negativa, do ponto de vista moral, pelas distrações que traz. Há pessoas que ficam horas na Internet sem fazer nada, matando tempo, perdendo tempo. E há outras que ficam muito tempo, divulgando, aprendendo, estudando, consultando.


Gostaríamos nos falasse das alegrias das comemorações dos 160 anos de lançamento do livro luz, O livro dos Espíritos – o que tem visto e sentido no Movimento Espírita.

Quando analisamos o que o Espiritismo tem produzido na Terra, a nossa visão é de profunda gratidão. Allan Kardec, visitando Lyon, na França, teve oportunidade num dado momento de seu discurso [Revista Espírita, outubro de 1861], fazer uma pequena análise do que ele havia produzido, porque o Espiritismo ainda era atacado de causar o mal, de propagar o mal. Diz Kardec: Quantos suicídios evitados! Quantas esperanças renovadas, quantas vidas erguidas, quantas pessoas modificadas para melhor.

Então, quando tomamos essa perspectiva de Kardec e agora projetamos nos 160 anos, são imensuráveis as bênçãos que o Espiritismo tem produzido coletiva e individualmente. Quando analisamos esses 160 anos sob essa perspectiva coletiva, quantas pessoas beneficiadas pela lucidez da Doutrina, pessoas que superaram depressões, lutos, conflitos graças à informação do Espiritismo.

Particularmente, analisando a minha vida, não consigo imaginar o que seria dela sem o Espiritismo. Naturalmente, ainda trazendo muitos limites, muitos defeitos, mas, se não fosse o Espiritismo certamente estaria numa sombra, numa vida muito mais complicada, porque o atrativo da matéria é muito forte. A Doutrina Espírita, portanto, tem sido para mim, uma bússola a nortear-me os passos na Terra, na direção do Criador e dos ensinamentos do Cristo.

Alessandro, gostaria de deixar uma mensagem final para aqueles que estão nos assistindo, uma mensagem de consolo?

A mensagem que gostaríamos de deixar é a mensagem espírita para este momento de crise. Como o nosso querido Divaldo falou na sua palestra de abertura da Conferência, a palavra mais usada é crise. Mas, por detrás de todas essas crises, temos a crise moral. É o momento de nos voltarmos a Jesus, resgatarmos o Evangelho, colocarmos na pauta de nossas vidas a vivência das virtudes para que possamos superar esse período difícil da Terra, colaborando para que possamos nos colocar em condições de sermos uma carta viva do Evangelho.

A mensagem que deixo é que possamos tomar consciência deste momento especial da Terra, deste momento de viver Jesus, estudar Kardec para que possamos ser um braço da Espiritualidade Superior deixando um pouco de luz para aqueles que caminham nas trevas. Que possamos deixar essa pequena luz, com as nossas atitudes, com as nossas falas. Que os nossos pensamentos possam servir de referência para aqueles que ainda caminham atrás.

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 18.3.2017.