Entrevista André Trigueiro (2020)

Falemos a respeito de assunto grave, um assunto delicado, que é o suicídio. Em 2019, tivemos um aumento de 7% no índice de suicídios, no Brasil. Nós, os trabalhadores espíritas, o que podemos fazer para colaborar para diminuir esse índice?

Em primeiro lugar, reconhecendo que não é possível atribuir a uma única causa a razão desse crescimento. Deve-se evitar generalizações.

O suicídio é um fenômeno complexo. Existem múltiplas causas que se associam para determinar uma ideação suicida e um desencantamento com a vida, não conseguir acreditar que é possível resolver um problema ou melhorar a sua situação existencial.

Temos fatores psicológicos, genéticos, culturais, ambientais que corroboram em favor de uma percepção, que está envolta em algum nível de perturbação, de que viver não vale a pena.

Então, o primeiro cuidado, resumidamente, é reconhecer que a medicina da Terra, ou seja, as rotas terapêuticas estabelecidas pela psiquiatria e pela psicologia são ferramentas preciosas para a recuperação do equilíbrio. O eventual uso de medicamentos, substâncias químicas para ajudar a pessoa a fazer essa transição de um estado deplorável de autoestima e esperança para um conforto existencial.

O Espiritismo, como ferramenta auxiliar, ajuda a pessoa a compreender-se como Espírito imortal, a compreender que não encontrará, em nenhuma hipótese, alívio ou solução para os problemas, através do autoextermínio, essa perspectiva não existe; a fluidoterapia fazendo a profilaxia da psicosfera. A aura, por exemplo, de um depressivo grave é cinza, é uma existência sem vida, e o Espiritismo possui instrumentos muito valiosos no sentido de corroborar na outra forma de lidar com esse problema que não seja entregar-se à dor e ao sofrimento.

E, dar tempo ao tempo. Cada pessoa experimenta uma dor distinta, singular, cada suicida tem uma história por trás, por vezes, essa história remete a outras existências. Na série psicológica de Joanna de Ângelis, ela associa a depressão, que é um fator de risco suicida, em boa parte dos casos, à culpa de vidas passadas, que fica latente, adormecida na vida atual e, dependendo dos fatores de temperatura e pressão, ela eclode, vulnerabilizando a criatura.

Então, é algo que se precisa ter sempre um olhar positivo. O Brasil avançou muito, nos últimos anos, no entendimento de que não adianta resolver esse problema onde houver tabu. Precisa-se falar sobre suicídio, precisa-se reconhecer a necessidade das competências médicas profissionais porque esse é um tabu nas faculdades de medicina.

Precisa-se preparar uma nova geração de profissionais de saúde, que não tenham pudor ou prurido de tratar da profilaxia desse ambiente de trabalho, no sentido de se livrar de preconceitos e paradigmas equivocados e prevenção e posvenção.

No movimento espírita, importante não nos acharmos competentes para resolver todo e qualquer problema de pessoas em sofrimento, que pensam em suicídio, porque isso pode ser contraproducente. Não é uma questão de fé.

Pessoas com fé pensam em se matar. Entrevistei, há pouco mais de um ano, um padre conhecido, principalmente dos jovens, de redes sociais, padre Fábio de Melo. Ele teve episódio de pânico, seguido de uma depressão profunda. Ele pensou em se matar. Aceitou dar uma entrevista, numa reportagem que fiz de quatro minutos, para a TV aberta, sobre a depressão. Ele estava em tratamento e não teve nenhum problema de dizer exatamente a zona sombria em que permaneceu, durante um tempo, quando pensou em se matar. Falou, abertamente, sobre a necessidade de procurar ajuda especializada.

Terminada a entrevista, resolvi fazer uma pergunta que achei um tanto invasiva com microfone:

“Padre, esta pergunta é para mim, estudo esse assunto e gosto. O senhor, na tradição católica, é um homem de Deus, é um sacerdote, é o medianeiro do contato dos fiéis católicos com Deus. Onde estava esse Deus, na hora em que o senhor pensou em se matar?”

Ele, de forma muito assertiva, disse:

“Deus estava onde sempre esteve. Eu é que não consegui percebê-lO.”

Espíritas se matam, evangélicos se matam, budistas se matam, islâmicos, judeus, candomblecistas, umbandistas, xintoístas, não é uma questão de fé. A fé ajuda. A fé raciocinada é um privilégio, mas não é o suficiente. Dependendo do momento da criatura e das circunstâncias que envolvem a ideação suicida, isso não é o suficiente para dirimir essa ideia mórbida.

No entanto, em certos casos, não seria aconselhável, a fim de se evitar um mal maior? Por exemplo, em tempos de guerra, temos exemplos de personagens que, para evitarem serem presos e entregarem amigos, dão cabo da própria vida. O fato de salvaguardarem a terceiros, poderia lhes constituir atenuante o suicídio?
Na codificação, Kardec, no livro “O céu e o inferno” se deteve, num dos capítulos, na análise de alguns casos de suicídios mais variados e, boa parte das pessoas que foi ouvida por Kardec relatou ou justificou, procurou justificar o extermínio, dentro de uma perspectiva supostamente positiva, benfazeja.

Por exemplo, o pai que resolveu se matar para que o filho não fosse para a guerra e fosse o arrimo de família, permanecendo em casa. Esse pai achava que estava fazendo algo positivo. E, obviamente, ele não percebeu isso na realidade espiritual.

Ficou evidenciado, a partir dessas mensagens, que realmente, em nenhuma hipótese, o suicídio se justifica. O que não significa que nós devamos julgar os suicidas. Deve-se julgar o suicídio. O suicídio é abominável, o suicida não. O aborto é abominável, a abortista não. Precisa-se separar isso, porque não temos o direito de julgar os outros porque não estamos na pele dos outros.

E qual de nós que somos reencarnacionistas poderemos afirmar assertivamente que, em vidas passadas, não recorremos a esse expediente para tentar resolver um problema? Especialmente nós, que nesta vida estamos militando em favor da prevenção do suicídio. No meu ponto de vista, faz sentido acreditar que eu e outros confrades espíritas, provavelmente ou cometemos, ou fomentamos ou fomos muito desleixados no cuidado com a vida. Portanto, é um aprendizado e uma forma de compensar eventuais erros do passado que cometemos.

Esse julgamento não é pertinente e, em nenhuma hipótese, se justificará o autoextermínio. Ninguém tem carma para se matar. Estamos aqui para viver, para valorizar a existência e para entender o sentido da dor e do sofrimento, no período em que aqui estivermos.

O suicídio não está no radar de nenhum ser reencarnado na Terra.

Em se falando de eutanásia, somos por vezes convidados a certas reflexões que nos levam a ponderar se ela seria aceitável perante a Lei Divina. Por exemplo, uma pessoa sob tortura extrema, em sofrimento atroz e cujo fim não seria outro senão a morte, ter alguém que, de alguma forma, lhe abreviasse o sofrimento não seria prova de compaixão?

Mais uma vez, não julguemos a pessoa. Julguemos o caso. Temos que separar eutanásia, suicídio assistido e ortotanásia. A ortotanásia significa um paciente terminal, que está sofrendo pelas tecnologias aplicáveis pela medicina para prorrogar a existência, sendo que isso tem um ônus, que é uma vida muito sofrida, sob condições extremamente difíceis, radicalmente dolorosas. No meu ponto de vista, e do povo que me acompanha nesse projeto para prevenção do suicídio, já tive essa informação, a ortotanásia é legítima. Todos nós temos um prazo de validade. Um tempo de vida na Terra. Por vezes, a medicina pode prorrogar essa existência, de forma absolutamente artificial e dolorosa. Nesse sentido, em havendo a confirmação de que não há possibilidade de reversão e que essas rotas terapêuticas implicam em muito sofrimento, pode-se justificar e a família costuma dar autorização para que não se faça utilização de métodos de prorrogação da vida. Administra-se a dor, analgésico… Fica ali dosando. Não mata. Permite que a pessoa, no tempo dela, desencarne. Isso não é eutanásia. Eutanásia é precipitar a desencarnação, o retorno à pátria espiritual, não aplicando os métodos que podem emprestar dignidade à recuperação da saúde possível.
Entendemos que quem define o momento certo da desencarnação não somos nós. Então, em havendo um sentido para a dor e o sofrimento, a eutanásia, nesses termos, não se justificaria.

O suicídio assistido é abominável. As leis da Suíça, por exemplo, inspiraram boa parte das nações que aplicam o suicídio assistido. Uma pessoa precisa ser declarada portadora de uma dor insuportável e duas juntas médicas fazem uma avaliação dessa dor. Se duas juntas médicas avalizam, confirmam que essa dor – dor é subjetiva, primeiro complicador – mas essas duas juntas médicas afirmam: “Essa pessoa é portadora de uma dor insuportável e damos sinal verde para ela contratar os serviços de uma equipe que haverá de usar um artefato, uma estratégia para induzir ao sono e aplicar uma substância mortal que a própria pessoa deverá acionar.” Isso é filmado pela equipe porque tem que ficar configurado que ela determinou, assinando documentos e com o apoio da junta médica. foi ela que apertou o botãozinho.

Qual é a questão do suicídio assistido? Nós espíritas, se afirmamos que existe a lei de causa e efeito, somos reencarnacionistas e que a dor e o sofrimento não são contra nós, são em nosso favor porque trazem embutidas essas experiências, aprendizados valorosos, que avaliação fazemos da dor dita insuportável? Por que insuportável? Eu estou respeitando quem é cientista, não estou julgando, mas como haveremos de dizer que uma dor é insuportável? Porque Deus não seria soberanamente justo e bom se nos desse uma dor insuportável. É outra presunção teológica nossa aqui, doutrinária. Que Deus é esse carrasco, cruel que permite uma pessoa ter uma dor simplesmente insuportável?

Ou esse insuportável é um desafio existencial? Existem casos que são inacreditavelmente chocantes de doenças que não são controladas, não são passíveis de ação de analgésicos ou morfina. Então é uma dor mesmo, física, sensorial. Não estou discutindo o sofrimento, estou discutindo o insuportável. E não quero julgar porque eu não experimento essa dor.

Mas, o suicídio assistido é abominável porque, do ponto de vista do Espiritismo, não deveria ter lugar no território de opções perante um sofrimento agudo. Temos que esgotar todas as outras possibilidades. E se todas as outras possibilidades foram acionadas e ainda assim eu sofro, entramos no território da fé, entramos no território da transcendência, da espiritualidade, do místico. Preciso buscar força onde a medicina da Terra não me dá o suporte. Essa é uma opinião pessoal.

Agora, falando de Ecologia, de contribuirmos com o mundo sustentável, na qualidade de espíritas, o que nos compete, além do cidadão comum?

A resposta é longa, mas eu vou fazer uma edição. Em primeiro lugar, prestar atenção nas obras básicas, principalmente “O livro dos Espíritos”, quando alude à “Lei de destruição” e à “Lei de conservação”. Precisamos entender que – se no mundo da matéria a destruição é condição para a evolução ter sequência, porque tudo está, nada é – então tudo em transformação, a destruição conspira em favor de um Universo que muda. Faz parte. Ao ler o capítulo da “Lei de destruição”, precisamos separar a destruição, que seria aquela compatível com a “Lei de evolução” e a destruição imposta pelo espécime líder no topo da cadeia evolutiva, feito à imagem e semelhança do Pai, o “homo sapiens sapiens”. Essa destruição não nos convém e ela conspira contra a melhor resolução da “Lei de evolução”.

Então, temos uma questão que é entender a destruição na Natureza como uma lei moral, em que circunstâncias e entender a “Lei de conservação”. E a “Lei de conservação”, em certo sentido, Kardec foi pioneiro porque, em pleno século XIX, antes de existir a palavra ecologia, a expressão desenvolvimento sustentável, a expressão meio ambiente, que veio 30, 40 anos depois da codificação, assinala um compromisso que nós, nessa condição de topo da cadeia evolutiva, deveríamos ter para com a nossa casa planetária. Uma ética civilizatória que compreende o respeito com todos os seres da Criação, o reconhecimento através da ciência da nossa relação de dependência com a fauna e com a flora. Dependemos de uma natureza forte, saudável e resiliente para existir. Precisamos conhecer essas leis para que o mundo de regeneração não seja um mundo desconfortável como nós estamos deixando como legado.

Se o livre-arbítrio é soberano, em certa medida, podemos dizer, pelo andar da carruagem hoje, estaríamos deixando como legado do mundo de regeneração, que está chegando, um planeta com escassez de água doce limpa, um planeta mais quente – e isso traz implicações graves sobre produção de alimentos -, eventos extremos, grandes contingentes populacionais sucumbindo à elevação do nível do mar, inundações ou secas ou desaparecimento de espécies, que emprestam sentido ao equilíbrio ecológico, a produção monumental de lixo – na natureza não existe lixo – nós geramos resíduos e esses resíduos caprichosamente prejudicam nossa qualidade de vida.
Estamos falando que Deus delega, Deus terceriza e nós precisamos nos reconhecer como protagonistas da gestão da casa planetária. Não podemos renunciar. Rezar ajuda, mas não resolve. Tem aquele ditado: “Ora que melhora” e tem um ditado árabe que diz: “Enquanto reza, vai fazendo”. Não podemos adiar.

Kardec foi quem foi, enquanto codificador, alcançando a ordem de grandeza que a Doutrina Espírita hoje possui. A credibilidade da doutrina está fortemente ancorada na ciência. Kardec não foi um mistificador, não foi líder de uma nova religião, era um homem de ciências. Portanto, a Doutrina Espírita está amparada e escorada na capacidade de comprovar o fenômeno mediúnico que existia desde sempre. O Espiritismo afere um selo de qualidade dizendo: não é fraude. E reconheço a fraude usando o quê? Ciência!

Kardec hoje, provavelmente, entre nós encarnado teria muita preocupação, usando as ferramentas da ciência para perceber o risco de quê? De degradação, de devastação, de depredação dos recursos da natureza, que são fundamentais à vida, à saúde, à longevidade, ao bem-estar.

Resumindo: um bom espírita seria aquele que se respeita, ama ao próximo como a si mesmo, respeita, se disponibiliza e socorre o próximo, seja ele quem for, e está também igualmente preocupado com o que ocorre à volta, o ambiente onde a vida se resolve.

Nós, espíritas, temos campanhas pertinentes contra suicídio, contra eutanásia, contra aborto. Por lógica, e Kardec foi o bom senso encarnado, temos a lógica como ferramenta e percepção desse problema. Os espíritas são, por definição, ambientalistas. Eles deveriam entender que no pacote da reforma íntima está embutido: cuidado comigo, cuidado com o próximo e, por último, mas não menos importante, o cuidado com a casa planetária, que não nos pertence, estamos aqui de passagem.

É aquilo que gosto de chamar de “Lei do inquilinato espiritual” – não é nosso – estamos aqui usando como inquilinos. E inquilino, na Terra, assina contrato. No contrato está: quando deixar esse imóvel, no mínimo, tenho que deixá-lo nas mesmas condições em que o dono me deixou. Quando você sai, você tem que entregar, no mínimo, nas mesmas condições. Foi a “Lei do inquilinato espiritual” que assinamos, só que não lembramos. Assinamos o contrato dizendo o quê? Você vai reencarnar e você vai consumir água, matéria prima, energia, cuidado com o Black Friday, cuidado com o Natal pagão, cuidado com o deslumbramento com a matéria, preste muita atenção na ostentação, porque nada disso faz você melhor. E tudo isso significa risco para o planeta e para o seu projeto evolutivo. Então, ao desencarnarmos, qual o nosso legado? Essa é uma pergunta que incomoda. Mas, jornalista incomoda mesmo, faz parte da profissão.
Temos observado, em nosso país, manifestações de intolerância religiosa, sobretudo e especialmente a nossos irmãos umbandistas. Estaremos regredindo na História e nos encaminhando para eventos ainda mais dolorosos, semelhantes aos que já tivemos no passado para algumas religiões? O Espiritismo poderia vir a sofrer algo nesse sentido, bloqueando-lhe o passo da divulgação ampla?

Vivemos um momento muito difícil, grave, não apenas no Brasil, de manifestações de intolerância, de desrespeito, de preconceito ao outro, que não faz, não sente como você, não reza para o mesmo Deus, alguém que tem outra nacionalidade, outro idioma, outra escolaridade, outra cor de pele, outra visão de Deus.

Nós já fomos, enquanto espíritas, alvo de intolerância e de preconceito. O Espiritismo nascente no Brasil foi feito às escondidas, porque a Igreja Católica ocupava também o poder político. Então, no segundo reinado, quando se deu a codificação, a família real se encantou pelo Espiritismo. A princesa Isabel, D. Pedro II, o pessoal leu as obras em francês e não deu publicidade a ele. Por quê? Seria um escândalo.

Divaldo com seus 92 anos, quando vinha para o Paraná, há 60 anos, no grupo mais próximo de Divaldo estava uma tia minha, tia Nadir e o companheiro dela Muzzolon. Nessa época, em que esse grupo mais próximo do Divaldo ciceroneava o médium no Estado do Paraná, pergunte a Divaldo. Eu perguntei para minha tia, quando ela estava entre nós, como era ir. Era difícil! Era difícil se afirmar como espírita. Era difícil se afirmar como médium. Palestras públicas – você se afirmar como espírita num ambiente de trabalho ou publicamente – você estava se expondo a ser rotulado como macumbeiro, curimbeiro e outros adjetivos desabonadores e desrespeitosos. É muito doloroso ver que hoje, por invigilância, alguns espíritas usam essa mesma terminologia para designar seguidores de outras tradições.

Sofremos isso no governo Vargas, fomos proibidos de ter reuniões públicas, como essa que ocorre aqui no Paraná. Alguns historiadores dizem que esse livro de presença na casa espírita foi uma forma do Estado Novo patrulhar ou intimidar quem ia à casa espírita e deixava o nome assinalado para efeito de fiscalização ou checagem.

Hoje, principalmente no estado que eu, o Cezar [Said] aqui presente, nós que vivemos no Rio de Janeiro, estamos vendo uma perseguição horrorosa, sistemática e criminosa contra seguidores de Umbanda e Candomblé. Essa perseguição tem origem em denominações cristãs radicais que, dentro dos presídios, fazem a conversão dos líderes dessas facções criminosas e esses líderes ordenam aos criminosos, que estão nas comunidades de origem, a não permitir mais a existência de terreiros e que os seguidores de Umbanda ou Candomblé usem as indumentárias ou professem publicamente sua fé.

É um escândalo, no Século XXI, no Brasil, que na sua Constituição afirma a laicidade do Estado, ou seja, um avanço civilizatório, cada um de nós têm o direito de crer ou não crer no que seja. É uma opção individual, um direito do cidadão, de livremente fazer suas escolhas no campo da fé. E justamente no lugar do Brasil, onde tivemos a sede do Império, a sede da República, e o Espiritismo, no primeiro momento, a coordenação dos trabalhos espíritas a partir da FEB [Federação Espírita Brasileira], no Rio de Janeiro, estamos testemunhando o horror.

Com todo respeito, na minha opinião, nós, espíritas, deveríamos, neste momento nos preocuparmos menos conosco. O Espiritismo está na moda, o Espiritismo vende. Rende o roteiro para Hollywood, inspira novelas e minisséries, o Espiritismo é “fashion”. Não é para nos preocuparmos conosco. A preocupação é ser solidário com os irmãos umbandistas e candomblecistas, publicamente. Essa deveria ser a nossa preocupação.

A História ensina, na emergência do nazismo, quando os seguidores de Hitler começaram a dar sinais de que haveria problemas para a comunidade judaica alemã, os alemães, que não concordavam com esse estigma que foi imposto aos judeus e que resultou no holocausto, silenciaram. Perceberam o arbítrio, perceberam o risco de vizinhos, parentes, que eram judeus ficarem expostos a essa violência e se omitiram. Deu no que deu. Quem cala consente. O silêncio, neste momento da História do Brasil, onde há intolerância religiosa, não nos favorece. O Movimento Espírita, um dia, poderá ser cobrado sobre isso.

O Espírito Emmanuel nos exorta que a maior caridade que podemos fazer ao Espiritismo é a sua divulgação. Os espíritas estamos atendendo de forma satisfatória, essa questão?

Sempre dá para melhorar. Onde não houver contaminação político-partidária vamos bem, porque sem prejuízo das convicções político-partidárias de cada espírita. Não se deveria misturar doutrina com uma corrente temporal de um determinado partido ou de um líder político, porque isso causa estragos. Sabemos o que houve, nas eleições de 2018. Eu diria, a correta prudência e cautela na abordagem de temas e sem vinculá-los a colorações político-partidárias, é uma boa divulgação. Muita gente se afastou do Movimento Espírita e de frequentar reuniões públicas porque percebeu a contaminação do debate doutrinário, a partir de um viés político-ideológico. Isso não foi totalmente sanado, na minha opinião.

Termos a pluralidade de visões, porque o Espiritismo é uma filosofia espiritualista, senão vai ter duas ou três palestras iguais sobre suicídio. O bonito do Movimento Espírita é que cada palestrante, com todas as suas imperfeições e limitações, traz o colorido da sua visão da doutrina, sem impô-la. O julgamento será feito por quem teve a sorte ou o azar de assistir aquela palestra. O ideal é que cada espírita não delegue ao orador ou ao médium a sua função de alfabetizar-se espiritualmente. O médium ou o orador são facilitadores. Ou deveriam ser.

Mas, quando se estuda, quando se tem alguma afinidade com o estudo, se consegue se blindar de eventuais informações que, pela razão que for, não foram bem assimiladas, não fez muito sentido em relação a algo que se leu ou se estudou. “Nossa, mas esse posicionamento conflita com algo que já li ou estudei.” Isso é Espiritismo na veia. Nós somos uma comunidade, onde não há liderança sacerdotal hierárquica, não há uma hierarquia vertical. A FEB coordena a logística institucional das instituições afiliadas, das federativas etc. Existe um ordenamento jurídico-institucional. Agora, no campo da divulgação, temos um mosaico, um colorido fantástico de pessoas: uma é juíza, outra é especialista em direito, o outro é um baiano aposentado, o outro é professor, o outro é jornalista, cada um transporta, é inevitável isso.

Jesus escolheu doze apóstolos completamente diferentes uns dos outros. E os relatos dos quatro evangelistas não são sinérgicos, mesmo quando eles observam a mesma parte da História do messianato de Jesus. Portanto, estamos falando sobre o quê? Sobre a beleza do jardim de Deus estar na diversidade das flores. Não gosto e não me soa bem o Espiritismo monolítico. Não gosto de ideias monocráticas. A filosofia espiritualista, por definição, é aberta. E quando a ideia não é boa, o estudioso, o aprendiz rejeita. E a vida segue.

Temos que saber usar melhor as redes sociais. Para isso, qualquer reunião de divulgação precisaria ter no mínimo a presença de um jovem com pelo menos 13 anos de idade. Você coloca os engravatados, a cúpula juntos, experiência acumulada, 50/60 anos de Movimento. Quem vai ajudar na divulgação? Chama o Luizinho. Quem é o Luizinho? É o garoto da mocidade, está frequentando há só três meses. Por que vocês estão chamando? Talvez ele tenha boas ideias na divulgação. E creia, provavelmente vai ter. Não do ponto de vista do conteúdo, mas, provavelmente, logística de divulgação.

Se Paulo, o apóstolo dos gentios, da forma endiabrada com que ele fez a grande divulgação do Cristianismo, com todas as limitações de ordem tecnológica e logística, estivesse entre nós hoje, no meu ponto de vista, ele estaria no Instagram, no Face, no Twitter, teria um blog e um canal no Youtube. Acho que sim. Porque não se vai julgar a ferramenta, vai se julgar o conteúdo disponibilizado. A juventude tem que estar dentro.

Começamos a entrevista falando que o suicídio aumentou no Brasil. Está aumentando entre os jovens. A divulgação do Espiritismo entre os jovens se dá como? Como é que se está trabalhando o efeito isca? “Venha!” Venha por quê? O que vai ter para mim de interessante? Aí alguém vai dizer, um macaco véio como eu: “Eu já fui jovem e sei como é que é”. Fake news. Quando eu tinha 13/14 anos, ser jovem era #outra coisa. Ser jovem hoje significa ser protagonista. Eles não estão ali de coadjuvantes. Eles precisam entrar em campo. Os mais velhos são os técnicos, eles vão dizer como, quando se faz o aquecimento, como se faz o alongamento, trabalho de musculação, eu acho que você está melhor para essa posição em campo do que aquela, e na hora certa eu vou começar te botar para jogar.

Se o jovem não tem essa perspectiva, ele passa por uma instituição espírita – isso é apenas uma opinião – eternamente alijado, discriminado. Dos trabalhos da casa, provavelmente em alguns lugares ele não se sentirá mais à vontade, não terá o desejo de persistir naquele objetivo e continuar frequentando. Há que se pensar, são desafios positivos que se precisa enfrentar. Há que se fazer as perguntas incômodas. Kardec foi craque nisso. Quando ele dizia: não se deve ter medo de nenhuma pergunta, pelo contrário, há que se fomentar os questionamentos. Então, no lugar onde não há jovens, onde se imagina que poderia ter, as perguntas incômodas precisam ter lugar. E não existe uma receita certa. Em Londrina, pode-se atrair pessoas numa casa espírita com música. Pode-se promover sarau musical, fazer alguma coisa. Em Cascadura, no Rio de Janeiro, talvez aquilo não funcione muito bem.

Mas, se precisa ser um laboratório vivo, dinâmico, de estratégia de comunicação. Não há nada mais dinâmico no mundo do que a comunicação. Quem previu a Internet? Quem previu a revolução imposta pela Internet? Quem previu as redes sociais? Ninguém! Ninguém previu. E veja, o mundo hoje não pode ser explicado sem isso. Então nós estamos reconhecendo a nossa incompetência para lidar o tempo todo com as inovações, no campo da comunicação.

O problema é se achar que ainda dá para divulgar que vai abrir vaga para a Mocidade colocando recadinho na cortiça do centro. Fazer panfletagem na rua. Distribuir cartazes nas escolas. Em alguns lugares, isso pode ainda ter algum resultado. Agora, se é para atrair jovens, a tática é outra. E Paulo, sensível, obstinado como ele era, rapidamente iria dizer: “Suspendam a impressão de papel, até porque isso agrava pegada ecológica. Vamos virtualizar a comunicação porque essa garotada está aqui ó, e é aqui que a gente vira esse jogo.” Inteligência e sem a pretensão de dar certo na largada, se vai experimentando e fazendo.

Nosso microfone à disposição para mensagem ao público.

Meus irmãos, é um privilégio viver este tempo. Por mais que a soma das dificuldades, obstáculos, empecilhos, nos cause desesperança, angústia, ansiedade, desalento, pensemos. O privilégio de estarmos vivendo o momento da História, onde tudo isso está acontecendo e nós sentindo o calor da panela, enquanto espíritas!

Portanto, aqueles que conhecem a doutrina têm ferramentas maravilhosas de compreensão deste momento e de como estamos aqui não para ver o apogeu do mundo de regeneração. Estamos aqui para fazer a semeadura. Estamos aqui para preparar o terreno para fertilizar o solo para a semente que virá. Estamos aqui para fazer algo muito bonito. Então antes de nos deprimirmos, amaldiçoar o destino: “Por que comigo, neste tempo? Por que estou neste país?” há quem fale isso! Agradeçamos o fato de ser brasileiro, ou estar no Brasil, e ser espírita, e de ter tudo à mão para compreender porque tudo isso acontece. Porque tanta dor e sofrimento, porque tantos flagelos. E nos percebermos como agente da mudança. Vamos fazer a diferença no nosso perímetro, com as ferramentas ao nosso alcance e não renunciemos a essa condição. Por quê? Porque estamos aqui para isso. O resto é detalhe.

Entrevista concedida à Área de Comunicação Social Espírita
da Federação Espírita do Paraná, na XXII Conferência Estadual Espírita,
no Expotrade, em Pinhais, em 15.3.2020, tendo como entrevistador
Jackson Adriano Ferreira.
Em 5.7.2021.

 

Uma realização

Federação Espírita do Paraná
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