cezar braga saidCezar, você é do Paraná, mas reside no Rio de Janeiro. O que motivou essa mudança?

Meu pai é do Paraná, de Jacarezinho. Durante alguns anos moramos em Jacarezinho, em Londrina, em Ibaiti. Minha mãe é do Rio de Janeiro. Então, nos revezávamos, alguns anos no Paraná, alguns anos no Rio de Janeiro. Esta é a origem da minha ida para lá.

O meu contato com a Doutrina se deu no Rio de Janeiro, muito embora minha avó paterna frequentasse um Centro Espírita em Jacarezinho e lia as obras de Allan Kardec, que a mim, criança, chamavam a atenção. Eram obras com encadernação clássica, grossa. Recordo-me dela me levando, pequenino, algumas vezes ao Centro para tomar passes.

Como se deu essa aproximação com o Espiritismo.

Foi na cidade de Nova Iguaçu, onde resido. Os meus irmãos, todos médiuns, tiveram uma passagem pelo Centro Espírita, pelo Movimento Espírita, mas, não permaneceram. Somos cinco irmãos, eu sou o quarto. O caçula não chegou a ter contato com a Doutrina Espírita, desencarnou antes.

Eu cresci convivendo com o fenômeno mediúnico dentro de casa, porque os irmãos recebiam Espíritos e minha mãe conversava com eles. Eu via aquilo com muita naturalidade, normalidade. Eram fenômenos de psicofonia que se davam dentro de casa, até que um amigo disse que estava recebendo um Espírito na casa dele e me perguntou se eu gostaria de conversar com esse Espírito.

Perguntei se o Espírito ficaria chateado se eu não fosse. Ante a afirmativa do amigo, decidi ir à casa dele.

Lá estava um outro amigo que me ofertou a obra “O que é o Espiritismo”, porque eu demonstrei muito interesse por aquele Espírito que incorporava nesse companheiro. Voltei no tempo, às incorporações de meus irmãos e me interessei. Eu tinha mais ou menos dezessete para dezoito anos, nessa época.

E como essa trajetória o levou a se tornar expositor espírita?

Passei a frequentar mocidades espíritas. Nas mocidades, existem os estudos que são feitos pelos diferentes jovens. Na época, seguíamos as apostilas da Federação Espírita Brasileira. Aquilo foi gerando um acúmulo de informações, uma vontade de falar a respeito, de divulgar. Então, no próprio Centro Espírita, onde eu frequentava a mocidade, começamos a fazer pequenas exposições de vinte a trinta minutos, nas reuniões públicas, também na própria mocidade, que passei a coordenar.

E, quando se começa a falar no Centro, logo se vai para outros Centros. Assim tem sido, especialmente, no Rio de Janeiro.


Como você começou a se interessar em escrever livros, como surgiu o escritor?

Desde criança, morando numa cidade do Estado do Rio, nessas idas e vindas, hora para atender as saudades de minha mãe, hora para atender as saudades do meu pai, tinha um colega que escrevia histórias em quadrinhos. Eu me interessei também por escrever histórias em quadrinhos. Ele escrevia, vendia para os colegas do bairro e ganhava até um dinheiro. Pensei que eu também poderia, quem sabe, ganhar algum dinheiro.

E comecei a escrever histórias em quadrinhos, só que a única pessoa que comprava as minhas histórias era o meu irmão caçula. Acho que elas eram tão ruins que não vendiam absolutamente nada.

Sempre gostei muito de escrever redações. Na escola, cheguei a escrever duas peças de teatro, ou algo que se assemelhasse a isso. Enfim, trabalhando com crianças, veio a inspiração para escrever para elas. Por isso, os primeiros escritos que foram publicados foram para crianças. A maior parte do material que tenho publicado é para o público infantil.

Você escreveu um ensaio biográfico sobre Raul Teixeira, na época em que ele ainda palestrava muito, era muito ocupado. Como se deu esse recolhimento de informações, como foi o processo dessa publicação?

A minha relação com Raul vem de um encontro de jovens que ocorreu na cidade serrana de Petrópolis. Assistindo-o numa COMEERJ, que é a Confraternização das Mocidades Espíritas do Estado do Rio de Janeiro, o tema era “Ave, Cristo”, de Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Raul nos narrou fragmentos do livro “Ave, Cristo” e fiquei encantado. Fiquei impressionado com o estilo, com a eloquência, o magnetismo dele, mas, não ousei me aproximar. Pensei: “Esse homem é tão famoso, tão poderoso, quem sou eu para me aproximar dele, um jovem com tantos conflitos, com tantas dificuldades?”

E o fiquei namorando à distância. No ano seguinte, o evento foi em nossa cidade porque as chuvas impediram que novamente ocorresse na cidade de Petrópolis. O tema da palestra de Raul foi “Vós sois o sal da Terra e a luz do mundo.”

Novamente todo aquele brilhantismo que sempre o caracterizou e aquela simplicidade, também sua marca pessoal, os que lhe são próximos sabem o quanto ele é simples, bem humorado, o quanto ele é gente como a gente. Uma senhora amiga me levou até ele, dizendo que iria me apresentar. Eu estava meio trêmulo. Ele me abraçou e disse para ela: “Você quer me apresentar o Cezar? Eu já conheço o Cezar.”

Fiquei sem entender absolutamente nada. Ele pediu para que eu lhe escrevesse, que estreitássemos os laços. Possivelmente, se deu um reencontro e, a partir desse reencontro, indo a palestras dele e vendo que Divaldo tinha algumas biografias, a grande biografia escrita por Suely Caldas [Schubert], “O semeador de estrelas”; mais as escritas por Miguel de Jesus Sardano, Fernando [Pinto] e Altiva Glória Fonseca Noronha, pensei que estava faltando uma biografia sobre José Raul Teixeira. Nada mais justo. Eu insistia e ele dizia: “Não, a minha vida não tem feitos grandiosos que mereçam uma biografia. Cezar, desiste disso, isso é completamente desnecessário.”

Sempre muito autocrítico, ele não via necessidade de um trabalho assim. Finalmente, quarenta anos de oratória espírita estavam prestes a se completarem e sugeri: “Raul, deixe eu reunir algumas histórias, alguns fatos ligados a sua vida?”

Ele aquiesceu. Fizemos algumas gravações. A partir delas, reuni o material e fizemos essa publicação. Particularmente, nem considero uma biografia. Biografia mesmo quem escreveu foi um amigo de Volta Redonda, Osvaldo [Esteves Faria]. Nesse sim há uma riqueza de detalhes sobre a vida de José Raul Teixeira. O que fiz considero muito mais um ensaio biográfico, reunião de algumas histórias, do que propriamente uma biografia completa, ampla, profunda como foi o trabalho do nosso Vadinho [Osvaldo], publicado pela Editora Fráter, que tem como título “O chamado dos Irmãos da Luz.”

E como foi a pesquisa que resultou no livro Joanna e Jesus - uma história de amor?

Vindo à Conferência [Estadual Espírita, no Paraná], para fazer o lançamento do livro de Raul, num determinado momento, naquela sala que fica atrás do palco, Divaldo estava fazendo um lanche. Sentei-me um pouco à distância, ele puxou conversa: “ Gostei do livro que você escreveu.”

Eu também não ousava me aproximar muito de Divaldo. São essas invencionices, essas idealizações que fazemos quando não conhecemos de perto esses médiuns.
“Gostei, por causa disso, por causa daquilo.” E há algumas passagens em que ele é citado. Então, nos aproximamos um pouco mais. Na hora dos autógrafos, sentava Divaldo, Raul e todos os grandes e ilustres convidados, eu sentava lá no cantinho. Nessa hora Divaldo sentou, eu entrei, fui de novo para aquela última cadeira e falei: “Meu Deus, cadê o povo para os autógrafos? Fica até deselegante ele ficar em uma ponta e eu na outra ponta.”

Então, resolvi, muito timidamente, sentar do lado dele. Conforme os autógrafos iam transcorrendo, ele começou a me narrar algumas histórias da vida de Clara e Francisco e eu disse para ele: “Você tem muito pudor em afirmar que Joanna tenha sido a reencarnação de Clara ou que Clara posteriormente reencarnou como Joanna, Joanna no México, Joanna na Bahia.”

“É que a gente não tem como provar.”

Ele continuou narrando histórias e eu me emocionando. Foi quando eu propus:
“Você não gostaria que eu reunisse algumas dessas histórias que você está me contando num livro?”

Ele: “Eu vou pensar, deixa eu pensar.”

Pouco tempo depois, um ou dois meses, ele respondia dizendo que poderíamos fazer algumas gravações, mas, teríamos que ver como gerir o tempo tendo em vista a vida atribulada dele. Fui à Mansão, fizemos uma gravação no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de ir à cidade de Assis, na Itália, reuni alguns livros. Foi uma pesquisa bastante demorada. Simultaneamente, ele me ofereceu a possibilidade de outra obra que também me deu muito trabalho. Todas as obras dele dão trabalho porque demandam pesquisa e domínio de informações que eu não tenho, que eu preciso ler, dar tempo para a minha cabeça amadurecer a informação e fazer as conexões de uma parte com outra. Então, o livro “Joanna e Jesus” nasceu dessa maneira.

Quando estava quase terminando ele me ofereceu as cartas que Chico havia escrito para ele, as mensagens que Chico havia recebido para ele, de alguns Benfeitores.

Daí, entre a conclusão do livro “Joanna e Jesus” e o início desse outro trabalho chamado “Amigos para sempre”, fiquei pensando como concluir uma coisa e iniciar outra. Mas, não posso deixar de dizer também que recebi muito apoio.

Nessa ida, por exemplo, à Itália, recebi ajuda financeira de companheiras da Suíça. Eu tinha ido à Suíça pela primeira vez e não sabia que a Suíça estava no centro da Europa, que faz fronteira com a Itália. Eu achava que era muito longe. As companheiras, muito queridas por Divaldo e que lhe querem muito bem, financiaram minha ida até a Suíça onde eu reuni mais material. Estive no Mosteiro da Lapa, só não pude ir a San Miguel Nepantla, no México porque não tinha recursos. Mas, não posso deixar de registrar todo o apoio que eu recebi de Maria Helena Marcon para a conclusão desse trabalho. Ela é a alma que, nos bastidores, deu todo o apoio.

Você está lançando outro livro, também com cunho infantil e voltado para José Raul Teixeira que é esse nosso grande orador e grande trabalhador espírita. Como foi esse processo, sobre o que é o livro? Conte um pouquinho.

Este livro é para o público infantil, baseado no livro do nosso companheiro Vadinho, de Volta Redonda. É um livro que tenta falar em uma linguagem lúdica, bem simples. É uma edição primorosa porque as ilustrações são muito bem feitas.

Comentei, com minha esposa, que dos livros infantis que escrevi é o que recebeu a edição mais bem trabalhada, mais bem detalhada. É um livro que objetiva que a memória de José Raul Teixeira fique também na mente e no coração das crianças, porque no coração e na mente dos adultos ela já está, de todos aqueles que admiram o trabalho dele, a fidelidade à Doutrina, a coerência do seu comportamento, a sua postura. O desejo era levar Raul Teixeira para as crianças. Ele tem obras psicografadas para o público infantil, a obra social Remanso Fraterno, basicamente, está voltada para crianças.

Sua mensagem final.

A mensagem é que todos estudem as obras de Allan Kardec porque como disse muito bem o escritor Hermínio Miranda, a última palavra no Espiritismo não foi dada por Allan Kardec, mas a primeira palavra em Espiritismo foi dada por Allan Kardec.

Não há como conhecer e entender Joanna [de Ângelis], Camilo, entender toda a vasta literatura espírita, mediúnica ou não, sem esse eixo norteador que se chama Codificação Espírita. Que todos nós tenhamos sempre tempo para estudar, para ler, reler e nos aprofundarmos na Codificação Espírita.


Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 19.3.2017.
Em 19.5.2017.