sandra borba

Sandra, você visita o Paraná desde 1997 e já nos brindou com coordenação em encontros de jovens, de evangelizadores, de coordenadores de juventude, esteve em Conferências promovidos pela FEP. Poderia nos falar dessa sua trajetória pelo Estado e qual sua avaliação nesses vinte anos de trabalho no Paraná?

A nossa primeira avaliação é agradecer a oportunidade que a Federação Espírita do Paraná tem nos dado ao longo desses anos, sem dúvida nenhuma, pois depois do nosso Estado de origem, Pernambuco, e do Estado onde atuamos há trinta e poucos anos, o Rio Grande do Norte, o Paraná é o Estado onde mais temos estado presente, conhecendo algumas dezenas de cidades, sempre com a alegria de poder contribuir, com a nossa dificuldade, mas também com o nosso entusiasmo, em especial nas tarefas da evangelização da criança e do jovem.

Então, avaliamos como oportunidade de serviço, mas de crescimento. O nível de trabalho, veja o que vou dizer com muito carinho – as exigências, isso tudo funciona como estímulo ao estudo, ao aperfeiçoamento do nosso trabalho. Sentimo-nos agraciada pela oportunidade e gostaríamos de dizer que é um processo de aprendizagem eternamente. Na verdade, aqui estamos, aqui estivemos, aqui ainda estaremos, se Deus quiser, sempre nesse processo de troca, de aprendizagem e avaliando muito positivamente tudo aquilo que tem nos ocorrido nessas paisagens.


Temos assistido crescer o número de crianças com necessidades especiais chegando aos centros espíritas, para a Evangelização Espírita. Existe algum treinamento específico a evangelizadores e programas para atender esse segmento?

Diante do que tem sido apresentado por diversas representações de Estados, não todos, mas alguns em especial, falando da necessidade de um atendimento maior e identificando mesmo, em nossas próprias experiências, já estamos, em nível de Federação Espírita Brasileira - FEB, área de infância e juventude, constituindo uma comissão preliminar para nos debruçarmos sobre essa situação. São crianças, adolescentes, jovens, portadoras de múltiplas deficiências exigindo atendimento especial.

Por ora, essa comissão está fazendo uma espécie de levantamento do que ocorre nos Estados, no sentido de preparar melhor o evangelizador e a própria Instituição Espírita para receber esse público, considerando que o Espiritismo é para todos e temos que nos preparar de fato para uma demanda significativa. Muitas crianças autistas, em algumas regiões mais concentradas e crianças, adolescentes e jovens surdos, com hiperatividade, enfim, todas as caracterizações dentro daquilo que chamamos de pessoas com necessidades várias. Nosso trabalho será exatamente o de identificar e, principalmente, de tentar sentir qual a necessidade, os materiais, as formações, o aprofundamento de estudos. O futuro promete.


Você acompanha o Movimento Espírita Nacional, junto à FEB e em seu próprio Estado. Como você avalia a ligação dos jovens com a Doutrina Espírita, o que estamos oferecendo a eles?

Não podemos, de forma alguma, esquecer que neste ano, 2017, estamos comemorando quarenta anos do lançamento da campanha que, primeiramente, foi campanha nacional de evangelização espírita infantojuvenil e, logo em seguida, especialmente pelo entusiasmo dos evangelizadores, se converteu numa campanha permanente de evangelização espírita infantojuvenil. Foi proposta da Federação Espírita do Rio Grande do Sul para que se pudesse debater a questão da evangelização, sob o ponto de vista de uma busca de qualidade de trabalho para fortalecer os laços de crianças, adolescentes e jovens com a Casa Espírita, para diminuir os processos de evasão, de abandono, de resistência e, principalmente, para se buscar aquilo que hoje denominamos de uma qualidade no trabalho de evangelização.

O que temos visto, ao longo desses quarenta anos que vivemos mais diretamente, é o esforço muito importante, muito substancial das Federativas, das Casas Espíritas, dos evangelizadores. Problemas teremos sempre, porque não existem duas pessoas iguais.

Por exemplo, temos um grupo de evangelizandos hoje. No outro ano é outro grupo, outras características, outras necessidades. Percebemos, na verdade, a grande necessidade de uma permanente avaliação, que é algo, no nosso país, não muito aceita. Mas, temos que partir para um processo de avaliação. Que linguagem estamos usando; de que tipo de recursos estamos lançando mão; como estamos trabalhando os conteúdos? E, principalmente, como estamos integrando a criança, o adolescente, o jovem e família na Casa Espírita? Para proporcionar o quê? O nosso pertencimento a essas criaturas à Casa Espírita para constituir de fato o que Allan Kardec propõe para nós em O Livro dos Médiuns, a família espírita. Hoje, não temos mais a visão da evangelização afastada do envolvimento da família. E não temos mais espaço para um velho preconceito que, pessoalmente, também enfrentei, com algumas décadas de existência material, de rejeição ao jovem.

Agora, falamos da autoria jovem, da autoria da criança, do adolescente, no intuito de melhorar cada vez mais o trabalho. Então, o que estamos procurando, em verdade, é uma avaliação constante. É um procedimento que o próprio Jesus nos mostra quando afirmou, conforme a anotação de Lucas (16:2): Dá conta de tua administração. Então, temos a responsabilidade de saber, de refletir sobre como é que estamos recebendo crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos para, em nome de Jesus, realizar um trabalho de educação, de libertação.

Essa avaliação deve ser seguida por constantes processos de formação. No ano passado [2016], a Federação Espírita Brasileira realizou um trabalho que considero único. Cerca de trezentos e cinquenta companheiros do Brasil inteiro participaram do Curso de Formação de Formadores. Trabalhamos com um contingente bastante significativo e estamos acompanhando como isso está se processando nos Estados, dando apoio e, principalmente, o que é mais importante, mantendo o nível de diálogo entre os diversos núcleos de evangelização, ou seja, o trabalho da Casa Espírita. O trabalho que é realizado na base. Ele é importante para nós, também os encontros de formação, as experiências trocadas. O que se procura principalmente, é aliar a avaliação, o trabalho de formação em busca daquilo que denominamos de qualidade da ação evangelizadora com a qualidade doutrinária, com a pedagógica, com a qualidade relacional entre aqueles que estão envolvidos e uma qualidade organizacional para que a Casa Espírita de fato possa receber, acolher e desenvolver um bom trabalho, conforme a natureza da tarefa nos exige.


Nessa questão do jovem, qual o equilíbrio para estudar a Codificação, esse conteúdo primordial da Doutrina Espírita, nas confraternizações, encontros, que são também importantes, mas às vezes são o único foco da Casa Espírita, deixando inclusive isso de forma mais solta, não apresentando tanto conteúdo?

É o equilíbrio que a qualidade deve dar. Não podemos transformar uma mocidade espírita, uma juventude espírita em apenas um grupo de recreação. Afinal de contas, a força do Espiritismo, nos disse o Codificador, está na sua filosofia. Não adianta estarmos apenas preocupados com a brincadeira, com o lúdico, com a arte, sem proporcionar ao jovem aquilo de que ele necessita, que é se apropriar da Doutrina Espírita como ferramenta de compreensão da vida para que ele possa atribuir sentido à vida. Consequentemente, direcionar as suas escolhas. Seria extremamente paradoxal atrair o jovem com toda a arte, que é importante, é um recurso e devemos saber trabalhar como recurso, e esquecermos de dar substância, que é a Doutrina Espírita. Fica o bom senso. Voltamos a dizer, um trabalho de qualidade não pode privilegiar algo em detrimento daquilo que é fundamental, a qualidade doutrinária e pedagógica da atividade junto à criança, o adolescente ou jovem.


Percebemos na evangelização juvenil, uma realidade de depressão, de suicídio, que há um tempo não tínhamos em tamanha quantidade. A que se deve essa realidade e o que podemos fazer?

Há, na verdade, um conjunto de fatores. São Espíritos comprometidos quando reencarnam, obviamente. Espíritos que estão tendo mais uma oportunidade de trabalho sob o ponto de vista do seu processo de superação. Essa é uma das razões pelas quais temos que trabalhar bem o aspecto doutrinário, em especial ao adolescente e ao jovem, embora o façamos desde a infância, para que esse adolescente ou jovem possa, graças à visão que a Doutrina Espírita proporciona, a sua condição de Espírito imortal, encontrar os elementos para atribuir sentido à vida.

Isso junto ao acolhimento, à participação da família, à autoria ou ao protagonismo juvenil na Casa Espírita, a integração com seu grupo, tudo possa fortalecê-lo, possa lhe trazer esse sentimento de alegria de viver. Enfrentamos, sem dúvida alguma, um momento muito difícil. Isso nos exige mais atenção com a ação evangelizadora que estamos levando a efeito, mais integração com a família, mais espaços evangelizadores, que é também uma preocupação da área de infância e juventude - ampliar para além daquele encontro semanal que geralmente temos na evangelização. Que haja uma espécie de uma rede de mais aproximação, de mais oportunidades de encontros para que possamos cercar esse adolescente, esse jovem, a criança de carinho, de orientação, da palavra amiga.

Quando jovem, o evangelizador é uma referência de comportamento, de conduta, de orientação. É preciso estabelecer esses laços que uma evangelização de qualidade, preocupada em atender a essa necessidade, a uma linguagem específica, a temas que devem emergir, não apenas conteúdo doutrinário, mas também da realidade do jovem, fazendo esse meio de campo do conteúdo doutrinário para as situações reais da vida e as situações reais da vida a partir de uma leitura que a Doutrina Espírita tem para oferecer.

Esse equilíbrio, junto a todo esse envolvimento, essa noção que a Casa Espírita, não só o departamento de evangelização, deve ter, de receber, de acolher, de oportunizar esse jovem à sua integração e à sua participação, será uma contribuição para que os estados de melancolia e depressão possam ser substituídos pela oportunidade do trabalho, do estudo, da confraternização, da alegria e da integração.


Observamos que no trabalho da Evangelização Espírita Infantojuvenil há uma constante renovação dos evangelizadores/coordenadores de juventude, o que inviabiliza um maior crescimento/burilamento da tarefa. Como podemos resolver essa questão?

Já disse há alguns anos que quem encontrar a solução, eu gostaria muito de ter, porque a Casa Espírita precisa se organizar no atendimento às suas reais necessidades e atividades. A tarefa educacional da Doutrina Espírita é essencial. A Doutrina Espírita é eminentemente educativa - lembrando aqui o nosso Lins de Vasconcellos por Divaldo Pereira Franco. Se a Doutrina Espírita é uma doutrina eminentemente educativa, o principal viés de atividade da Casa Espírita será a atividade educativa. A reunião pública, o trabalho de Comunicação Social, Biblioteca, Livraria, eventos, estudo das obras básicas, a Assistência e Promoção Social, tudo deve estar impregnado de um sentido pedagógico.

Nesse sentido, todos os que trabalham e não só os evangelizadores da infância e da juventude, os evangelizadores de adultos e temos, no Movimento Espírita, evangelizadores de desencarnados, os dialogadores devem ter certa ênfase numa mentalidade educacional que deve caracterizar a Casa Espírita. Por consequência, vamos sensibilizando os corações, sensibilizando as mentes. E o evangelizador é alguém que precisa também ser acolhido, ele também precisa ser amparado porque desenvolver esse trabalho não é fácil. Alguns podem pensar que é simples uma hora com as crianças, uma hora conversando com os jovens.

Mas quem é evangelizador, é evangelizador todo o tempo. É preciso ser artesão. Cada momento pedagógico com a criança, com o adolescente, com o jovem tem que ser pensado a partir das características, das necessidades, dos interesses de cada turma. Ao mesmo tempo o evangelizador é o aprendiz. Ele próprio também está no seu processo de autoiluminação, no seu processo de crescimento, ele também enfrenta dificuldade. Finalmente, o evangelizador tem que ser reflexivo. É aquele que avalia o seu trabalho permanentemente porque é preciso muito investimento ainda para que assumamos a essência da Doutrina Espírita, que é a nossa renovação íntima, a nossa transformação moral, a nossa autoiluminação. Tradução disso tudo: educação.


Como estimular o jovem a se manter na Casa Espírita após a conclusão dos ciclos de juventude? Como realizar a transição, esse salto para o grupo dos adultos e o engajamento no trabalho efetivo?

Importante que abandonemos essa sensação de que ele vai saltar. Se fizermos um bom trabalho na juventude, ele vai caminhar. Caminhar é diferente de saltar. O salto, muitas vezes, implica numa ruptura. Se desde cedo ele está acolhido, está encaminhado, ele se sente na Casa, ele vai assumindo determinadas atividades. Ele não vai saltar, vai continuar, e podemos dizer, aqui, hoje, que tem muita gente que caminhou bem. No nosso Nordeste, das nove Federativas, temos seis cujos presidentes, mulheres e homens, são oriundos do Movimento de Juventude Espírita. No Sul também. Inclusive o nosso querido Adriano Greca, o Gabriel Salum, inúmeros companheiros pelo Brasil inteiro que são fruto do trabalho de juventude espírita. Entendemos, então, que esse processo que vai integrando e oportunizando ao jovem a condição de atuar, começando simples, sem uma responsabilidade exagerada, é o que temos a fazer. Emmanuel coloca muito bem de que o jovem pode e vai fazer muito.

Ele, na companhia do adulto, que não pode nunca ver nele uma ameaça. Esse é um grande problema que temos no Movimento Espírita. Lastimavelmente, ainda há muito preconceito em relação ao jovem assumir tarefas, receio porque é jovem, é rebelde, é isso ou aquilo. É o que vai criando exatamente o fosso. Essa transição da juventude para outros grupos poderá ser feita com muito mais serenidade, com mais condição de integração, se desde cedo esse jovem se sentir pertencente à Casa Espírita, não apenas ao seu grupo de juventude, ao seu grupo específico, mas entendendo que ele participa da Casa, atua na Casa.

Temos grandes exemplos para isso; o nosso Divaldo começa a sua atividade, aos 20 anos, fazendo a sua primeira palestra fora da Bahia, em Aracaju. Temos Chico Xavier bem novinho, Raul [Teixeira] com 14 ou 15 anos de idade começando o seu trabalho. Temos muitos outros também. Alberto Almeida, que tive a oportunidade de conhecer há 40 anos, participando do lançamento da campanha. Então, o jovem precisa e o jovem pode. É muito interessante e gostaria de fechar esta resposta dizendo que o jovem não é promessa, o jovem é presente. Comecemos a trabalhar este presente com aquilo que ele pode e, com certeza, ele produzirá cada vez mais.


Com sua larga folha de serviço junto à criança, ao jovem e ao adulto, que mensagem você teria para nos deixar, neste momento em que alcançamos as comemorações de 160 anos de Espiritismo na Terra?

160 anos de Espiritismo na Terra. Desses 160, há quanto tempo estou nele? Como vim da evangelização infantil, fico mais preocupada ainda. Este momento é muito importante, de reflexão. Para a nossa Conferência é um momento maravilhoso, de comemoração. Para nós é o momento em que somos chamados a refletir sobre o que temos feito. Há uma página, psicografada em 1965, em Uberaba, pelo médium Waldo Vieira, chamada Os vinte serviços que o Espiritismo faz por você. Ao final, diz assim: aí estão alguns dos vinte de muitos dos serviços que o Espiritismo faz por você. Fala sobre toda a compreensão que o Espiritismo vem nos trazendo da vida, da morte, comenta da parentela, a questão do corpo, o enfrentamento dos problemas e indaga: O que você está fazendo pelo Espiritismo?

É preciso que vistamos a camisa no sentido de verificamos o que estamos fazendo. Nesse sentido, entendemos que a Conferência, por exemplo, é um evento extraordinário pelo grande público participante, pelo acesso de internautas. É fantástico, digo que é um dos maiores, senão o maior evento brasileiro e obviamente, porque nós somos o maior país do mundo, sob o ponto de vista da denominação espírita, o maior evento de que temos notícias. É uma responsabilidade muito grande. Toda vez que participamos, que acompanhamos, temos essa sensação.

É necessário lembrar que é um evento maravilhoso e extraordinário, mas, sem dúvida nenhuma, será o dia a dia do Movimento Espírita que vai dizer o que é que nós estamos fazendo por ele, no sentido de que cada um de nós, trabalhando em qualquer que seja a área de atividade básica da Casa Espírita, desde aquele companheiro que está na recepção para receber o irmão que chega, ao dirigente espírita, ao trabalhador da unificação, somos responsáveis pela nossa cota de trabalho e de tarefa. Esse é o grande momento de reflexão para que ao retornarmos para os nossos lares, para nossas Casas Espíritas, levemos esse momento de comemoração, de alegria, mas, principalmente o de reassumir, o de reviver, o de ativar em nós aquela vontade de dizermos: espírita deve ser o nosso nome, pelo nosso engajamento, pela nossa busca de estudo e de vivência da Doutrina que abraçamos.


Sua mensagem final.

Queremos dizer da nossa alegria, nesse momento, de mais um ano. Gostei muito de saber que há vinte anos estou aqui, quer dizer, vinte anos de mais compromisso. Dizer que desejamos que desse rincão brasileiro continuem a surgir iniciativas, grandes referências ao Movimento Espírita conforme o Paraná tem realizado ao longo da sua existência, uma Instituição centenária. Que os trabalhadores das Casas Espíritas, nós na nossa dificuldade, na nossa limitação, possamos lembrar que Bezerra de Menezes afirmou que ser espírita e trabalhar na Doutrina Espírita, no Movimento Espírita foi a graça que nós pedimos antes de reencarnar. Então a nossa mensagem que começa primeiramente para nós mesmos é que possamos continuar firmes e fortes, sem angústia, porque o trabalhador do Cristo não pode ser angustiado. Como diz o Espírito Camilo, pela mediunidade de nosso Raul [Teixeira] “colocar o nosso psiquismo sob o comando de Jesus.”

 

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 17.3.2017.
Em 17.4.2017.