telma sarrafTelma, você é voluntária na Mansão do Caminho, obra social do Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia. Como foi sua trajetória espírita até chegar a esse voluntariado?

Comecei em 1973, na Juventude Espírita, quando o [Centro Espírita] Caminho da Redenção ainda era no bairro da Calçada. Fui orientadora de Juventude Espírita. Em 1994, o Centro Espírita e a Mansão se transferiram para o Pau da Lima. Então, reestruturamos algumas atividades. Começamos com o grupo de Estudos Espíritas Vianna de Carvalho, que já tem vinte e oito anos e coordenamos este grupo, que tem seis módulos. Estatutariamente, há um setor que regulamente os estudos.

Temos cinco grupos de estudos na Casa funcionando às terças, quartas e quintas, à tarde e à noite, com temáticas diferenciadas. Coordenamos esse setor de estudos, e especialmente, o Grupo de Estudos Vianna de Carvalho.

Em 1990, começamos a fazer os eventos de Divaldo. Tínhamos, na Mansão, um grupo, o Instituto de Pesquisas Psíquicas, no qual se estudava a ação dos passes e outras temáticas. Nessa época, o padre François Brune escreveu o livro Os mortos nos falam. Queríamos trazê-lo para conversar conosco, por ser um padre descobrindo essa imortalidade, essa comunicação dos Espíritos. Não tínhamos recursos. Pedimos a Divaldo fizesse um seminário sobre meditação, no Hotel da Bahia. Ele concordou e o seminário teve quatrocentas e oitenta pessoas, a capacidade total do auditório. Repetimos o seminário dois meses depois com uma lista de espera de igual tamanho e com esses recursos pagamos a passagem do padre para fazer um trabalho conosco.

De lá para cá esses seminários foram exitosos, repetidos a cada ano. A partir de 1997, começou o Encontro Fraterno. Ficamos com um Workshopping e um Encontro Fraterno. Em 1998, começou o Movimento Você e a Paz.

Muitas pessoas, conhecendo, ao menos parcialmente, o extraordinário trabalho da Mansão do Caminho, de tantas bênçãos, cogita se voluntariar. Alguns até afirmam: Quando me aposentar, me mudarei para a Mansão e trabalharei lá. Quais são as exigências básicas para que alguém seja admitido como voluntário? E os voluntários vivem na Mansão?

O critério maior é a boa vontade, a disponibilidade e o compromisso, porque, às vezes, o voluntário pensa que ele só tem a tarefa quando não tem nada para fazer, se o seu tempo está livre, mas, se amanhã tiver algo para fazer, já não dá mais.
Inicialmente, o voluntário vai e faz uma visita. Temos uma visita programada, pela manhã e à tarde das 9h às 11h e das 14 às 16h. Maria Anita coordena este setor, ela tem voluntários que conduzem para uma visita à Instituição, e o setor que mais agradar o voluntário, ele conversa com o chefe do setor, diz da sua vontade de se tornar um voluntário. Havendo necessidade, uma aceitação ele vai ao setor pessoal, preenche uma ficha de voluntariado onde ele diz os dias que poderá estar presente, quantas vezes na semana, quantas horas ou se é um voluntariado não fixo. E ele começa a ser voluntário na Instituição.

Quase nenhum dos voluntários reside na Mansão. Os que residem são os que estavam enquanto tínhamos o orfanato. Hoje só temos regime de externato.

As crianças entram às 7h e saem às 17h, fazem todas as refeições na Casa: lanches, almoço, café. As crianças da creche tem sua roupinha tirada, ao chegarem. É lavada e quando elas saem levam a roupinha limpa. Também levam o pão porque observamos que os irmãos não tinham o que comer, em casa. Eles levam esse pão para a família. No fim de semana, levam itens adicionais. Se estiver doente, leva a medicação para não haver interrupção. É um trabalho grandioso.

Temos quatrocentos e vinte e oito voluntários e trezentos e poucos funcionários. Na creche temos uma média de cento e setenta e oito crianças. No Jardim Esperança são setenta e quatro. Na Escola Alvorada Nova, são cento e oitenta crianças. Na Escola Jesus Cristo, são mais de mil e duzentas crianças, até o nono ano.

Dessas, absorvemos mais de oitocentas para um projeto, Um Salto para o Futuro, que é um trabalho educacional em turno oposto, no contraturno da Escola. As crianças permanecem, fazem a refeição na Mansão e ficam no contraturno em cerca de dezenove opções de atividades, para evitar que fiquem nas ruas, se vinculem com as drogas. O Pau da Lima é um bairro muito ligado à droga, à violência. Então, quanto mais absorvermos essas crianças dentro da Instituição, mais estaremos tentando evitar que elas se vinculem a isso. Temos pais que são chefes de gangues de tráfico. Suas crianças estão na creche.

Graças a Deus, nunca tivemos nenhum assalto, nenhum assédio, nenhum arrastão, que, muitas vezes, ocorre no bairro. Eles respeitam a Instituição justamente porque os filhos estão lá.


Entendendo que todos nós, espíritas, temos nossas atividades profissionais e que o trabalho voluntário é um adicional, em nossas vidas, como você administra família, profissão, voluntariado?

Hoje estou aposentada, aposentei em 2011. Só trabalho na Mansão. Antes, era assim mesmo, fazendo à noite, fim de semana, porque durante o dia eu tinha o trabalho profissional, a família. À noite, as atividades do mediúnico, dos grupos de estudos, das reuniões doutrinárias, fim de semana programando os eventos e demais atividades.

Quais são suas atribuições específicas na Mansão do Caminho?

Sou a segunda Vice-Presidente, coordeno o Setor de Grupos de Estudos, o Setor de Patrimônio e o Setor de Eventos e uma das mediúnicas da Casa.

De uns anos para cá, a temos visto como coordenadora geral do grande evento Encontro Fraterno com Divaldo Franco. Você nos parece a organizadora, a que tudo determina, ajusta. Poderia nos falar um pouco a respeito dessa experiência e desde quando a assumiu, o que lhe exige esse evento anual que, nos últimos anos tem superado a marca dos seiscentos participantes?

Começamos em 1997. Divaldo chegou de uma atividade internacional e disse: Vamos fazer um evento no fim de semana. Ele tinha feito na Europa, e fora muito bom.

Nessa época, havia um Hotel na Ilha de Itaparica, que estava desativado. Não tínhamos recurso nenhum e não queríamos gastar da Instituição. Fomos até a direção desse Hotel e passamos o fim de semana limpando-o. Lavamos tudo. O Hotel tem uma vista linda para o mar, fica na Bahia de Todos os Santos.

Recebemos cerca de trezentas e quarenta e cinco pessoas. Sempre foi esse modelo, chegamos na quinta e ficamos até o domingo. Combinamos que faríamos de dois em dois anos. Então, em 1999, fizemos no Fronteira Resort, em Itacimirim, no litoral norte também muito bonita a praia. Esse foi o melhor. Tinha estrutura, um anfiteatro, mas era pequeno.

Aí paramos dez anos. Não tinha data, Divaldo viajava muito.

Em 2007 eu disse: Divaldo precisamos fazer, são dez anos do encontro. Tínhamos contrato com um hotel em Sauípe, quando o Prefeito pediu que todos os hotéis de Sauipe disponibilizassem as hospedagens para o Sauipe Folia, que era um carnaval que ia começar a ser realizado, nesse local. Esse hotel nos indicou o Vila Galés Marés e fizemos os encontros, de 2007 até 2010, nessa praia de Guarajuba.

Era um hotel novo, inaugurado há três meses. O auditório logo ficou pequeno. Conseguimos colocar ali umas quatrocentas e setenta pessoas. Estava muito difícil e fomos para o Iberostar. Havia um casal que conhecia o Diretor Comercial do Iberostar e nos indicou. O Iberostar tem muita simpatia pelo trabalho do Encontro e muita admiração pelo Divaldo, pela Mansão. Temos com eles um acordo comercial muito bom, eles nos dão dezessete apartamentos triplos para a equipe de trabalho de maneira que a Mansão não paga nada pelo trabalhador. Temos cerca de cinquenta trabalhadores nessa equipe do Encontro, contando com os de fora, a equipe do Rio Grande do Sul, a equipe de São Paulo, além do setor de Eventos, que tem um número maior.

Estamos lá, desde 2011. Neste ano, vamos realizar o Encontro de 20 a 23 de setembro. É um Encontro trabalhoso. O hóspede chega, temos o transfer que sai de dois pontos da cidade. Do aeroporto, saem em torno de dez ônibus e do Shopping Salvador de dois a três ônibus. Chegamos na tarde de quinta-feira, à noite temos abertura com Divaldo, sexta-feira e sábado o dia todo, das 9h às 12h30, das 16h às 17h e das 20h30 às 22h; no domingo de 9h às 11h, 11h30. O checkout pode ser feito até 12h30, mas o hóspede pode ficar nas dependências do Hotel até a hora que quiser, só não tem direito ao quarto. O hotel é muito confortável. Ao pagar a inscrição, o hóspede paga tudo, com exceção da passagem aérea. Paga o transfer, a alimentação, o frigobar, a diária. Ficamos no Hotel Premium. O complexo tem dois hotéis e mais as casas. As atividades acontecem em diversos locais. Já realizamos no salão Garcia D’Ávila, para oitocentas e cinquenta pessoas, no Pituba simples, no Pitubão. São três salões abertos, para seiscentas e cinquenta a seiscentas e oitenta pessoas, geralmente, a nossa média.

É um trabalho grande, porém muito prazeroso. Gosto muito, trabalhamos muito, é uma energia gostosa. Quando chega o evento, num instante passa, nem parece, dá vontade de começar tudo de novo.

Uma pergunta que todos fazem: como é trabalhar com Divaldo Pereira Franco, um homem incansável, de grande estofo moral, que dorme um mínimo de horas por noite e se mostra sempre ativo? A tendência é exigir um tanto mais de cada voluntário?

Ele não exige nada. Nós exigimos porque a Instituição precisa. Divaldo está sempre bem ainda que esteja com dores, ainda que esteja passando por problemáticas. É sempre um exemplo de luz, de força, de fibra, de coragem.

Pode estar cansado, ele desce para as refeições, conversa, alegre, jovial, sempre nos estimulando, disponível para qualquer coisa, realmente um exemplo. Ele não exige nada de ninguém, respeita a disponibilidade que cada um queira dar, o esforço que cada um queira empreender.

Os que coordenamos setores exigimos porque é preciso que o trabalho ande. Temos a opção de ser voluntário mas é preciso que haja uma reflexão para haver um compromisso, porque não posso ser voluntário para o dia que me aprouver. Tenho tarefas específicas, o setor conta com o desenvolvimento dessas tarefas, caso contrário, não poderemos fazer eventos desse porte.

Eu exijo muito, mas com fraternidade, com amorosidade.

Diga-nos qual o segredo para manter a serenidade, em meio a um volume intenso de trabalho, com tarefas tão diversificadas, como a Mansão, o Encontro Fraterno e o Movimento Você e a Paz. Reconhecemos que tudo exige em demasia e trata com milhares de pessoas, cada qual com sua forma de agir e reagir.

A Doutrina nos propõe esse equilíbrio, esse trabalho interno de autoconhecimento, de tolerância, de compreensão e, claro, de firmeza. A energia da Mansão é uma energia muito especial. Às vezes, chegamos sobrecarregados, com dificuldades. Fazemos uma leitura, uma oração no início e no término da cada atividade.

É um trabalho muito natural, não há esse estresse de chegarmos nervosos. No meu setor, por exemplo, nunca houve, desde 1990. Buscamos essa harmonia, firmeza, transparência. Sou de dizer o que estou sentindo, cobrar, mas com tranquilidade. Depois da prece, conversamos e todos se doam com muito carinho. Não há um esforço para isso é algo natural, não há brigas. Acredito que seja uma proteção espiritual muito grande, nesses eventos. Divaldo, eu me lembro, disse: Talvez seja melhor não fazer no Sauipe porque estava se preparando para atividades de carnaval. Ele disse que no Vila Galés, cerca de um mês antes do evento, ou mais de um mês, Joanna já estava reunindo um grupo de Espíritos para limpar a psicosfera do hotel.

Nós não temos a dimensão desse trabalho espiritual. Planejamos as atividades materiais, o bom andamento de tudo, a organização de horários de refeições, mas em nível espiritual, está tendo toda essa preparação.

Imaginemos: são seiscentas e poucas pessoas e nunca tivemos um problema a não ser uma senhora, lá no Vila Galés, que foi tomar banho no mar muito agitado, embora nossos avisos. Uma onda a derrubou e ela fraturou a perna.

O filho ficou muito aborrecido, disse que ia processar, depois se acalmou. Não tivemos nenhuma desencarnação. Temos apoio médico no evento, dois médicos, cardiologista, cirurgião geral, enfermeira, montamos uma sala para isso, além do hotel disponibilizar o serviço da Vital Med com ambulância para transporte.

Nunca tivemos um problema mais sério. Certamente, isso é a proteção espiritual. O grupo está ali atento para preparar antes, cuidar durante e proteger depois, um trabalho fantástico.

Você tem vindo às nossas Conferências, anualmente, e traz uma grande equipe. Vocês vêm a trabalho da Mansão, e ficam horas no Bazar, que tem seu estande próprio, em nossas dependências. Uma curiosidade: quem patrocina as despesas com hospedagem, alimentação, translado? E quem produz os tantos produtos que vocês oferecem à venda, em benefício da Mansão do Caminho?

Começamos em duas ou três pessoas, e o grupo foi desejando vir também. Então, fazemos um pacote, dividindo despesas de hotel, de transfer, refeições. Hoje, estamos com trinta e quatro pessoas. Bancamos nossas despesas.

Os produtos são confeccionados na Mansão e alguns doados. Curitiba inclusive tem um grupo de senhoras que nos oferece toda a parte do artesanato.

Este ano trouxemos umas bolsas confeccionadas em palha, que é de um projeto de Olaria que recebeu o prêmio do Movimento Você e a Paz. Quando fui visitar a Comunidade para conhecer o trabalho, porque visitamos todas antes de premiar, havia uma moça que fazia essas bolsas e estamos tentando ajudar a formar uma cooperativa. Trouxemos essas bolsas para ajudar a Mansão.

E que tal nos falar um pouquinho sobre o Movimento Você e a Paz?

O Projeto começou em 1998, um ano depois do Encontro Fraterno. Em setembro, Divaldo disse: Vamos fazer. E lá fomos nós, com Tio Nilson, na época, visitar o Prefeito e ele nos liberou a Praça do Campo Grande, que é uma praça histórica, onde tem a estátua do Índio, da Independência da Bahia. Realizamos ali no dia 19 de dezembro o primeiro Movimento.

Em 2000, foi aprovado um Projeto na Câmara, estabelecendo o dia 19 de dezembro como Dia Municipal do Movimento Você e a Paz, em Salvador. Então, todos os anos realizamos o Movimento no dia 19.

A partir de 2000, também começamos a premiação, a pedido de Divaldo, com o troféu Você e a Paz, agraciando personalidades físicas que se doam, que são destaques pessoais, Instituições que realizam trabalhos sociais de cidadania, e empresas que viabilizam projetos sociais. De lá para cá já oferecemos mais de cem.

É um trabalho fantástico. Já realizamos em setenta e três cidades no Brasil e no mundo, dezessete de fora, em dez países, em onze estados brasileiros. Hoje, Divaldo está muito cansado, mas costumávamos realizar em cidades diferentes, de dois em dois meses; nas cidades do interior, na Bahia e em dezembro realizando geralmente de quatro a cinco eventos em praças públicas, em bairros necessitados, violentos; também na Praça do Campo Grande, no Dique do Tororó, que se tornou um local de destaque, há muitos anos. Há dois anos, vimos realizando no Farol da Barra.

Em bairros difíceis, precisamos pedir ao chefe da gangue do tráfico para autorizar a nossa entrada.
Fizemos no bairro da Paz. Não pudemos soltar os fogos de artifício, que normalmente soltamos ao final. É que ali os fogos significavam a entrada da droga na Comunidade. A polícia nos dá todo o apoio, nos inscrevemos nos órgãos públicos, a Mansão tem uma credibilidade muito grande, a Rede Bahia nos dá um apoio completo. Não gastamos nenhum centavo para a divulgação do Movimento da Paz. Eles nos oferecem todos os vídeos, a participação em rádio, televisão, vão, estão presentes, já receberam prêmios. É um trabalho que tem uma abertura muito grande, um trabalho de Comunidade, de bairro. Ele não objetiva atingir o público espírita, mas o público leigo, a sociedade em geral.

Por isso, sempre realizamos em praça pública, a adesão é maior. O passante nos vê montando o palco, o som. Colocamos uma música, o povo olha, vai passando. Geralmente, é praça de lojista e vai atraindo para a ideia da paz, de que somos construtores dessa paz e que todos podemos ser esse polo de paz.

Mas, para sermos um polo de paz é preciso primeiro nos pacificarmos senão não vamos mostrar nada, só palavras.

Apreciaríamos ter uma mensagem final, na qualidade de espírita, trabalhadora, aos trabalhadores do Movimento Espírita e aos espíritas em geral.

Precisamos persistir. Em qualquer lugar da vida, diante de qualquer adversidade, de qualquer momento difícil, persistamos sempre, porque essa oportunidade é única da nossa reencarnação, estarmos vinculados a um trabalho, de estarmos socialmente inseridos nesse contexto, então que persistamos com muito amor, com muito devotamento, com muita tolerância.

Sobretudo, com olhar para nós porque primeiro, diante de qualquer trabalho que realizemos é preciso que nos olhemos, nos percebamos como seres em evolução, quais as nossas necessidades de trabalhar em nós mesmos, as dificuldades pessoais. Que cada dia sejamos melhores do que no anterior, fazendo o esforço pessoal da autorrenovação, do autoconhecimento e do autoaprimoramento para que realmente saiamos dessa trajetória com um ganho real. E nesse processo do ganho real, trabalhemos com persistência. É uma mensagem de amor e de esperança.

Nossa profunda gratidão por suas palavras, pelo tempo que nos dispensou, oferecendo-nos tantas e excelentes elucidações.

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 17.3.2018.
Em 6.8.2018.