entrevista divaldo pereira franco 332x238Divaldo, 90 anos de vida, 70 anos de oratória espírita, uma semeadura de bênçãos inigualável. Fazendo um balanço de tudo que produziu e continua produzindo, como você vê sua própria trajetória? Foi além do esperado, do concebido por você, na juventude, ao iniciar a sua caminhada?

 
Quando era jovem tinha a preocupação de que breve seria a minha existência na Terra. Relativamente, os jovens, em geral, têm essa preocupação de que não lograrão uma existência longa. Desde o dia em que proferi a primeira palestra, 27 de março de 1947, em Aracaju, passei a ter a certeza de que o Espiritismo ao deslumbrar-me, preencher-me o vazio existencial, me proporcionaria oportunidades muito vastas de levar a mensagem adiante. Eu era muito jovem e, àquela época, os jovens, invariavelmente, não se envolviam com as questões da Doutrina a exceções grandiosas, como Ivan de Albuquerque e outros.


Para nós, no Nordeste, não havia nenhum exemplo e eu sentia uma necessidade imensa não só de expor, mas de viver. A primeira preocupação que tinha era incorporar o Espiritismo ao meu modo de vida. Felizmente, as minhas bases religiosas da Doutrina Católica favoreceram-me porque tinha o hábito de orar, tinha o hábito de meditar, havia adquirido o hábito de aprofundar os conceitos em torno do pensamento de Jesus. Foi muito fácil, tirei somente as anfractuosidades dogmáticas e encontrei na essência o pensamento do Mestre. Entreguei-me, de tal forma, que me esqueci das outras coisas. Certo dia, alguém me perguntou: “Por que você não se casou?”
Eu disse: “Porque não me lembrei.”

A Doutrina me preencheu de tal forma que não me ocorreu. Quero dizer, evocando Chico Xavier com Emmanuel – afinal, o verdadeiro casamento, que é um compromisso legalizado pelas determinações de cada país, é esse sentimento de união, com qualquer coisa, com qualquer ideal e, principalmente com um parceiro que seja realmente parte da nossa vida para a grande obra. Então, realmente, às vésperas dos noventa anos, posso dizer que lamento não ter sabido aproveitar melhor o tempo e não ter podido entregar-me de todo a essa Doutrina fascinante e libertadora.
 
Ao longo de sua jornada de trabalho, sabemos que você sofreu calúnias, perseguições. Depois de todas essas décadas de dedicação à divulgação espírita, as pessoas estão mais plenas de gratidão, compreendendo-lhe o esforço e as edificações no bem?
 
Eu gostaria de contar um fato que é quase anedótico. Por volta das realizações de Fidel Castro, em Cuba, quando ele saiu de Sierra Maestra, conquistou Havana e surgiu o Paredón, no qual ele mandava matar os ditos inimigos da revolução, percebi que muitos religiosos foram sacrificados. Eu era jovem, estava com vinte anos, vinte e dois, entusiasmei-me. Amava tanto o ideal espírita que desejava ser mártir. Quando eu lia vidas, principalmente Há dois mil anos, a obra grandiosa de Emmanuel, através do venerando apóstolo da mediunidade, Chico Xavier, eu me fascinei. A minha vida era tão cômoda, ao mesmo tempo tão vazia. Funcionário público, as atividades do dia, na repartição, as atividades da noite, cultivando a Doutrina Espírita, meus pais, meus irmãos, que são todos adoráveis, e eram muito bons comigo. Comecei a anelar ser mártir eu vou entegrar minha vida a Jesus. Um dia, eu disse a Joanna de  ngelis: “A senhora poderia pedir a Jesus, para eu ser mártir?”
Ela me perguntou: “Como?”
“Eu gostaria de viajar a Cuba, ir pregar o Espiritismo, porque logo eu seria preso e levado ao Paredón. Talvez eu fosse um mártir do Espiritismo.”
Ela me olhou ternamente e disse: “É uma solicitação muito profunda, eu vou encaminhá-la a São Francisco para que ele peça a Jesus.”
Fiquei na expectativa. A resposta não vinha: uma semana, dez dias. Por fim, um mês e ela me disse: “Meu filho, o Mestre aceitou. Você será mártir do Espiritismo.”
Exultei e comecei a chorar: “Quando será?”
Ela respondeu: “Você está procurando martírio ou exibicionismo?”
Eu disse: “Claro que eu estou procurando martírio.”
“Então, Ele determinou que você terá uma vida longa e morrerá devagar, cada dia. Será apedrejado, incompreendido. Ir para o Paredón e receber uma bala é muito rápido. Qualquer pessoa pode realizar. Para você Ele reservou um martírio muito longo e odiado.”

Tem sido uma jornada extensa. Pela minha forma de ver e o meu temperamento, todas essas experiências, que são chamadas dor e sofrimento, não chegaram a me martirizar. Digo como Kardec, quando ele faz uma análise dos dez primeiros anos - as experiências psíquicas do Mundo Espiritual Superior são-lhe tão encantadoras - que eu considero essas dificuldades como acidente de percurso. Passei algumas provas muito duras, algumas acusações que considero indébitas, mas, aceitei-as sem murmurar. Nunca me queixei, jamais falei mal de qualquer pessoa, pelo menos em público. No particular, Evangelho à parte, algumas considerações fraternas. Mas a verdade é que considero o que Joanna de  ngelis [Espírito] sempre me diz: “Se chegares ao mundo espiritual, a primeira condecoração que o Mestre verá em ti será a cicatriz dos testemunhos, porque ser espírita é tão fácil, tão encantador. O que estás dando ao Movimento Espírita? Portanto, as feras já não existem, as lareiras ampliaram-se, os testemunhos serão as pequenezes das incompreensões que tens o dever de entender.”

Graças a isso, confesso que não me martirizaram as incompreensões. Recebi bofetadas no rosto mais de uma vez, preguei sob pedradas em cidades do Interior, estive em países onde nunca, que se saiba, se pronunciou a palavra espírita, Espiritismo ou Allan Kardec. Mas Deus, na Sua Infinita misericórdia, me proporcionou experimentar momentos de indizível felicidade.

No ano de 1956, eu estava no Rio de Janeiro pela primeira vez para iniciar uma série de palestras que faço, anualmente, até hoje. Ao terminar a primeira palestra, estava muito contente. Era jovem, inexperiente, estava hospedado com duas senhoras gentilíssimas que eram minhas mães. Estava orando, naquele tempo, de joelhos, herança atávica do Catolicismo, eu achava que me dobrar era uma reverência a Jesus. Diante de uma personalidade, de uma autoridade temos tantos salamaleques, diante do Mestre eu deveria ter uma postura condigna.

Naquela ocasião, eu estava de joelhos, orando, adormeci e tive um sonho peculiar. Eu estava acompanhado por Nilson de Souza Pereira, um amigo da família que era o meu braço direito, ou melhor, os meus braços direitos. Eu via o céu com uma nuvem muito curiosa que formava um perfil que, na minha imaginação, pareceu o Cristo, essa visão tradicional. Então eu disse: “Nilson!”

Quando me voltei para ele, para mostrar, a cinco metros estava de costas alguém com tecido de tarja roxa para o cinza, a cabeleira muito grande sobre os ombros, conforme a tradição. Eu disse: “Mas é o Cristo!”

Ele voltou somente a cabeça, formando ângulo reto com o ombro. Eu disse: “Senhor!”
 Ouvi uma pergunta: “Tu me amas?”
“O Senhor sabe que O amo.”
“Então, perdoa a todos que te ofenderam.”
Pela mente passaram evocações. Ninguém nunca tinha me ofendido, pelo menos que eu soubesse. A voz impassível perguntou: “Tu me amas?”
 Lembrei do diálogo [de Jesus] com Pedro e disse: “Tu sabes que te amo.”
“Então, perdoa todos aqueles que te ofendem.”
Tempo presente. Pensei quem me ofendeu e daria importância para mim? Bem sério, ele tornou a falar: “Se tu me amas perdoarás a todos aqueles que venham um dia a te ofender. Tu perdoarás?”
Respondi: “Sem dúvida, pelo amor do Senhor, sempre perdoarei.”
Ele concluiu: “Não te esqueças, o perdão é a pérola mais preciosa do colar Divino do amor de Deus.”

Naturalmente que não foi Jesus. Foi uma projeção ideoplástica mas, a partir dali, quando comecei a experimentar as dificuldades, os desafios no lar, no trabalho, na rua, sempre me vinha a imagem. Até hoje, quando algo não ocorre conforme espero, eu digo: “É assim que Ele quer.” E submeto-me. Dessa forma, encontro no trabalho de divulgação a seiva da vida e se tivesse que começar outra vez, gostaria de começar e viver as mesmas experiências que me amadureceram e me tornaram pequeno diante da grandeza de Deus.
 
Os grandes médiuns como Francisco Cândido Xavier, Yvonne do Amaral Pereira já adentraram a Espiritualidade. Não temos visto surgirem médiuns seguros, de potencial semelhante a desses missionários.
Isso sinaliza que adentraremos em nova fase da Doutrina Espírita, uma fase em que não teremos produção tão vasta e tão segura de obras mediúnicas?
 
Quando vejo algumas mensagens frívolas, rotuladas com nomes de alta importância; quando vejo indivíduos cultos tornarem-se menos para venderem livros, por causa da mística que envolve o médium; confesso que sinto uma grande dor no coração porque se nasce médium, não se fabrica a mediunidade.

Kardec, com propriedade, disse que a mediunidade é uma faculdade orgânica, então, ela tem seus primórdios, tem as suas manifestações empíricas, perturbadoras, tem as obsessões, as experiências com os Espíritos mais materializados até poder desenvolver-se através do esforço moral do médium. Conheço pessoas que jamais tiveram essa sensibilidade, são excelentes escritores e passaram a se rotularem como médiuns, recebendo Entidades venerandas cujo conteúdo não corresponde ao valor que o Espírito possui.  E vendem porque as pessoas não estão esclarecidas da universalidade do ensinamento. Isso traz um pouco de melancolia. As figuras ímpares de Chico Xavier, de Yvonne do Amaral Pereira, de Zilda Gama e de um número enorme de pioneiros da mediunidade fazem lembrar da seriedade, dos sofrimentos, do calvário que viveram, antes do festival da mediunidade aplaudida em detrimento da transformação moral do próprio médium.

Penso que recebemos informações tão valiosas até este momento que novas adições seriam desnecessárias porque necessitamos incorporar o que recebemos. Um dia, me disse Chico Xavier: “Ao desencarnar eu não virei ditar mensagem alguma porque tudo o que eu posso dizer já foi dito por Emmanuel. Não irei repeti-lo com a mesma grandeza, irei para outro trabalho e não me complicarei.”
De fato, tenho lido algumas páginas a ele atribuídas e que nada têm a ver. Isso é um grito de alerta para que leiamos também os autores encarnados, portadores de um longo patrimônio, e que este momento é o da vivência de todo esse material que nos foi dado. André Luiz permanece ainda desconhecido. Cada vez que se faz uma descoberta que confirma André Luiz é fascinante. Emmanuel, nas interpretações evangélicas. Vemos hoje a psicologia transpessoal repetir ipsis verbis aquilo que Emmanuel já havia dito. E assim por diante. As revelações através de Yvonne do Amaral Pereira tão profundas. Essa senhora foi crucificada em vida para colocar a mediunidade nos padrões kardequianos, sem nenhum equívoco, até a morte gloriosa.

Então, parece que nesta transição, essas novidades fazem parte do período e logo mais a mediunidade, como está prevista no capítulo II, dos Atos dos Apóstolos, se espalhará entre todas as criaturas. Médiuns, em potenciais diferentes, poderemos exercer os fenômenos da telepatia, os fenômenos anímicos, de incorporações de Entidades venerandas em nossas Casas de Beneficência, de caridade, de desobsessão, de socorro. Sob esse aspecto, assim acredito.
 

Você que visita o Paraná, há sessenta e três anos, tendo vivenciado várias fases do Movimento Espírita Estadual e no país, como o conceitua na atualidade? Teria algo a nos recomendar?
 
Gostaria de dizer que sou baiano de corpo físico e paranaense de alma. A primeira vez que, no avião Douglas, saí de São Paulo a Curitiba para conhecer o Lar Icléia, por sugestão de um amigo, quando vi os pinheiros, fiquei apaixonado.

No dia seguinte, fomos a Ponta Grossa, Senhor Ghignone, Presidente; Abibe Isfer, Vice-Presidente, Doutor Ernani Cabral, convidado especial, um nobre Juiz de Direito, que escrevia no Reformador uma coluna intitulada Interpretando a Paulo. Saímos de Curitiba, na velha estrada de poeira a Ponta Grossa. Na subida da serra, há uma depressão muito grande na rocha. O senhor Abibe, dirigindo um veículo azul, em uma velocidade peculiar de 60km, disse: “Esse é o vale de Josafá.”

Olhei aqueles pinheiros verdes, as taças voltadas para cima, me apaixonei. Quando chegamos à Princesinha dos Campos, Ponta Grossa, conheci a vida dos espíritas que ali mourejavam, me senti tão tocado que também me apaixonei por Ponta Grossa. Fazendo um acompanhamento de todos os anos desde aquele, em que estive no Paraná, em algumas cidades, em Curitiba uma, até três vezes durante um ano, posso dizer, sem nenhum demérito para qualquer Instituição ou cidade, porque a Doutrina é de Jesus, que no Paraná, sempre bebi as melhores lições de Espiritismo. A vivência da Doutrina Espírita sempre me encantou, naturalmente, nos seus momentos gloriosos, nos seus momentos desafio, conforme a vida é sinuosa e não uma grande inclinada, uma grande vertical. Nestes dias, que preparamos a grande transição, que já se opera, o Espiritismo, através da Federação Espírita do Paraná, mantém-se imaculado pela fidelidade absoluta à Codificação, como também em outras cidades, em outros Estados, em que temos uma fidelidade total, graças ao movimento de Unificação patrocinado pelo Conselho Federativo Nacional da FEB. O Paraná de destaca entre as Instituições mais respeitáveis e mais devotadas ao Espiritismo.

Considero uma honra poder falar no Paraná. Quando me chega o convite, me emociono porque sempre receio não ser convidado, por não ter as condições de trazer a mensagem de que sou instrumento a um público, além de culto, trabalhador da causa e dedicado à Seara do Cristo, através das características do Espiritismo.
 
Agradecendo pela disponibilidade do seu tempo, prezaríamos pudesse deixar uma mensagem aos espíritas, aos trabalhadores, a todos os que o ouvem, a respeito dos 160 anos de Espiritismo na Terra.
 
Que nos possamos amar. Estes 160 anos de O Livro dos Espíritos podem ser sintetizados naquela frase inolvidável: “Espíritas, amai-vos, este é o primeiro mandamento, instruí-vos” -  é naturalmente uma consequência daquele primeiro.

Recordo-me de uma mensagem de Lázaro [Espírito]: “Quando Jesus pronunciou a Divina palavra amor, os túmulos abriram-se e aqueles que dormiam levantaram-se para cantar a grande glória. O Espiritismo hoje vem pronunciar uma segunda palavra do alfabeto Divino, a reencarnação.”

Mas, no cômputo dessas expressões ressalta a figura incomparável de Jesus, Modelo e Guia da Humanidade. Que possamos realmente amar. Temos o direito de discrepar, mas, não de dissentir. Podemos pensar diferentemente, porque isso faz parte de nosso nível de evolução, mas, não lutarmos uns contra os outros, quando o verbo é estar um ao lado dos outros. Ao invés de competir, cooperar.

Você, caro amigo, cara amiga, telespectador, ouvinte, companheiro do coração, ame. Se alguém não o ama, isso não é importante. Quando você não ama, isso é importante. Não se preocupe com os inimigos, todos temos inimigos. Ter inimigos é porque estamos na carne, somos humanos. Não seja inimigo de ninguém. Haja o que houver, seja você quem dispute a alta honra de amar, de servir e de dominar a consciência do outro, demonstrando que Jesus está no seu coração. Muito obrigado.

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 18.3.2017.
Em 30.5.2017.