Entrevista Cezar Braga Said (2020)

Você está lançando aqui na Conferência Estadual Espírita o seu mais recente livro Floresça onde estiver. Como surgiu a ideia dessa obra e o que ela contém?

É uma coletânea de vários textos que foram publicados, simultaneamente, no Facebook, na minha página, e, ao mesmo tempo, no Jornal Mundo Espírita. Enviamos os textos à equipe [do Jornal] que avaliava e entendeu que os textos tinham um conteúdo, tinham uma proposta interessante. Resolveram inseri-los, não todos, mas muitos deles, nas páginas do Jornal Mundo Espírita. São textos curtos, reflexivos, todos precedidos por uma epígrafe bíblica, a maioria do Novo Testamento.

São textos também muito palatáveis, muito leves, muito poéticos, girando em torno das mais variadas temáticas. Ficou um livro muito bonito na sua apresentação gráfica, na sua diagramação, na sua capa. A organização é de Maria Helena Marcon, que fez a seleção dos textos, e, particularmente, estou muito feliz.

São todos eles repletos de mensagens edificantes, muito acessíveis, não precisa ser um erudito em Doutrina Espírita nem um literato para compreender o que está lá.

Você trata em suas obras a respeito do Centro Espírita, da Educação, da Evangelização. Observa-se, em nosso Movimento Espírita, muitos desencontros, em que a intolerância, acusações, críticas mordazes se fazem presentes. Como podemos agir face a isso tudo, no sentido de sermos aqueles que desejam construir para o bem?

Eu penso que o desafio maior nem sempre é a convivência com o outro. O desafio maior é a convivência conosco. Para mim, que sou psicólogo de formação, entendo que, normalmente, quando a gente se enrosca com outro é porque nós temos enroscos internos. Então, considero que o maior desafio é a gente se conhecer, se aceitar e se modificar. Porque, normalmente, quando a gente estabelece uma relação difícil com o outro, a meu ver, é porque o outro apresenta algo que nós não gostamos, que não aceitamos, não toleramos em nós mesmos. De forma até inconsciente.
Penso que o grande desafio, além de seguirmos estudando o Espiritismo, é esse processo de transformação de dentro para fora, que demanda tempo, paciência e muita perseverança. E vamos cair e levantar muitas vezes. Vamos errar e acertar muitas vezes. Então, a gente precisa de tolerância conosco, sem que isso signifique omissão e conivência, e precisamos de tolerância com o outro. Do contrário, as relações ficam muito difíceis, muito fechadas.

Penso que um grande desafio, também, é a gente avançar para além do regulamento. Vejo muitos espíritas com o regulamento debaixo do braço, com o regulamento na cabeça. Avançar para além do regulamento é transformar o regulamento numa base e ir além. É caminhar para a afetividade, para a afabilidade, para a ternura, nas nossas relações, sem que isso se torne uma coisa piegas, sem que isso vire um sentimentalismo. Mas, a gente precisa ir além. E vejo que, muitas vezes, a gente para no meio do caminho.

Considerando a divulgação alcançada pelo Espiritismo, depois de alguns filmes, especialmente em 2019, Allan Kardec e Divaldo, o mensageiro da paz, as Casas Espíritas têm sido mais procuradas e, em muitos casos, desejando fenômenos, somente isso.

Temos assistido a alguns centros Espíritas, no intuito de atenderem à demanda, criarem reuniões públicas de psicografia, com recepções de cartas de familiares desencarnados e orientações particulares aos interessados. Qual sua opinião a respeito?

Não é correto, por tudo que lemos nas boas obras espíritas. Isso dá um caráter duvidoso a essas psicografias porque, como dizia Chico Xavier, o telefone toca de lá para cá. Sabemos que Kardec a seu tempo praticou as evocações, mas também entendo que isso teve seu lugar, seu momento e não temos nenhuma garantia quando evocamos o Espírito se, de fato, será ele que virá ou outro tomando seu nome e brincando conosco. Essa não é a tarefa primordial da Casa Espírita.

A tarefa primordial da Casa Espírita é ajudar o frequentador, o seu trabalhador, a estudar, a se esclarecer em torno dos postulados espíritas. Quando uma Casa transforma o que é meio em fim, ou seja, o fenômeno e a mediunidade em fim, a meu ver, ela está desviada das suas reais finalidades. Então, é uma distorção, um perigo muito grande e a Casa que faz isso ou o trabalhador que se presta a isso não me parece que tenha entendido o real objetivo do Espiritismo, que é esclarecer, consolar, ajudar o ser humano a se tornar uma criatura melhor.

Temos notícias de encarnações e reencarnações de levas de Espíritos na Terra, que viriam com o propósito de acelerar, participar, colaborar com a renovação do planeta para mundo de regeneração. Fazem parte dessa leva as chamadas crianças índigo? Caso positivo, como se explica que sejam tidos como Espíritos propensos à utilização de drogas?

O conceito de índigo precisa ser melhor esclarecido, aclarado, sobretudo no nosso meio. Ou esse conceito não foi compreendido ou ele não foi muito bem comunicado, muito bem esclarecido. Gosto de citar Kardec em A gênese, quando estabelece as características da geração nova. Ele nos diz que essas novas gerações trazem inteligência e razão precoces, trazem o sentimento inato do bem, trazem a propensão para as crenças espiritualistas. Se identifico numa criança, que foi rotulada ou definida como índigo, essas características, incluo essa criança, ou essas crianças no rol da geração nova. Mas, se não vejo, nessa criança, ou nessas crianças ditas índigo, tais características, então prefiro ficar com Kardec. Porque se elas apresentam comportamentos excêntricos, se elas não se adaptam de forma alguma a regras e disciplinas – e não estamos falando de regras e disciplinas que aviltam, que maltratam, – mas que são básicas, que são condição sine qua non para que essa criança se insira no meio social, para que ela aprenda com prazer, para que ela se desenvolva física, mental, emocional e socialmente; se ela não se enquadra, a meu ver, isso está muito mais dentro de uma patologia, de um transtorno comportamental que precisa do devido acompanhamento, do devido tratamento, com tudo que o Centro Espírita possa oferecer, tudo que a psiquiatria, a psicologia, a terapia ocupacional, a fonoaudiologia, o que essas ciências possam oferecer para essa criança.

Quando ouço esse tipo de colocação ou comentário sobre o índigo, me preocupo porque não temos uma fundamentação no meio espírita, sobretudo de Kardec, André Luiz, os grandes autores espirituais, em torno dessa temática. Respeito quem divulga, respeito quem acredita nela, mas confesso que prefiro ficar com Kardec no que ele dá como referência de Espírito superior reencarnado, com as características que ele lista em A gênese e em demais obras espíritas confiáveis no nosso meio, sejam elas de autores encarnados ou de autores desencarnados.

Você tem experiência na Evangelização Espírita Infantojuvenil. Já publicou obra, inclusive, a respeito. O que deve ser alterado na Evangelização Espírita Infantojuvenil para que alcancemos o êxito esperado: preparar o ser para se tornar um homem de bem, alguém que faça a diferença no mundo?

Penso que a professora Sandra Borba, colaboradora de muitos anos do Movimento Espírita do Paraná, do Rio Grande do Norte, do Brasil e fora dele, num livro publicado pela FEP, define muito bem que é necessário que a gente busque permanentemente a qualificação doutrinária. É um primeiro ponto que ela coloca: a necessidade que temos de seguir sempre estudando o Espiritismo. Ela fala da qualidade pedagógica. Lembra que, na Separata do Reformador, os Espíritos Joanna de Ângelis, Bezerra de Menezes, Guillon Ribeiro, colocavam essa necessidade de se conhecer psicologia da educação, conhecer didática, metodologia, os fundamentos da educação. Isso é muito importante: que o evangelizador da infância e juventude não perca de vista. Sandra também fala da necessidade de uma qualificação administrativa. É preciso que os meios, os recursos, sejam suficientes, satisfatórios. Sandra fala da necessidade de uma qualificação em torno de resultados, de uma avaliação séria, para que a gente possa ir reformulando todo nosso planejamento, todas as nossas práticas. Sandra nos oferece uma espinha dorsal que, a meu ver, é permanente. Mas eu diria, além do que Sandra colocou, que nós precisamos, enquanto evangelizadores da infância e juventude, seguirmos nos evangelizando. Porque senão nós seremos excelentes teóricos, dominaremos todas as teorias, teremos um discurso brilhante, mas a nossa palavra não vai alimentar. Será como um pão que não mata a fome. A gente não vai lograr convencer, tocar fundo a alma, o coração dos nossos evangelizandos. O desafio permanente é que sigamos nos evangelizando.

Finalmente, como você realizou palestras pelo Interior do Estado, desde segunda-feira, gostaríamos que você nos desse uma apreciação a respeito desse trabalho. A divulgação da Doutrina Espírita está se tornando mais efetiva, estamos alcançando esse objetivo?

Penso que temos feito o que está ao nosso alcance, mas a gente precisa avançar um pouco mais. Sobretudo no domínio das novas tecnologias porque são espaços que são ocupados, sem querer fazer aqui uma generalização, às vezes, por pessoas, por programas, que nem sempre edificam, convidam à reflexão e ao crescimento. E se temos uma mensagem com a qualidade que o Espiritismo apresenta, e o Espiritismo é o Cristianismo redivivo, logo, não há mensagem mais pura, mais bela, mais profunda, mais ampla do que a mensagem cristã, com todo respeito às que não se dizem cristãs.

Então, é preciso que o valor, a qualidade da mensagem, esteja aliado à uma forma de comunicação mais plena, de maior alcance, com igual beleza, com igual eficácia, com igual qualidade. Penso que as Federativas precisam avançar mais nisso, os Centros Espíritas avançar mais nisso e nós, enquanto divulgadores individuais, também.

Temos ainda tem muito para caminhar, muita coisa para avançar. Sem dúvida, que estamos melhores do que há trinta, quarenta ou cinquenta anos. E, que no afã de divulgar, não se perca de vista a necessidade de viver. Porque viver e exemplificar também são formas muito úteis e necessárias de comunicar a Doutrina que abraçamos. Mas as coisas podem caminhar juntas. Ao mesmo tempo, que internalizo e vivencio, procuro todos os canais possíveis para poder fazer com que essa mensagem chegue com qualidade ao maior número de pessoas. Precisamos avançar mais.

Agradecemos, Cezar, esta entrevista, e o deixamos à vontade para a sua mensagem final.

Agradeço a você e toda equipe da Comunicação Social da FEP. É preciso que a gente avance para além dos nossos estudos. Que sigamos estudando cada vez mais, com regularidade, continuidade, com recolhimento, como nos fala Kardec, na introdução ao estudo do Espiritismo, em O Livro dos Espíritos, mas a gente precisa melhorar as nossas relações.

É preciso sairmos desse Espiritismo que apenas ilustra nossa cabeça. Ele precisa descer para o nosso coração e sair em forma de ações, de atitudes, para que a gente deixe de ser espírita apenas que se convenceu e nos tornemos espíritas que tenhamos nos convertido. Embora a palavra seja muito gasta e tenha múltiplos sentidos, convertido no sentido de que nos fala Emmanuel, na obra O Consolador, convertidos no coração, na alma. De modo que eu veja em você um irmão, veja no budista, no protestante, no ateu, no católico, no refugiado, na criança, no idoso, irmão. E isso a gente só consegue permitindo que aquilo que ilustra nosso cérebro, que nos convenceu, desça para o nosso coração. Sacuda as estruturas da nossa alma. É isso. Que a gente se ame, que a gente se queira bem, que a gente se acolha um ao outro, sem endossar erro de ninguém, mas também sem censurar nem criticar ninguém.

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita
da Federação Espírita do Paraná, na XXII Conferência Estadual Espírita, no Expotrade,
em Pinhais, em 15.3.2020, tendo como entrevistador Jackson Adriano Ferreira.
Em 5.4.2021.

 

Uma realização

Federação Espírita do Paraná
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