luis mauricio resendeLuís Maurício, você é membro do Conselho Federativo Estadual e integrante da equipe da Área de Estudo da Doutrina Espírita da Federação Espírita do Paraná.Também tem uma larga folha de serviço, enquanto coordenador de grupo de estudos e palestrante. Sabemos que você vem de lar espírita. Deve, portanto, ter frequentado a Evangelização Espírita Infantil e participado da Juventude Espírita, em sua cidade, Ponta Grossa? É certo isso?

É verdade. Posso dizer que a única religião de formação formal que tive foi a Doutrina Espírita. É natural que, durante a adolescência, os questionamentos apareçam e buscamos outras fontes de informação, outros possíveis caminhos. Natural na construção do próprio entendimento da vida, mas, sempre, após essas buscas, para os meus questionamentos, os meus anseios e as incógnitas que trazemos na alma, as respostas que mais me satisfaziam ao intelecto e à emoção foram em torno da Doutrina Espírita.

Posso dizer que não tive vivência efetiva em nenhum outro movimento religioso a não ser o da Doutrina Espírita. Frequentei na Casa, que hoje atuo, ainda em Ponta Grossa, a Evangelização Infantil. Afastei-me um período para a minha formação profissional. Cursei a Universidade fora de Ponta Grossa. Ao retornar, me vinculei ao grupo de jovens da Casa, posteriormente coordenei esse grupo e permaneço, até hoje, no Conselho da Casa, atuando em algumas atividades doutrinárias, em exposição doutrinária, naquilo que me é possível e me permitem.

Você trabalha desde bem jovem, no Movimento Espírita, ou essa sua adesão se consolidou com o passar dos anos?

Aos vinte e poucos anos posso dizer que me tornei trabalhador espírita. Foi quando terminei a Universidade. Até então eu era um grande usuário da Casa Espírita. Era o evangelizado, aquele que escutava as palestras, que recebia as terapias espíritas, mas, efetivamente como trabalhador e assumir responsabilidades foi após concluir a minha formação universitária quando eu retornei à Ponta Grossa.

Mas, lembro desde poucos anos, as dificuldades que eram para me levar à Casa Espírita, eu fui um evangelizando difícil.

Uma das atividades a que você está vinculado em sua cidade, é o Programa Televisivo Presença Espírita. Sabemos que ele foi ao ar, por primeira vez, em 3 de maio de 2007. Portanto, lá se vão quase onze anos. Você fez parte da equipe criadora ou aderiu a ele mais tarde?

Tínhamos o anseio, junto a um grupo de amigos, principalmente os que trabalhavam em torno da União Regional Espírita, de um programa televisivo. Havia um programa de rádio, há muito tempo, mas gostaríamos de mudar a própria mídia para aumentar a difusão.

Pensávamos como fazer, discutíamos, até que um dia, era abril de 2007, fomos convidados a participar de uma roda de conversa num programa da TV a cabo local, em torno dos cento e cinquenta anos de O Livro dos Espíritos, que se celebrava naquele ano.

Estávamos em um grupo de cinco espíritas. A temática do programa não foi só sobre isso, era um programa de variedades, numa tarde. Ao sairmos, cruzamos com o proprietário do canal e brincamos com ele, falamos, informalmente, nos corredores, de que seria muito interessante termos um programa espírita. De pronto, falou: “Semana que vem estou aqui, tal dia, venham me procurar.”

Fomos Sílvia Sgarbi e eu, somente nós dois fomos falar com ele. Já o conhecíamos das relações sociais da cidade. Apresentamos o anseio que tínhamos e ele, rapidamente, falou que a ideia seria interessante. Colocou alguns valores e disse: “No quadro de horários, tenho disponível quinta-feira às nove horas da noite. Está bem para vocês?”

Dissemos: “Não, viemos só conversar. Temos que ver outros valores, levantar esses valores.”

“Não, vocês começam mês que vem e os três primeiros meses serão franqueados, sem custos. Vocês não geram custo nenhum para mim e eu não cobro o horário para vocês.”

Nós nos assustamos porque eu, professor, a Sílvia, dentista e os outros colegas do Movimento Espírita ninguém vinculado à mídia. Tínhamos trinta dias para estruturar um programa, organizar um cenário, uma estrutura, qual seria o modelo e tínhamos uma hora para preencher, o que é uma infinidade para a TV.

Mas, a Providência Divina entende quais são os momentos certos. Sei que trinta dias depois estávamos, Sílvia e eu como os apresentadores. Fizemos um formato de programa que permanece até hoje.

Esses três primeiros meses se prorrogaram por um ano, ao final do qual dissemos para a equipe: “Nós precisamos falar com o proprietário, porque até agora não pagamos nada, ele não cobrou nada e ficara aquele combinado de três meses.”

Fomos falar com ele: “Continuamos sem dinheiro, não temos um patrocínio e continuamos aqui, precisamos saber qual é a situação.”
Ele disse:”Continuem.”

Depois disso, deixamos de perguntar. Imaginamos que o contrato não tinha data de validade e o programa, em maio de 2018, completa o 11º ano no ar, ininterruptamente.

Qual a periodicidade do Programa? Ele é apresentado ao vivo ou são feitas gravações prévias?

Começou às quintas-feiras, às 21 horas. Depois, alguém comprou esse horário e o programa foi deslocado para as 22 horas. Nunca saímos da quinta-feira, a única alteração foi das 21 horas para, atualmente, às 22h e é sempre ao vivo.

O programa vai ao ar, no canal a Cabo local, é transmitido localmente pelo sistema Net e também tem um link, para assistir ao vivo pela Internet no endereço da TV.

A equipe inicial permanece ou foi sofrendo alterações, ao longo dessa década?

Essencialmente, são cinco ou seis pessoas que iniciaram e que estão nessa década toda. Existem uns casos muito interessantes. Certa feita, encomendamos com conhecidos do Movimento Espírita que nos franquearam e fizeram um valor muito pequeno, uma vinheta. A agência de publicidade elaborou algo muito profissional, muito bem feito e colocaram uma música de fundo. Testaram para nós e nos agradou.

No primeiro dia, em que foi ao ar a nova vinheta, um companheiro do Movimento Espírita, músico de formação, apareceu no estúdio: “Eu gostaria de saber se precisam de voluntário.” Eu disse: “Sempre precisamos. Permaneça aqui conosco.” Ele escutou a vinheta e falou:” Vocês sabem de onde vem essa música da vinheta? Ela vem de um filme.” Era um filme de terror, macabro. Rapidamente, pensamos que não seria interessante esse vínculo porque, se ele músico, associou uma coisa a outra, então não era a imagem que desejávamos associar ao programa. Esse companheiro nunca mais apareceu, ele foi no único dia necessário. Aí se percebe a Providência Divina cuidando para que o programa possa ser levado a termo nas melhores condições possíveis.

Então, existem alguns companheiros que aparecem num momento ou no outro, mas essencialmente, a equipe são dois ou três apresentadores, um convidado entrevistado e. nos bastidores, temos duas ou três pessoas. Antes recebíamos, porque o programa é ao vivo e tem a possibilidade de interação com o público, recebíamos muitos telefonemas. Hoje não mais, ninguém mais telefona porque temos a página no Facebook e as pessoas acabam tendo contato somente com mensagens através da rede social.


E como é que vocês definem quem vai ser entrevistado?

Convidamos pessoas do Movimento Espírita, algumas pessoas de fora, a grande maioria do Movimento Espírita de Ponta Grossa, até pelo deslocamento. O horário termina às 23 horas, é um horário difícil para as pessoas de fora se deslocarem, num dia da semana. Entendemos que existem essas restrições e via de regra, temos dois modelos de programas. Um é o modelo no qual o primeiro bloco é um bate-papo entre os dois apresentadores em torno do tema daquela noite. O tema quem define é o entrevistado.

O segundo e o terceiro blocos são fundamentalmente em torno da entrevista e o quarto, alternamos entre a entrevista e respostas a algumas perguntas do telespectador.

Alguns entrevistados não se sentem à vontade de receber a pergunta de rompante. Então, nós os poupamos e ficamos nós, os entrevistadores, para responder essas perguntas que chegam na hora, que não temos o conhecimento prévio. Outros se sentem mais à vontade, participam dessa roda de conversa, desse bate-papo informal em torno das perguntas dos telespectadores.

A equipe recebeu algum feed back a respeito dos benefícios da divulgação do programa? Algum fato específico, marcante?

É constante as pessoas, nas redes sociais, comentarem. Percebemos que o programa, fundamentalmente, é para não espíritas, para pessoas que são simpatizantes, que frequentam a Casa Espírita para receber o passe, para assistir uma palestra, mas não têm um envolvimento maior com a Doutrina Espírita. Natural que um programa desses não pode se aprofundar e nem deveria porque acabaria ficando muito restrito a um público alvo. Para os temas buscamos uma abordagem informativa, consoladora, informações de temas muito contundentes do dia a dia, a desencarnação de alguém próximo, a violência social, as relações familiares, que são muito aplicáveis e são significativas para um amplo público.

Certa feita, fui convidado para fazer uma preleção, em um culto ecumênico para uma Formatura de um curso universitário de Ponta Grossa. Convidaram-me para representar os espíritas. Éramos um padre católico, um pastor evangélico e eu. Reunimo-nos, alguns dias antes, na sacristia da Igreja, onde seria a celebração, para que pudéssemos organizar como seria a fala de cada um.

O padre responsável por aquela paróquia me falou: “Eu o conheço de algum lugar.” Eu ainda não o conhecia. Falei: “Não sei de onde. Pode ser, profissionalmente, trabalho aqui e ali.”

“Já sei, é da TV, você tem um programa, não tem? Eu gosto muito do programa de vocês, é bastante esclarecedor.”

Então, percebemos que o programa tem essa intenção e nunca tivemos a pretensão de não ser algo realmente informativo, abrir as portas da Doutrina Espírita, desmistificar o Espiritismo, mostrar a Doutrina Espírita como uma Doutrina fundamentalmente cristã. São aspectos que, quase semanalmente, são tratados.

A figura do Cristo aparece muito no nosso diálogo para que as pessoas entendam que o Espiritismo é uma Doutrina cristã, de que a moral do Cristo é fundamental para vivenciar o Espiritismo.

Então, esses pontos chaves, esses pontos basilares do entendimento da Doutrina
Espírita são pontos que quase, pedagogicamente, tratamos a cada semana.

Entre os entrevistados, ao longo desse tempo, compareceu alguém de destaque no Movimento Espírita?

Quando temos oportunidade de convidá-los e de tê-los ao vivo, algumas vezes. Por exemplo, coincidiu de um programa com a Suely Caldas Schubert. Estava numa quinta-feira em Ponta Grossa e então a entrevistamos ao vivo, com a possibilidade dela responder às perguntas dos telespectadores.

Mas, já gravamos entrevistas com Haroldo Dutra Dias, com Divaldo Franco. São personalidades que, quando estão no Movimento Espírita aqui em Ponta Grossa, aproveitamos o ensejo.

E qual a contribuição do Presença Espírita no sentido da unificação dos espíritas da região?

Como convidamos entrevistados de várias Casas, de certa forma elas se sentem representadas porque veem seu companheiro, o trabalhador da Casa ali. Entendemos que o programa pertence ao Movimento Espírita da região. Ele não é propriedade de pessoas e nem de uma determinada Casa Espírita. É um entendimento de que aquilo é a forma de expressão, de divulgação do Movimento Espírita, porque apesar de estarmos os mesmos há dez anos, na coordenação e desenvolvimento do programa, logo mais não estaremos por um ou outro motivo.

Então, que ele seja perene como perene são as Instituições do Movimento Espírita. Esse é o sentimento que buscamos passar, de que ele não se personalize. Sempre comentamos que a estrela do programa, a única estrela do programa é a Doutrina Espírita. Todos nós somos coadjuvantes, mesmo aqueles que, por força do papel que exercemos, na organização de apresentação se mostram mais, a figura apareça mais, se exponha mais. Somos coadjuvantes. O destaque é a Doutrina Espírita, não importa se mudem os apresentadores, se mudem os bastidores, o programa deve permanecer com a mesma qualidade, com a mesma estrutura e que não dependa de pessoas e sim sempre seja a expressão da Doutrina Espírita para aqueles que busquem a informação espírita.

Algumas vezes, ouvimos pessoas falarem:”Estou no Hotel tal.” É alguém viajando ou a negócios. Estava no quarto do Hotel zapeando, trocando de canais e, de repente, se depara com o programa. Espíritas de outra região: “Que bacana!” Não espíritas:” Eu não sabia essa informação.”

Também serve esse caráter de informação. Pessoas nos contatam:” Vocês podem rezar para fulano? Vocês podem contatar meu pai que morreu?” Coisas que são muito pragmáticas, que as pessoas querem as respostas de imediato.

Também temos a oportunidade de explicar qual é o caráter, a possibilidade, os recursos que a Doutrina Espírita oferece nessa ou aquela situação e como já divulgamos, o Canal também tem um acesso pela Internet. Por isso, não raro, pessoas de outros Estados estão nos assistindo, mandam mensagens. Como a dinâmica do programa ao vivo permite que façamos essa interação, para aqueles que entram em contato conosco, ao longo do programa, com perguntas ou simplesmente com alguma participação, sorteamos um livro ao final, um ou dois livros.

Algumas vezes, são pessoas de outras localidades, de outros Estados que são sorteados com a obra espírita. Fazemos questão de postar e mandar pelos Correios. Seria, algumas vezes, muito mais barato pedirmos que ela comprasse e nós ressarcíssemos. Mas, fazemos questão do carinho, da pessoa realmente receber a obra do programa que ela assistiu.

E, há uns três ou quatro anos, instituímos um canal no Youtube. Editamos o programa para retirar os comerciais e postamos no Youtube. Então, o Presença Espírita Ponta Grossa também está disponível lá, para quem quiser assistir.

Parabéns pelo trabalho. Para encerrar nossa entrevista, você, jovem, atuante, poderia deixar uma mensagem aos jovens espíritas e em especial aos que são voluntários em suas Casas Espíritas?

Começar jovem, no Movimento Espírita, é uma oportunidade rara, talvez única na encarnação de todos nós. Reencontrar o Cristo tão cedo sob a ótica lúcida, clara, sem os atavios que costumamos ao longo do tempo, é uma oportunidade que talvez só consigamos mensurar quando desencarnados.

Mas, o maior desafio de todos nós, creio ser o de permanecer. Várias virtudes são importantes para ser trabalhador no Movimento Espírita. Perseverar é fundamental. São muitos aqueles que ombreiam conosco em alguns momentos e, frente às intempéries, dificuldades da vida, capitulam, afastam-se, abandonam a responsabilidade.

Permanecer, perseverar não é simples. Trazemos a alma com muitas dificuldades. Os dramas que trazemos na alma, quando nos propomos trabalhar pelo Cristo, muitas das vezes, temos dificuldade de gerenciar essa dicotomia entre aquilo que desejamos ser e aquilo que percebemos e que ainda somos. Por isso, frente aos achaques morais que enfrentamos, ao assédio espiritual natural daqueles que buscamos a renovação íntima, muitos de nós abandonamos o trabalho.

Permanecer é fundamental porque nós, talvez sem exceção daqueles que percebemos a responsabilidade do trabalho no Movimento Espírita já capitulamos muitas vezes.

Fomos nós que abandonamos o Cristo ao longo de muitas vezes e oportunidades. Trabalhar no Movimento Espírita é a oportunidade, talvez maior, que o amor, o carinho que o Cristo tem por cada um de nós, oportuniza, conhecendo e sabendo as enormes dificuldades que todos trazemos. Ele programa uma reencarnação, onde faz questão que O reencontremos. Percebe que se nós O encontrássemos em outras lides menos lúcidas, nos perderíamos novamente. Então, Ele busca um espaço, no Movimento Espírita para nós. Vejamos como é restrito, se somados os sete bilhões de pessoas encarnadas, e Vianna de Carvalho nos fala de mais de vinte bilhões de desencarnados.

E a Providência Divina acha um espacinho para que o nosso projeto reencarnatório seja vinculado ao Movimento Espírita porque Ele sabe das grandes dificuldades que trazemos, sabe do nosso potencial e das oportunidades, sabe que queremos soerguer perante as nossas dores. Então, encontra esse espaço para que pudéssemos reencarnar.

Que não percamos a oportunidade. O mundo tem tantos chamarizes, que sempre houve. Muitas vezes se romantiza dizendo que “Há vinte ou trinta anos era mais fácil”. Eram outros dramas, eram outras dificuldades; Sempre haverão os clamores do mundo porque eles refletem os clamores da alma.

Então, que permaneçamos, aproveitamos a oportunidade, mesmo que não como trabalhador, daquele que assume a responsabilidade, porque mais importante do que ser trabalhador espírita é ser espírita. O mundo precisa de espíritas. Espíritas no lato sensu da expressão, daqueles que labutam principalmente em evidenciar o Cristo. É isso que o mundo espera de nós, é isso que o Cristo espera de cada um de nós. Finalmente, deixemos de proselitismo, deixemos de tentar convencer os outros para passar a convencer a nós mesmos, para que, de uma vez por todas atravessemos a porta de Damasco de todos nós e possamos ser efetivamente cristãos.
Há dois mil anos Jesus espera que sejamos cristãos. Ainda titubeamos se vale a pena. As dores que carregamos, os desequilíbrios que colecionamos são frutos dessa frouxidão moral que ainda trazemos, desse vacilar perante o convite do Cristo. A partir do momento que nos decidamos, seremos felizes. É esse o convite que Ele nos faz.

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 17.3.2018.