suely caldas shubert 332 238Acostumamo-nos a ouvir Suely na tribuna. Pouco ou nada sabemos da mulher, da trabalhadora espírita atuante no Brasil e no Exterior. Poderia nos falar um pouco a seu respeito, englobando sua trajetória como divulgadora da Doutrina Espírita?

Nasci em família espírita. Eram espíritas meus avós paternos e  maternos. Tenho bisnetos. Se eles forem espíritas e atuarem ou não no Movimento, mas, sendo espíritas,  estaremos na sexta geração. Para mim, foi muito fácil porque quando meu pai conheceu  minha mãe, ambos eram espíritas. Frequentamos a evangelização, que naquela época era diferente. Toda a estrutura que hoje temos não existia. Aos dezesseis anos aflorou a mediunidade.

Eu me dedico à mediunidade, especificamente, porque ela me trouxe amplas possibilidades de compreensão e de trabalho, que é muito gratificante para nós que atuamos nesta área e especialmente o trabalho de passe. Aplico passe desde os dezesseis anos. Vou aos lares, aos Hospitais, UTIs. Acho o trabalho do passe extraordinário, recomendo a todas as pessoas que possam, têm condições, que apliquem passes, nas pessoas acamadas, porque é muito rico esse contato com as pessoas. A mediunidade sempre foi muito presente na minha vida, entretanto, não creio e não a menciono como a coisa mais importante. Mais importante é a Doutrina Espírita, orientando a nossa vida. A mediunidade é um aspecto desse trabalho.

 

Se aprendemos que as crianças, ao desencarnarem, têm um tratamento especial e condução a lugares específicos de atendimento, na Espiritualidade, como se explicam determinadas comunicações, nos Centros Espíritas, de Espíritos de crianças que se dizem perdidas, procurando mãe ou pai etc.?

Temos a orientação através de livros, especialmente dos de André Luiz [Espírito], de que as crianças, quer dizer, os Espíritos que desencarnam na infância, são Espíritos antigos, de muitas encarnações transatas. Ao reencarnar, assumem a forma infantil, têm o esquecimento do passado.

Desencarnando, nessa fase, natural que esse Espírito necessitará ter um amparo, uma segurança no Mundo Espiritual porque ali está um Espírito antigo, mas com a mente de criança. Sabemos que as crianças não ficam errantes no mundo espiritual, têm locais próprios, Instituições e, uma delas é aquela que é relatada por André Luiz (Entre a Terra e o céu), quando Blandina vai receber Espíritos em forma infantil, o períspirito com essa aparência. Ela recebe um protagonista do livro, da própria história de Entre a Terra e o Céu, um Espírito com dificuldades, provenientes de suicídio anterior. Vemos ali o quanto as crianças são orientadas, amparadas. 

Criança que se comunica na reunião mediúnica -  pode acontecer, é muito raro. Também pode acontecer que venha um Espírito que se faça passar por uma criança, para tomar o tempo da reunião, porque o que é que faz um Espírito que se diz criança e que se manifesta na mediúnica? O que ele quer ? Quero papai, quero mamãe, estou perdido. Não tem muita coisa para dizer e até mesmo para contribuir. Portanto, esses Espíritos assumem a personalidade de uma criança para tomar o tempo da reunião. O médium não faz isso de má fé, importante dizer. São médiuns, às vezes, que ainda não perceberam isso, que é um Espírito mistificador. 

Comunicações de crianças na reunião mediúnica são raras, mas, podem acontecer. Não vamos dizer que é proibido, que nunca acontece. Sabemos que Chico [Francisco Cândido Xavier], por exemplo, psicografou mensagens de crianças, que se apresentavam com quatro, cinco anos. Mas, houve todo um preparo dos Benfeitores, a necessidade dos pais daquela comunicação. Esse conjunto faz com que seja proporcionado ao Espírito ainda com aparência de criança, com a mente muito voltada para as coisas infantis, a comunicação, para ofertar um conforto para os pais e também uma lição.

No caso das mediúnicas, é importante dizer, existem muitos absurdos. Certas Casas Espíritas, soube por relato de pessoas confiáveis, que aceitam comunicações de Espíritos de crianças que pedem pirulito, consumindo o tempo da reunião. As pessoas acham muito lindo, às vezes, por falta de estudo. 

Compreendo perfeitamente porque os médiuns se equivocam. Eles não têm a percepção de que é um Espírito enganador. A partir de estudos, da troca de ideias é importante que, aos poucos, isso vá sendo aclarado porque não tem um propósito a comunicação de um Espírito se apresentando na fase infantil. 

Por que demora um pouco para o Espírito assumir a forma adulta? Devido ao fato de haver o esquecimento do passado, a miniaturização do perispírito, tudo isso motiva a que o Espírito ainda não consiga, após a desencarnação, voltar à sua forma adulta. Entretanto, Espíritos mais evoluídos que reencarnaram, ficaram poucos anos na Terra, desencarnam na fase infantil, por terem um ganho espiritual mais profundo, experiências de tudo, assumem mais rapidamente a forma adulta.

 

Sabemos que em 1986, você fundou, com um grupo de companheiros, a Sociedade Espírita Joanna de Ângelis, em Juiz de Fora, Minas Gerais, onde reside. Antes disso, onde você atuava e o que a levou a optar pela fundação da Sociedade?

Quando minha família mudou para Juiz de Fora, meus pais imediatamente foram para o Centro Espírita Ivon Costa e é claro que nós três, somos três irmãos, eu sou a mais velha, fomos também para o Centro Espírita Ivon Costa, uma Casa maravilhosa. Ali eu atuei trinta e seis anos. Mas, preciso dizer que o Centro Espírita Ivon Costa deu origem a três outras Casas Espíritas e a nossa é uma delas, sem brigas, sem dissidências, sem problema algum, foi para exatamente ampliar o trabalho, para estender mais. 

Foi assim: o bairro tal ainda não tem um Centro Espírita e foi proposto para a Diretoria se alguém, um grupo gostaria de abrir uma Casa Espírita e aí aconteceu isso. Depois, um Centro Espírita fechado há vinte anos, um grupo do Ivon Costa foi para lá. E nós resolvemos também fundar uma outra Instituição porque eu queria ampliar o trabalho e a casa estava muito lotada, não tinha mais condições para expandir. Sai de lá chorando, de tanto amor que eu tenho àquela Casa até hoje. Os fundadores são pessoas maravilhosas. 

Como tenho muita ligação com Divaldo [Pereira Franco], Joanna de Ângelis, eu tinha dito: Se  fundarmos, vou colocar a denominação de Joanna de Ângelis e assim fizemos. Agora já fez trinta anos e então o trabalho se desenvolve normalmente, mas eu estou ligada ao Centro Espírita Ivon Costa.

 

E quantas obras você tem publicadas e como se dá o processo de escolha e produção dos seus escritos: intuição, solicitação do Movimento Espírita?

Minha primeira obra foi Obsessão e desobsessão - Profilaxia Espírita. Sempre soube que meu trabalho era na área da desobsessão. E tinha essa ideia de escrever sobre obsessão e desobsessão. Comecei a escrever essa obra, no final dos anos 70, 78, 79. Eu estava com quatro crianças ainda bem pequenas e nem sempre podia ficar escrevendo. Então, demorou um pouco, foi lançada em 81. 

Sempre gostei de escrever, mesmo na escola. Meu trabalho é escrever, ler e escrever. 

Logo em seguida, a Federação Espírita Brasileira - FEB, através do Presidente Thiesen me convidou para escrever comentários da correspondência de Chico [Francisco Cândido] Xavier. Chamaram-me na Sede Histórica da FEB. Estava presente Zeus Wantuil, filho do Wantuil de Freitas a quem Chico Xavier dirigiu a correspondência. Recebi deles as cartas, para depois escrever, comentar. Não foi muito fácil porque muitas das cartas não vinham completas, muitas estavam bastante deterioradas, amareladas, faltando certas páginas. O próprio [Francisco] Thiesen foi datilografando aqueles pontos mais necessários. Quando eu estava tentando fazer os comentários, acontece que eu não tinha uma noção muito precisa do que aquilo estava querendo dizer, mas Chico havia me dito que Wantuil de Freitas estaria me orientando.

Quando os originais do livro ficaram prontos, combinei com Eurípedes, o filho adotivo de Chico, para marcar uma data com Chico para eu levar os originais, para que ele aprovasse. Chico marcou, fui à casa dele. Ele começou a ler, em voz alta. Começamos às vinte horas, fomos até quase uma hora da manhã. Eu falava:

- Chico, você não quer que eu leia?

- Não, não. 

Ele queria ler. Ele lia o trecho da carta e me explicava o que é que significava aquilo, quando lia o meu comentário, ficava admirado:

- Olhe, bem a inspiração do Wantuil. O livro foi aprovado e publicado. Foi um momento muito especial com Chico Xavier, na própria casa dele. Ele deveria ir em sequência, depois começou a saltear as páginas, os capítulos. Quando era mais ou menos meia noite, zero hora e trinta minutos, falou:

- Então agora vamos encerrar. Ainda demorou um pouquinho, quando saí era quase uma hora da manhã. 

Logo depois do lançamento do livro, fui a Uberaba. Eurípedes, muito reservado, me falou: É o melhor livro sobre Chico Xavier.

Chico pegou um exemplar do livro e escreveu uma dedicatória agradecendo. Na segunda edição, ela consta, na primeira página, em fotocópia. 

Tenho dezesseis livros publicados, contando com o que vai ser lançado em abril, sobre Divaldo Franco. Eu escrevi Semeador de Estrelas e agora Divaldo Franco, uma vida com os Espíritos.

Nele, analiso a mediunidade de efeitos físicos de Divaldo, que as pessoas não conhecem e ele é um médium extraordinário realmente. Faço uma análise disso porque enriquece e também para nós termos a ideia da dimensão de quem é Divaldo Franco.

 

Como quem atravessou décadas no serviço da divulgação espírita, poderia nos deixar uma mensagem aos trabalhadores que nos encontramos nessa lide?

Posso dizer o seguinte: a Doutrina é maravilhosa. Vou lembrar uma frase de Allan Kardec, que está em O Livro dos Médiuns, no terceiro capítulo – Do Método, item 30 – “O Espiritismo anda no ar; difunde-se pela força mesma das coisas, porque torna felizes aqueles que o professam.” E, realmente a Doutrina, quando conseguimos introjetar esses ensinamentos belíssimos, profundos, no nosso mundo íntimo e tentamos projetá-los na vida atual, na prática, sentimos que nos tornamos muito felizes porque começamos a ter uma visão de mundo completamente diferente.

A Doutrina expande o nosso raciocínio. Vemos que esses Espíritos que estão desdobrando a Codificação, como Zilda Gama, Emmanuel, todo o trabalho de Chico, de Divaldo Franco, Raul Teixeira, Yvonne Pereira nos propõem uma expansão do pensamento. Joanna [de Ângelis], novas construções mentais. A partir de todo esse cabedal de conhecimento, vamos formando outras construções mentais que nos dão uma expansão de nossa mente. Por isso devemos procurar estudar, não apenas ler, mas estudar, pensar na Doutrina Espírita é muito importante. A partir daí a nossa visão é outra, porque sentimos a Doutrina como uma bênção na nossa vida e desejo que os trabalhadores atuais, os que estão chegando, procurem seguir aquilo que o Espírito de Verdade fala: “Estudai, comparai e aprofundai. Incessantemente vos dizemos que o conhecimento da verdade só a esse preço se obtém.”[O livro dos médiuns, item 301, 4ª pergunta]

Portanto, vamos ler, estudar e vamos amar nossa Doutrina. 

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 18.3.2017.

Em 15.5.2017.