jorge godinho ok 2Gostaríamos de conhecer um pouco a respeito de Jorge Godinho Barreto Nery: o homem, o profissional, o espírita.

Falar de si mesmo nem sempre é bom, mas, posso dizer que nasci em ambiente espírita. Minha mãe era espírita. Desde pequeno, convivi com a mediunidade da minha mãe e, ao mesmo tempo, com as suas orientações. Eu morava no interior da Bahia e não havia, à época, a infância e a juventude, com os estudos, como nos dias de hoje, mas ela me obrigava ir ao Centro Espírita, embora eu gostasse de, no domingo pela manhã, estar jogando futebol com os amigos.

Eu andava em torno de uns cinco quilômetros para chegar lá. A reunião era feita com um senhor, praticamente a minha idade [atual] e mais duas senhoras que deveriam ser jovens, embora para mim nem um dos três parecia ser. Estudavam-se assuntos do Velho Testamento, do Evangelho, da Doutrina. Fui aprendendo com eles e, convivendo no meio espírita até quando tive a oportunidade e o desejo de ir para a Força Aérea. Estava com dezessete, dezoito anos. Ingressei na Força Aérea, onde permaneci até 2014, quarenta e oito anos.

Ao longo desse período, conheci minha esposa, que também é espírita, numa casa de idosos, em Feira de Santana, que minha mãe cuidava. Olhei para ela e senti alguma coisa, uma empatia. Graças a Deus viemos a casar e estamos juntos há quarenta e cinco anos. Durante todo esse período, permanecemos com a Doutrina Espírita em nossas vidas, fazendo um equilíbrio, porque temos uma responsabilidade, todo cidadão tem responsabilidade com a sociedade, com a família, com o trabalho e com a religião que abrace.

Na realidade, podemos dizer que se fizermos esse papel, somos equilibristas com quatro pratos, como são os chineses. Dediquei-me à Doutrina, obviamente, no tempo que tinha disponível. Quando fomos para a reserva, passamos a ter vinte e quatro horas para toda a dedicação.

Tivemos oportunidade de trabalhar no Exterior, junto com os companheiros, nos Estados Unidos e na Suíça. Voltei do Exterior em 2014 e procuramos nos integrar ao Movimento Espírita. Retornamos em 2015 para outra programação, chegando ao Brasil no dia 5 de março. No dia 25, houve eleição na FEB e, quando me vi, eu estava presidente. Essa é a minha vida, da qual, graças a Deus, desde pequeno, a Doutrina Espírita faz parte.

Como presidente da Federação Espírita Brasileira, como é coordenar o Movimento Espírita de um país gigante como o nosso, com diversidades gritantes entre umas e outras regiões?

A palavra que você usou é a correta – coordenar. Coordenar é fácil, não é? Depende apenas de ter habilidade para poder fazer isso. Mas, o Movimento Espírita, apesar do nosso país ser um continente, eu não digo país, digo continente país, temos essa característica, no mundo não existe outro igual. É um aprendizado. Temos a mancheias todas as informações que necessitamos.

Quem faz o Movimento Espírita somos nós, as pessoas e, naturalmente, por sermos pessoas, temos ainda, no mundo que vivemos, saindo de provas e expiações para regeneração, as características próprias de Espíritos endividados que ainda passam por provas e expiações. Então a coordenação desse trabalho traz dinamismo porque há sempre as mudanças das pessoas que fazem o Movimento Espírita.

Mas, no Brasil, digo que, se tivermos todos a consciência do dever, dos compromissos que assumimos antes do nascimento, fica fácil coordenar. É natural que quando digo assim, fica fácil. Não quer dizer que não tenhamos os embates, os desafios naturais, mas, se encararmos com essa naturalidade de estarmos sempre conectados com o Alto, os desafios e as dificuldades se tornam experiências para o crescimento de todos.

Temos que lembrar da regra do Codificador, quando falou sobre a questão de nós, os espíritas e o Movimento Espírita: Trabalho, Solidariedade e Tolerância. O trabalho é comum a todos, mas, ele tem que ser impessoal. O grande problema é quando o personalismo começa a aparecer. A única persona que tem que aparecer é a do Cristo. Temos que ter esse cuidado para fazer com que essas coisas sejam trabalhadas de tal forma que tenhamos solidariedade.

Com a solidariedade vem a fraternidade universal. Jesus, na última ceia, falou para os Apóstolos, que deveriam se amar como Ele os amou. Aquilo não ficou restrito apenas àquele momento, foi uma informação de uma fraternidade universal para todos os que desejamos ser discípulos do Mestre. Esse mandamento não pode ser esquecido.

A tolerância vem como sendo aquele momento em que temos que praticá-la, conforme a palavra do Evangelho, no capítulo III, item 9, quando Irmã Rosária, falando sobre a caridade moral, diz que temos que nos suportarmos. Observamos que é uma palavra muito forte. Mas, se pudermos praticar no trabalho, a solidariedade e a tolerância, fica fácil. Basta coordenar a equipe toda, com essa consciência. Quando os desvios acontecem e os problemas aparecem, é porque nos desviamos dessas orientações.

É um trabalho que se faz no Conselho Federativo Nacional, onde nos reunimos uma vez por ano e o Movimento Espírita fazendo as suas atividades como esta, que estamos tendo aqui na Federação Espírita do Paraná, esta beleza que vocês têm a oportunidade de proporcionar não só ao Estado, um exemplo ao Movimento. Também proporcionar à psicosfera do Brasil e da Terra momentos com mais de dez mil pessoas. As informações que tenho é de que, na palestra do Divaldo, havia mais de cem mil pessoas conectadas. Essa é uma conexão que queira ou não está sendo feita, porque somos geradores de energia. Pensamentos bons, falando de amor e fraternidade, de Imortalidade, num momento em que a Terra necessita tanto dessas informações. Esse é um trabalho que coordenamos, mas, na realidade quem executa são aqueles que fazem parte de todo esse contexto do Movimento Espírita.

Tudo isso que disse e a palavra que você usou, coordenar - fica fácil quando todos temos consciência dessa realidade.


Considerando os tempos que vivemos, de novidadeiros, de surgimento de teorias e práticas estranhas à própria Codificação Espírita, surgindo aqui e ali, acredita que podemos falar em unificação do Movimento Espírita?

O grande desafio, neste momento, é conviver com o mal, ou seja, a ausência do bem, sem se contaminar por ele. Somos detentores de um conhecimento que a maioria da Humanidade ainda não despertou para ele. Nossa responsabilidade é maior desde que o conhecimento proporciona responsabilidade. A nossa obrigação é dar o contraponto, a diferença, sermos alegres, termos pensamentos positivos. O pensamento positivo tem um poder saneador que não temos ideia. Quando o emitimos, essa satisfação começa em nós, no momento em que transmitimos com sinceridade. Tudo que está acontecendo, para nós, que temos a visão da imortalidade, sabemos que tudo passa, tudo isso é necessário. E, de tudo temos que tirar o que é bom. O bom é o expurgo que a Terra passa para mundo de regeneração. Temos tantas mazelas que precisamos fazer isso e isso é sinal de ajuste.

Vamos dar um exemplo muito simples: se temos um ambiente para limpar e estamos na escuridão, fica difícil. Só depois que os olhos começam a se acomodar é que varremos naquela escuridão e achamos que ficou limpo. Vem uma lâmpada de quarenta velas: “Opa! Estava no escuro, eu não tinha visto.” Aí está claro e limpamos. No dia em que chega uma lâmpada de cem velas, vamos observar que não limpamos tão bem. É a luz que chega. Então, estamos num momento em que a luz está chegando.

É comum ouvirmos que nós, os espíritas, andamos distantes das pessoas do povo, das classes sociais menos privilegiadas. Considera isso uma verdade? Em caso positivo, que atitude nos cabe empreender para alcançar o povo, em geral?

Se alguém fala assim, é um ponto de vista e ponto de vista é vista de um ponto. Há que se ver todos os pontos para considerar. Não vejo dessa forma, ao contrário, a Doutrina Espírita é o Evangelho de Jesus redivivo aos dias de hoje. Naturalmente, que ele chega à luz da Ciência, da Filosofia, dos aspectos ético-morais que é a Religião, não a Religião como estamos habituados, criada pelos homens, porque essa não foi criada pelos homens. A Religião é o religar a criatura com o Pai através do cumprimento de Suas Leis.

Quando alguém observa isso, talvez seja uma percepção, que precise mais aprofundar. Estamos tratando do Evangelho à luz da Doutrina Espírita, nos dias de hoje, como uma Ciência, uma Filosofia e uma Religião. Nesses aspectos, é necessário estudo. Lembramos da própria Federação Espírita Brasileira, nos primórdios, quando a Doutrina chegou ao Brasil em francês. Quem lia em francês? Eram as pessoas que tinham uma certa cultura e a Doutrina Espírita chegou tendo nessas pessoas os veículos que a pudessem transmitir. A Federação Espírita Brasileira ensinou o francês. Naqueles primórdios, Bittencourt, Saião, Bezerra, Manoel Quintão, Guillon Ribeiro, todos eles ensinaram francês às pessoas que frequentavam a Casa, que eram simples, eram pessoas que não tinham esse conhecimento. Assim foi até que as traduções fossem chegando e possibilitassem a leitura.

Observamos na atividade do Movimento Espírita a prática do Evangelho de Jesus que não faz exceções. Agora, é natural que seja necessário estudo. Observamos, por exemplo, no estudo sistematizado. Tive a oportunidade de ter, coordenando o trabalho de estudo sistematizado como monitor, uma pessoa que não tinha escolaridade suficiente comparada com um doutor que ali estava. No início, houve conflitos, é natural, porque o doutor aprendia rápido, e a outra pessoa não aprendia rápido. Ela tinha o desejo de aprender e fomos planejando o grupo. Foi passando o tempo e no final, o doutor aprendeu os aspectos morais com o não escolarizado. Primeiro a humildade, porque ele não tinha escolaridade, mas, desejava estudar e submeteu-se a estar junto com outras pessoas que tinham escolaridade. O doutor entendeu que ele, ao compreender primeiro, sentia-se na obrigação de repassar isso, o seu entendimento para o outro, que bebia aqueles ensinamentos. O doutor não diminuiu a sua escolaridade mas, aumentou os seus aspectos morais. O mais simples manteve os seus aspectos morais e cresceu de escolaridade. Observamos isso no trabalho que o Movimento Espírita faz e eu não vejo exclusões.

É natural que, numa primeira vista, possa parecer, porque se uma Casa está num determinado bairro de classe alta, as pessoas que frequentam são de classe alta, o que não impede que uma pessoa necessitada seja apoiada pela assistência espiritual, pela assistência material.

O que estamos fazendo a respeito? Já estamos fazendo, porque no nosso entendimento, é um ponto de vista. Não é a realidade que vivenciamos. Talvez tenha sido um aspecto observado e daí a procedência da pergunta.

Segundo Humberto de Campos somos o coração do mundo e a pátria do Evangelho. Isso é uma realidade palpável no hoje ou algo ainda a ser conquistado, no tempo?

Não tenho nenhuma dúvida que é realidade desde o descobrimento do Brasil. Porque imaginamos que o Brasil será coração do mundo e pátria do Evangelho. Quando lemos o livro, vamos identificar que, a partir do final do último quartel do século XIV, ou seja, os últimos vinte e cinco anos, sem dar a ideia de data específica de que ano, o Cristo com os Espíritos prepostos, os Benfeitores que trabalham em nome dEle, escolheram uma determinada região do planeta para transplantar, para destino do seu Evangelho. Isso após estar su a natividade, que é a Europa, onde ali se dedicou o desenvolvimento e toda a história da Humanidade, ali foi o palco da História. O Cristo observou que, naquele momento, não tínhamos crescido nada, porque a mensagem que Ele havia deixado, permanecia, mas deturpada, desvirtuada, atendendo mais aos interesses dos homens. É quando eles veem um mundo que seria chamado de novo, que seria descoberto. É nesse momento que Ele se compromete, ao chegar aqui nestas terras onde observamos o símbolo da redenção, que é o cruzeiro, e diz: “Para aqui eu o transplantarei” e, a partir daquele momento, Ele determina a um Espírito de nome Hilel para que venha se encarnar como encarnou como Henrique de Sagres. Aí começam as descobertas.

Quando os portugueses aportaram pela primeira vez no Brasil, tivemos um evento, uma festa. No plano espiritual também houve uma festa, não no sentido de que haviam descoberto, mas, no sentido de que estava se cumprindo um programa do Cristo que, desde aquele último quartel, tinham sido tomadas ações que estavam culminando com a descoberta do novo mundo. Essa terra teve o nome de Terra de Santa Cruz, de Vera Cruz, só mudando para Brasil depois. Naquele momento, é que Jesus, no Plano Espiritual, designa Ismael para ser responsável. Naquele momento, ele imprime a bandeira: Deus, Cristo e Caridade.

Quando os portugueses partem, deixam dois degredados, ou seja, pessoas que não deveriam estar na Europa porque deveriam ser presas ou abandonadas em degredo. Uma delas foi injustiçada pelos homens, mas, ela tinha sido condenada. Ela tinha isso no seu íntimo. No instante em que vê as naus se afastando, ela pega uma canoa dos índios e vai mar adentro. Pede socorro e começa a se lastimar, a dizer da injustiça. Nesse momento, Ismael ouve. Chegam essas rogativas sinceras ao Plano Espiritual e ele pratica o primeiro ato de caridade em terras brasileiras. Ele vem, vê a pessoa naquele desespero e manipula os fluidos de tal forma que as ondas o trazem de volta para a praia. A partir daí, começa o seu trabalho.

Então, quem é que acolhe? O coração. O Brasil fez o seu primeiro acolhimento. Mais tarde tivemos outros exemplos de acolhimento. Quando os portugueses não tratavam os índios como deveriam tratar e havia revoltas, também pelos africanos aqui chegando, Ismael num diálogo com Jesus leva as suas preocupações e Jesus lhe diz: “Ismael, apascenta o teu coração, não esqueças que estas terras estão ligadas ao meu coração, desfralda a tua bandeira nas regiões de sofrimento e recolhe os arrependidos para que tu possas auxiliá-los.” Isso ele faz. Ele vai a essas regiões, desfralda a sua bandeira e recolhe esses arrependidos.

Olho para mim, olho para todos nós, provavelmente, somos arrependidos que não queremos mais cometer os erros do passado. Vejamos o coração de acolher desde aquela época. Nas Primeira e Segunda Guerras, dentre os países que acolheram, o nosso país está em vanguarda.

Pátria do Evangelho. O IBGE de 2010, na sua estatística, apresenta o Brasil como o segundo país cristão do mundo, com 87% de cristãos. Perde apenas para os Estados Unidos.

Então, observamos que é Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, porque isso é uma construção, que depende de nós, os arrependidos, a fazermos, através do trabalho. É construirmos este Brasil. É um dever nosso.

No meu entendimento, ele não será, já foi, é, continuará sendo mas, temos que cumprir com a nossa obrigação para fazê-lo assim. Mais tarde, no concerto das nações, que ele tenha o seu papel.

Poderia nos dizer como foi a sua experiência de visitar o interior paranaense, nessa participação da Conferência Estadual Espírita do Interior, culminando aqui no Expotrade.

A experiência é sempre muito agradável, principalmente, quando vamos representando a FEB, no Movimento Espírita, nas Casas Espíritas, porque o nosso país é um continente, é muito grande. É natural que a Federação Espírita Brasileira, no seu papel, não tem a condição de estar próxima ao Centro Espírita como a Federativa [Estadual], por isso, o Movimento é organizado. Este é o papel da Federativa, estar junto. O Centro Espírita sabe que a Federativa está representando justamente o Movimento Espírita e naturalmente o faz, através do Conselho Federativo que representa na FEB.

Quando a FEB tem a oportunidade de estar próxima ao Centro Espírita, fazemos com muito gosto. Primeiro, porque ali temos um acolhimento. As Casas são simples como é o Evangelho. São pequenas, é um grupo familiar. Ficamos vendo e compreendendo o respeito, a admiração que tem a Casa de Ismael. Por que isso? É um compromisso que todo o espírita tem por essa Casa, antes do nascimento.
Ismael falou, no ano de 1873, no Grupo Confúcio, primeira comunicação que deu: “A missão dos espíritas no Brasil é divulgar o Evangelho do Espírito de Verdade. Aqueles que desejarem cumprir o dever que se compromissaram antes do nascimento, estejam debaixo do pálio trinário – Deus, Cristo e Caridade. Onde estiver essa bandeira, estarei.” Assina Ismael.

Antes de nascermos, fizemos um compromisso, mesmo que estejamos nos rincões mais distantes, há essa ligação. Quando chegamos representando a FEB no Movimento Espírita, o acolhimento se faz à Casa de Ismael, e nos sentimos muito bem. Essa experiência, que tive no interior é isso: o carinho, o amor, o aconchego, o respeito à Casa, não à pessoa porque nós passamos, a Instituição permanece. Ontem foi um, hoje sou eu, amanhã... não interessa. O que interessa é que essa Casa cumpre o seu papel e esse respeito permanece.

Foi uma experiência muito exitosa. Estivemos em Cornélio Procópio, depois fomos a Maringá. Observamos o interesse das pessoas, a assistência espiritual e, culminando estamos aqui, onde vocês dão o exemplo de uma sinergia ao Movimento Espírita, no período de uma semana, porque, ao mesmo tempo em que eu estava nesses dois lugares, outros companheiros estavam em locais diferentes.

Nesse momento, a psicosfera do Paraná, do Brasil e do Mundo mudou. Por quê? Porque saiu do comum, porque todos os dias temos atividades. Nesse dia, houve algo que deu uma sinergia maior, aumentou. As pessoas convergiram para um polo e começaram a trabalhar. Naturalmente isso já havia começado muito antes, porque eu sei que quando termina este evento, vocês começam o próximo na semana seguinte. Agradecemos a oportunidade que nos foi colocada de poder divulgar o Evangelho.

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 18.3.2017.