lincoln barrosLincoln, atualmente você é membro do Conselho Federativo Estadual da Federação Espírita do Paraná – FEP. No entanto, sua trajetória doutrinária é de anos e é a respeito disso que desejamos conversar. Quando você se tornou espírita e onde foi sua primeira experiência como trabalhador espírita? Da adesão ao Espiritismo a colocar as mãos no trabalho, foi um período longo?

Isso aconteceu no final da década de setenta, portanto, tenho um bom tempo de Doutrina Espírita, o que não significa que eu tenha correspondido às modificações que eu tenha que fazer.

Em decorrência de enfermidade em família, fomos encaminhados pelo meu sogro, que era espírita, a uma Casa Espírita, pedindo socorro a um médium, Idalino Favassa, em Foz do Iguaçu, um dos pioneiros do Espiritismo naquela região. Com o tratamento que ele conduziu, na oportunidade, me interessei pelo assunto e vinculei-me ao Centro Espírita Os Mensageiros, em Foz do Iguaçu, participando das reuniões públicas, depois dos grupos de estudos.

Alguns anos depois, começamos a fazer palestra, entramos nas reuniões mediúnicas, e também na área de assistência social. Enfim, nossa vinculação aconteceu e em torno de três a cinco anos, passamos de frequentador a trabalhador. Chegamos, nessa Casa, até a Presidência.

Você é presidente de uma Casa Espírita em Foz do Iguaçu. Recentemente, procedeu a uma alteração de dia e horário de palestra pública. Pode nos explicar o porquê dessa decisão?

Estamos falando do SERBEM, Centro Espírita Servidores do Bem. É o Centro Espírita mais novo da cidade. Tem apenas sete anos, foi inaugurado em 1º de março de 2011.

Um grupo de companheiros nos reunimos e fundamos essa Casa em Foz do Iguaçu. Está localizada na Rua Quintino Bocaiúva, no extremo que fica próximo ao Rio Paraná. No outro extremo, está a Casa mais antiga, o Centro Espírita Paz, Amor e Caridade, fundado em 1922.

O SERBEM funcionava, anteriormente, numa rua próxima da parte de trás da Quintino Bocaiúva e tínhamos as nossas reuniões no domingo à noite. Por ser uma região central, muito deserta à noite e, às vezes, com certo nível de periculosidade, mudamos para esse novo endereço. Trocamos a reunião para domingo pela manhã pela razão que diz respeito à segurança, e porque, no nesse período, em frente ao Centro Espírita acontece uma feira onde um grande número de pessoas comparece. Esse trânsito de pessoas está trazendo novos frequentadores para a Casa.

Foi um motivo de muita alegria porque já verificamos os resultados dessa modificação.

Você, com seus familiares, viveu alguns anos na Espanha, o que lhe oportunizou a vivência com o movimento espírita espanhol. Fale-nos a respeito das atividades ali desenvolvidas e as diferenças entre aquele e o nosso movimento espírita.

Efetivamente há uma diferença muito grande.

Fomos para a Espanha no ano de 1994/1995. Participamos, naquela oportunidade, da fundação do Centro Espírita Mensajeros de La Luz, junto com outros companheiros, inclusive Carlos Campetti, que está ativamente trabalhando na Federação Espírita Brasileira, também no Conselho Espírita Internacional, um grande divulgador e trabalhador espírita, um exemplo para nós naquele momento e um orientador seguro também na estruturação do Centro.

Mensajeros de La Luz, foi o segundo Centro que existia em Madri. Para compararmos ao que seria o Movimento Espírita fora do Brasil, basta dizermos que hoje, na Espanha, não temos nem trinta Centros Espíritas, vinculados à Federação Espírita Espanhola. Poderá ter outros Centros Espíritas não federados, mas, formalmente vinculados ao Movimento Espírita, não temos nem trinta.

É um avanço lento, recordando que o Franquismo ou a Ditadura Franquista durou até o ano de 1975. Com a morte de Franco, efetivamente se começou a trabalhar uma nova visão de democracia na Espanha. A Constituição de 1978 trouxe a liberdade de religião ou de práticas religiosas na Espanha. Foi um avanço que vai acontecendo gradativamente e, em países onde, pela sua idade, porque são países muito antigos, e pela estruturação de religiões tradicionais dominantes, há uma cultura muito forte na população. Mudar para uma nova cultura, um raciocínio diferente, a aceitação de novos conceitos é muito difícil.

Da mesma forma, podemos comentar em relação à experiência do Chile. Fomos para aquele país em 1995. Participamos da fundação do Centro de Estudos Espíritas Buena Nueva que existe até hoje e é o único Centro formalmente instituído no Chile.

Temos outros grupos, talvez em Antofagasta, mas esse é o Centro representante do Chile no Conselho Espírita Internacional, porque não tem uma Federação Espírita naquele país. Existia a Federação, mas, com a Ditadura que aconteceu no Chile, o Movimento foi, digamos, suprimido. Como não temos Casas Espíritas ainda que possam provocar essa união de propósitos para formar uma Federação, o Centro Espírita Buena Nueva ainda é o grande herói do Movimento Espírita do Chile.

Em Foz do Iguaçu, você assumiu a presidência da União Regional Espírita, por dois mandatos. Durante esse período, o que assinalaria como sua maior conquista ou seu maior empenho?

O desafio maior foi fazer o melhor ao meu alcance para melhores resultados em favor da Doutrina, porque a minha gratidão ao Espiritismo é muito grande em função do que ele realizou em minha vida.

O trabalho é resultado de toda a equipe. A URE de Foz do Iguaçu é uma URE bastante amadurecida nos seus propósitos, nos seus trabalhos. Já participávamos da Diretoria anterior como segundo Vice-Presidente. Trouxemos naquela oportunidade, no final do mandato dessa Diretoria, o Movimento Você e a Paz, com Divaldo Franco em Foz do Iguaçu. Foi uma conquista muito grande para todos nós do Movimento Espírita e foram envolvidas todas as Casas Espíritas, num esforço conjunto de levar Divaldo à praça pública, aberto à população.

No ano seguinte, 2015, levamos novamente Divaldo a Foz. Conseguimos um evento num Hotel que reuniu cerca de duas mil e quinhentas pessoas. Foi o maior evento que tivemos com Divaldo Franco. Neste ano, em 12 de setembro ele estará novamente conosco e esperamos repetir o sucesso daquele primeiro evento. Assim, o trabalho vai se realizando.

Outras coisas que podemos destacar na URE é o fato de termos levado para Foz do Iguaçu a Livraria Mundo Espírita, com um estoque regional para atender eventos promovidos pela URE, por exemplo, a Feira Internacional do Livro que antes era conduzida por uma Casa Espírita e foi absorvida pela URE, com participação de todas as Casas.

Participamos também do Festival das Cataratas no qual foi aberto um espaço para cultura e espiritualidade. Ofertamos ali a Livraria Mundo Espírita com a proposta espírita.

O SERBEM é o agente operacional da Livraria em nome da URE. Ele se filiou à Associação Comercial de Foz do Iguaçu para participar das reuniões dos grupos de livreiros e sebos e nesse espaço buscar oportunidades para colocar a Livraria Mundo Espírita na região como um todo.

Falando fluentemente o espanhol, você tem participado do Encontro Espírita das Três Fronteiras, já em sua terceira edição. Como acontece esse estreitar laços de fraternidade e trabalho com os companheiros da Argentina e do Paraguai? Onde têm sido realizados os Encontros, como tem sido a adesão dos três países?

Esse encontro é uma conquista muito grande da Unificação entre países. Ele está sendo prestigiado de uma forma muito interessante porque o próprio Presidente da Federação Espírita do Paraguai tem comparecido em todos os eventos.

Neste ano, por ocasião das festas de carnaval, realizamos o terceiro encontro em Ciudad del Este, no Centro Espírita Joanna de ngelis, único Centro Espírita daquela cidade, que está vinculado à Federação Espírita do Paraguai.

Tivemos a presença do Presidente da Federação Espírita da Argentina, porque não temos ainda grupos espíritas na cidade que está na fronteira com a Argentina que é Puerto Iguazú.

Estamos Tentando prospectar pessoas naquela cidade que sejam espíritas ou simpatizantes e, desejamos que isso possa acontecer no próximo ano, quando esse encontro será realizado em Puerto Iguazú. Aí teremos as três cidades com esta programação de realizar todos os anos este encontro que será mantido para unir os Espíritas dos três países.

Também em razão dessa sua fluência no idioma espanhol, você e sua esposa se tornaram, desde alguns anos, tradutores dos textos do Momento Espírita. No site, constam mais de quinhentos traduzidos, o que se constitui uma bênção para os nossos irmãos de fala espanhola. Isso resultou até em um CD, gravado nesse idioma. Então, gostaríamos de saber como é esse trabalho, como você e Vera o realizam, algumas particularidades, enfim, dessa difícil ação que é a tradução de um idioma ao outro, com o cuidado de preservar a ideia original do texto.

É uma tarefa de grande responsabilidade, especialmente por tratar-se de espanhol ou castelhano. Há de se fazer essa distinção, porque o castelhano é mais antigo do que o espanhol. Ele veio da época do Reino de Castela, então, na América do Sul, não se fala espanhol. Fala-se castelhano. Isso é uma questão político-cultural também; o espanhol veio depois com a unificação dos Reinos na Espanha. Então, nós traduzimos para o castelhano espanhol.

Pela similaridade que existe entre os dois idiomas, o processo de tradução traz muitas armadilhas, porque palavras semelhantes podem ter sentidos diferentes na expressão de cada idioma. Temos feito com muito carinho esse trabalho, a pedido da Federação. Apresentamo-nos como voluntários e em família fazemos esse trabalho, sempre contando com o apoio de alguém de idioma pátrio que possa nos socorrer, nas revisões finais. Essa pessoa nos aponta eventuais equívocos porque afastados da prática do idioma no dia a dia vamos perdendo um pouco a manifestação estrutural do idioma.

Temos, em Foz do Iguaçu, um professor chileno, que nos socorre na revisão final e nos orienta muito sobre o estudo do idioma, inclusive do português que ele conhece muito bem.

Um trabalho muito interessante de divulgação doutrinária é realizado pela 13ª União Regional Espírita: a manutenção de uma coluna semanal em jornal de grande circulação. Conte-nos como tudo iniciou, como a URE conquistou um espaço maior, enfim, como é esse relacionamento com o jornal leigo. E quem mantém, financeiramente, a publicação?

O Jornal tem apoiado a Federação Espírita do Paraná, que custeia essa comunicação. Através da URE temos mantido um relacionamento muito bom com o jornal, que tem apresentado um custo viável para mantermos essa comunicação semanal que acontece toda terça-feira.

Temos orgulho de dizer que completamos neste ano 26 anos de presença dessa página irmanados pelo Momento Espírita que também completou 26 anos. Uma alegria para todos nós.

Este projeto nasceu em 1992 por iniciativa da então Presidente da URE, Regina Baldovino, trabalhadora hoje do Centro Espírita Allan Kardec, de Santa Terezinha de Itaipu. Ela e o esposo Enrique Baldovino que é tradutor, grande e emérito trabalhador do Movimento Espírita, através dos anos mantiveram aquela coluna que inicialmente foi colocada no Jornal.

A primeira matéria foi sobre Sócrates e Platão. A partir daí, foi ocupando espaços muitas vezes diários, semanal, às vezes até ampliando um pouco para duas colunas e assim fomos conquistando esse espaço. Hoje temos uma página inteira publicada com a proposta espírita, com a abordagem de temas muito interessantes para o público em geral.

Reprodução de mensagens do Momento Espírita são colocadas com frequência porque elas chegam a um público que é muito simpatizante desse projeto que é o Momento Espírita, que fala a todas as religiões, a todos os religiosos, a todos os que buscam espiritualidade. Também matérias produzidas por Divaldo Pereira Franco, que são publicadas em jornal de Salvador.

Divulgamos, nessa página, os eventos que acontecem na região em relação ao Movimento Espírita, os convites feitos à comunidade para prestigiarem palestras públicas, eventos, seminários que acontecem em nossa cidade.

É um projeto que deve permanecer por muitos anos mais.

Com sua experiência de trabalhador e líder espírita, o que poderia nos dizer sobre o projeto de Qualificação do Trabalhador Espírita da FEP que, agora já se tornou um Programa, caminhando para o segundo ciclo? Quais os benefícios para a região? Como foi adesão das casas espíritas?

O projeto é maravilhoso. Participamos daquele primeiro projeto, fomos capacitados na fase inicial e nos tornamos multiplicadores.

Naturalmente, ao abraçarmos essa tarefa produzimos um grande estímulo aos demais elementos gestores nas Casas Espíritas, porque na qualidade de Presidente da URE viemos fazer a capacitação e levamos para a nossa região.

Houve uma aceitação muito boa e fizemos a capacitação. Posteriormente, cumpriu-se a segunda fase onde, entre essas pessoas que fizeram a primeira foram escolhidos aqueles que viriam especificamente para se capacitarem nas áreas. Estamos, com multiplicadores, a Assistência e Promoção Social, o DIJ, o Atendimento Fraterno, a Comunicação Social Espírita, a Mediunidade.

Esses retornaram e foram promovidos treinamentos e capacitações em cada uma dessas áreas Agora estamos nos preparando para o segundo ciclo que será de grande proveito para nós.

Gostaria de destacar uma segunda virtude desse Programa; a Federação está estruturando-se também com todas essas áreas e cada área trabalhando com um foco. Na medida em que levamos uma qualificação tanto na União Regional Espírita quanto nas Casas Espíritas, essa cultura, essa estruturação e organização vai sendo implantada também nessas regiões e isso vai gerar uma força de trabalho canalizado para áreas específicas. Ao mesmo tempo, no Conselho Regional Espírita, reunindo-se ali todos os Presidentes e também os representantes de cada área, vamos ter essa união de propósitos e unificação de objetivos para manter a unidade da nossa Doutrina na nossa região.

Finalmente, Lincoln, deixe-nos uma mensagem aos corações espíritas e aos trabalhadores em particular.

O que eu poderia dizer senão relembrar as palavras do Cristo como alerta a todos nós, que oremos e vigiemos para não nos permitirmos envolver pelos males que o mundo nos oferece e as tentações. Ou as nossas más tendências não possam ser levadas à nossa saída desse caminho que escolhemos; buscar nessa encarnação o caminho da Doutrina Espírita e podermos realizar a nossa autoiluminação, nossa reforma íntima.

Então, mantenhamos o lema de Allan Kardec: Trabalho, Solidariedade, Tolerância, para através desses elementos buscarmos atingir a prática real da nossa caridade, sem a qual não haverá salvação para nenhum de nós.

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 17.3.2018.