Entrevista O Jovem Espírita e a Política (2018)

Em tempos de transformação, quando caminhamos para a mundo de regeneração, deve ou pode o jovem espírita participar de manifestações políticas e sociais que buscam mudar o mundo? Nos últimos tempos, muito tem se discutido sobre política no nosso país. Esse ano é ano de eleição, como deve ser a postura do jovem espírita em relação às questões políticas?

O jovem, em geral, deve construir, não deturpar. As denominadas manifestações, aparentemente, são muito boas, mas, todas elas são forjadas por elites políticas, que colocam profissionais e atraem os incautos e os honestos. Nós vemos aquela multidão, muitas vezes, uma terça parte dela ganhando dinheiro para fazer balbúrdia e, em nossa ingenuidade e idealismo, aderimos porque nós pensamos na mudança e queremos a mudança. Mas, aí não é mudança pois sempre termina em apedrejamento, fomentado por profissionais da desordem.
O jovem espírita deve transformar-se para transformar o mundo porque o mundo não será transformado de fora para dentro e sabemos, em sociologia, que a transformação é de dentro para fora.

Vou ilustrar com exemplo.

Um grande diplomata da ONU, que residia em Nova Iorque, resolveu fazer um convite a embaixadores para tratarem da grande problemática da Paz, num dia de feriado, em sua mansão em Manhattan.

E, naquele domingo aprazado, oitenta diplomatas de alto gabarito reuniram-se em sua casa para a recepção. Quando estava sendo formada a sala com as pessoas, entra a babá com uma criança de 5 anos. E a criança entra, produzindo ruído: Papai, papai. E o embaixador diz: É meu filho. Todos sorriem. Mas que bonita criança, que simpática, que inteligente… E ele, então, devolve à babá, e dá-lhe um sinal para que a criança não volte.

A reunião começa e, nesse momento, lá vem o pestinha. Entra correndo: Papai, papai, vamos jogar bola! Ele se constrange porque os demais têm uma reação. A primeira vez a criança é muito simpática, a segunda, é desagradável. Então, dá aquele sorriso de quem não aguenta mais e ele dá um sinal para a empregada que vai puni-la porque não sabe reter a criança. Pois não, meu filho, quando acabar a reunião eu irei. E ela leva-o.

Peço desculpas, mas a babá não é muito cuidadosa. E começa a reunião. Pela terceira vez, o terrorista mirim encontra uma forma de entrar e perturba a reunião. Então, todos demonstraram contrariedade. E o pai olhou em volta, o pequenino fazendo zoada, e viu uma mesa de vidro, com tampo de vidro e o mapa dos Estados Unidos, uma tesoura ao lado . E ele chamou o filhinho e disse: Aqui está. Leve este mapa que eu vou cortar. Cortou o mapa todo. E me traga o mapa refeito neste vidro. E aí eu paro tudo e vou brincar com você.

A criança levou o vidro, com os pedaços do país e ele disse: Desculpem, mas, ele não vai voltar nem na outra reencarnação porque não é possível que ele recomponha o mapa.

E o meninozinho sai. A reunião começa e quando está no auge do que fazer para manter a paz, entra a criança aos gritos e a babá correndo atrás. Todo mundo demonstra antipatia à criança. E a criança: Papai, consegui, papai.

E ele olha en passant. Estava, estava o mapa dos Estados Unidos, estava feito. Ele foi surpreendido porque o mapa muito complicado. Disse assim: Mas… Olhou para a babá e ela disse: Eu não toquei, eu nem vi direito como este menino escapuliu.

Papai, aqui está o mapa…

Mas, meu filho como é que você fez?

Papai, do outro lado do mapa tinha a cara de um homem. Eu consertei a cara do homem, consertei a América.

Então, quando nós nos transformamos, o mundo se transforma. Por isso eu citei a frase de Gandhi: Quando apenas uma pessoa adquire o amor, na mais alta significação, muda o mundo.

Gandhi, exclusivamente Gandhi, fez-se pacifista e dobrou o império britânico à sua paixão de fazer jejum. Ele não fazia movimentos de rua, ele não corria. Ele fez apenas um movimento, quando a Inglaterra marcou um imposto muito elevado contra o sal. Então, ele achou que era um tributo dos mais infames. O pobre teria que comer tudo sem sal. Então, ele fez a grande marcha para caminharem até o mar e colherem no mar, nas grandes salinas, o sal gratuito. E a Inglaterra reagiu.

Chegou a ter mais de um milhão de pessoas, que abandonaram tudo, na marcha silenciosa. E, um grande pelotão de soldados indianos, ingleses, e de outros países com as mãos armadas, surravam-nos de matá-los. Aquela primeira manada humana caia despedaçada, vinha outra ao ponto que os assassinos cansaram e eles atravessaram e colheram no mar, o sal.

A Inglaterra voltou atrás. Mas ele conseguiu fazer que o império britânico, a maior força poderosa no mundo, se dobrasse. Quando lhe disseram: Mas, o seu jejum é político?
É um jejum religioso.

Para quê?

Para que nos respeitem, para aqueles que têm religião, nos deem o direito a viver e como eu desejo viver com os meus irmãos eu dou a minha vida por eles.

Nessa noite, o Império Britânico cedeu a liberdade da Índia e do Paquistão sem derramar uma gota de sangue porque, por outro lado, todas as massas que se avolumavam, eram assassinadas. E que nós temos visto na televisão que se transforma em pancadaria. Entre o elétrico de divulgar e os indivíduos de bom senso são, às vezes, tão corruptos quanto como aqueles que pretendem derrubar. É substituir um corrupto por outro. Cabe ao jovem espírita atingir o nível de dignidade para ser um espírita digno, um político digno e mudar o mundo pelo seu exemplo.

E a segunda questão? Não, a continuação da pergunta…

O envolvimento político é inevitável. Aristóteles dizia que a criatura humana é um animal político, mas, o animal político de Aristóteles, o pensador, é o indivíduo cuja vida é um exemplo politizador. É o líder e esse líder atrai simpatizantes. Esses simpatizantes seguem-no e ele se torna um exemplo. Ele tem o direito de votar e de ser votado mas, não tem o direito de trazer ao Centro Espírita os seus pensamentos políticos, porque o Centro Espírita é um lugar de uma outra política: a política do Evangelho, da não violência, do amor. Mas, o cidadão de bom caráter, se é omisso, ele está colaborando para a desgraça do mundo.

Então, é necessário prestar atenção na sutileza. Será que eu estou sendo omisso? Ou será que é humildade? Porque muitos de nós pensamos que ser humilde é ser indiferente ao que ocorre no mundo. Isso não é humildade, é covardia moral. Então, nós podemos ter ideologias políticas, ter até ideologias partidárias na nossa vida privada. Lutarmos pelos cargos e pelos encargos. Mas, não confundir com o ideal religioso da Doutrina Espírita.

Encontro de Divaldo Pereira Franco com os Jovens, na 20ª Conferência Estadual Espírita,
em 15 de março de 2018, no Expotrade Center, em Pinhais/PR
Em 25.7.2022

Uma realização

Federação Espírita do Paraná
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