Entrevista Haroldo Dutra Dias  (2020)

1.Nosso entrevistado de hoje é Haroldo Dutra Dias.

Haroldo, você trouxe para o Movimento Espírita informações importantes para o melhor entendimento das parábolas de Jesus, do Apocalipse. Como você teve seu interesse despertado para o estudo do hebraico e todos os detalhes do povo hebreu?

Na verdade, isso faz parte da minha formação espírita porque eu tive uma grande bênção na vida. Um ano depois de ingressar na mocidade espírita, conheci Honório Onofre de Abreu. E o Honório já fazia esse trabalho do estudo aprofundado do Novo Testamento como um todo à luz da Doutrina Espírita. Ele também conduzia uma reunião no grupo chamado Grupo Emmanuel, em Belo Horizonte. É um grupo formador, formou muitas lideranças do Movimento Espírita de Belo Horizonte. Era um grupo ligado ao Chico, àquela primeira turma que trabalhou com o Chico. Ele tinha um estudo do livro Genesis, de Moisés, à luz da Doutrina Espírita. Quando vi aquilo tudo, aquela interpretação, porque eu vinha de um universo católico, e aquelas explicações que eram dadas, sem nenhum demérito, elas não me satisfaziam, ficavam sempre muitas dúvidas. Quando percebi aquela abordagem ancorada na obra de Kardec, aquela abordagem embasada nas obras subsidiárias, do Chico, do Divaldo, as obras sérias de Léon Denis, Yvonne Pereira, aquilo me encantou porque eu percebi que era todo um universo que se abria para reflexão. Então, foi isso que me despertou. Depois, quando estava na faculdade, a próprio conselho dele [Honório] fui me aprimorando, estudando essas linhas porque eu sentia que precisava de uma abordagem mais fundamentada linguisticamente, historicamente. Daí veio esse grande interesse pela cultura hebraica.

2. Seu mais recente livro se chama: E o verbo se fez parábola, poderia nos dizer do que se trata?

“E o verbo se fez parábola” é uma coletânea de palestras sobre o Evangelho à luz da Doutrina Espírita, que foram transcritas e transformadas na linguagem de livro. Quando se faz uma palestra se tem as características da linguagem oral. Na palestra a gente se permite. Isso foi transcrito e foi feito um trabalho de estilização, pelo Boschiroli, que é do Paraná, trabalhador da Federação e que nos ajudou a transformar isso mais próximo da linguagem de um livro. São reflexões acerca do Evangelho, mas orientadas, embasadas nos princípios da Doutrina Espírita e todo recurso da obra é destinado para a instituição “Jardim das Oliveiras”, conduzida pelo nosso querido Alberto Almeida.

3.Haroldo, Jesus, em Sua qualidade de nosso Modelo e Guia, conhecia muito bem as questões da Lei de Justiça. Sabia, portanto, que todos deveriam saldar seus débitos. O que significa então a súplica ao Pai de perdão aos Seus algozes porque eles não sabiam o que estavam fazendo?

Isso é uma passagem que desafia o quê? Desafia a nossa compreensão do perdão. Isso é bonito. Por quê? Nós temos uma falsa visão de que o perdão é um apagar da falta; é um apagar do erro e um apagar das consequências do erro. E aí surge essa passagem de Jesus que desafia essa concepção. Hoje, com a luz da Doutrina Espírita, nós compreendemos que o Espírito imortal precisa lidar com a consequência dos seus atos, porque esse é um elemento pedagógico da Lei Divina. Se você não lida com a consequência dos seus atos não há aprendizado no erro. Então a Lei Divina – está no Código Penal da Vida Futura do livro “O Céu e o Inferno” -, Kardec, como grande educador, nos explica detalhes da Lei porque ele diz assim: é preciso se arrepender – transformação íntima. É preciso reparar, ou seja, lidar com as consequências do mal. E é preciso expiar, que é trocar de lado. Você experimentar as consequências íntimas e psíquicas da ação que você praticou. Então, o perdão não apaga isso. O perdão, o que ele faz? O perdão estabelece entre o ofensor, entre o agressor e o agredido um novo regime de relação. Olha isso. Se alguém agride a outrem, nós temos dois caminhos: o agredido pode, a partir da agressão, estabelecer um regime de relação de vingança. E aí o que acontece? Você multiplica o mal. Se o agredido perdoa, o que acontece? Ele escolhe um outro caminho onde a vingança cede lugar ao perdão. Então, o perdão é um novo regime de relacionamento entre agredido e agressor. Ela abre os caminhos e reduz as proporções do mal. Quando Jesus suplica, simbolicamente, o perdão de Deus Ele está pedindo o quê? Ele está pedindo um novo regime, um novo sistema de relacionamento com Deus, por que qual era o sistema antigo? O Deus que vinga, o Deus ciumento, o Deus que… Era essa a visão. Isso está muito claro no diálogo, por exemplo, de Zebedeu com Jesus. No final, Zebedeu chora – está em capítulo do “Boa nova” – Jesus fala: Antes você temia a Deus. Está tudo certo, porque André Luiz diz que o temor é o berço rústico da fé. Antes, a nossa relação com Deus era uma relação de temor: ele vai castigar, eu vou… Agora, o Cristo inaugura uma relação do quê? Do Deus misericordioso, não é do Deus que passa a mão na cabeça, não é do Deus que apaga a falta, mas é do Deus que, por amor e por misericórdia, abre caminhos à reparação. Porque nós podemos reparar de mil modos diferentes. Quem, por exemplo, abandonou crianças pode vir construir uma obra maravilhosa de amparo à criança; quem tratou mal a velhice, pode vir numa reencarnação e construir uma obra maravilhosa de amparo à velhice; quem usou a inteligência e a palavra para aliciar pessoas, para inserir na mente delas conceitos equivocados, quem desviou multidões com a inteligência, vem expositor espírita. Está vendo?

4.Algumas traduções do Evangelho se referem a Jesus ter rogado ao Pai: Afasta de mim este cálice. Isso mesmo aconteceu ou é só uma tradução equivocada do texto do Evangelho?

Não, isso aconteceu. Isso aconteceu. Então há um cálice. Isso é importante. Por quê? Toda a crucificação de Jesus – e é isso que a gente precisa entender – toda hora Ele está dando essa dica. Toda a crucificação de Jesus evoca a Páscoa. Quando a gente olha para a crucificação de Jesus se a gente não entende a Páscoa, fica difícil de interpretar. Por isso quando a pessoa me pergunta: Eu tenho que estudar o Velho Testamento? Eu pergunto: Você quer entender o Novo, não é?
Estou olhando para a crucificação: como é que eu vou entender? Eu tenho que entender a Páscoa. Qual é o contexto da Páscoa? Na Páscoa tem toda a história do Êxodo, tem todo um livro para contar. É o êxodo, a libertação. Há um cálice: na cerimônia da Páscoa existe o cálice, existe o cordeiro, existe a imolação do cordeiro, e isso foi construído – simbolicamente falando – na História do povo hebreu. Quando começou essa História do cordeiro? Lá com Abraão e Isaac. Então, Abraão leva Isaac, e no momento que ele vai ser sacrificado, Deus fala: Não, não. Eu vou dar o cordeiro. É bonito isso, não é? Porque Abraão prepara tudo, o jumento, leva Isaac, tudo e diz: Nós vamos imolar no monte. E Isaac pergunta: Mas, pai, cadê o cordeiro? E Abraão não tem coragem de falar. Porque na cabeça dele o cordeiro era o filho. E aí Deus provê o cordeiro.
Então, vamos imaginar. Será que Jesus quando fala: Afasta de mim esse cálice, será que está falando dEle? Nunca. Porque Ele já tinha anunciado três vezes que Ele ia ser crucificado. Inclusive, quando Simão Pedro reagiu com sentimentalismo Jesus chamou a atenção dele com muita energia. Não, Mestre, não vai acontecer isso, você não vai ser crucificado… Igual a gente está com o coronavírus agora, não é? Não, não… O que Jesus disse para ele? Afasta de mim essa taça! Sem sentimentalismo. Então, Cristo sabia da crucificação. A crucificação estava prevista, pelos profetas, seiscentos anos antes da vinda de Jesus! Não tinha novidade nenhuma.
Aí, achar que Jesus estava com medo da cruz? Medo de desencarnar? Não é razoável. Então, o que Ele estava dizendo? Ali nós temos um diálogo do “Cordeiro de Deus” com Deus. Porque nós precisamos entender algo: o Cristo não necessitava da experiência terrena. O Cristo não necessitava vir aqui. Ele é o Governador do orbe. Quem deveria estar na cruz? Eu, você, nós. Mas, Deus ofereceu um cordeiro no lugar. Olha que lindo isto! Para quê? Para mostrar para a Humanidade que, embora nós possamos cometer erros, embora exista uma lei de consequência, de causa e efeito, embora exista uma lei de resgate, há forças superiores ao mecanicismo da lei de causa e efeito. E são as forças do amor, do sacrifício, da renúncia, da abnegação.
Então, com Cristo se abrem novos caminhos de redenção. E para mim, na minha leitura particular, porque a Escritura Sagrada não é de particular interpretação, então não posso falar que essa é a interpretação, senão Pedro puxa minha orelha, está escrito lá, ali é um diálogo do Governador do orbe com Deus. Porque, a meu ver, no momento do horto, abriu-se ao olhar do Governador espiritual do planeta o futuro da Terra. Porque nós temos que considerar uma coisa: com a crucificação do Cristo nós devemos ter atrasado a evolução planetária uns cinco mil anos.
Eu digo isso com base em Emmanuel. Porque no “A caminho da luz”, Emmanuel diz assim: Jesus, quando vê o progresso da Grécia, sorri, o mundo espiritual fica alegre. Aí ele manda Sócrates, que é um dos seus ministros – segundo Chico – e aí eles assassinam Sócrates. Então, a Espiritualidade se entristece e uma nuvem de sombra envolve a civilização ocidental. Porque se Sócrates fosse aceito, a filosofia moral, nós poderíamos poupar dois mil anos de evolução planetária. Porque aí nós iriamos vincular a razão – logos – com a moralidade. Com Sócrates nós poderíamos ter conectado a evolução planetária à moral. Não conseguimos. Foi um desastre. É só ler a história: Grécia, veio Roma…
Aí veio o Cristo. Naquele momento da crucificação, Ele estaria chorando por Ele? Ele não está chorando por Ele. Ele já está voltando para Governadoria do planeta. Está chorando pela Humanidade. Por quê? Porque nós escolhemos os mais espinhosos caminhos. Quem é pai, quem é mãe, quem é professora, quem é professor, sabe do que estou falando. Porque você toma amor pelo tutelado. Aí você fala: Ó meu Deus! Por que ele está escolhendo o caminho mais difícil?

5.Jesus disse aos Seus discípulos que eles seriam conhecidos por se amarem. Você acredita que nós, que nos dizemos cristãos, podemos ser reconhecidos desta forma?

Ainda não. Porque o amor que o Cristo implanta é um amor de uma profundidade… porque você imagina: Ele é um amor que tudo compreende, mas que transforma. Ele compreendeu Madalena, mas não foi conivente com ela. Ele compreendeu, mas soube transformá-la. Ele relevou a negação de Pedro, mas o conduziu à fortaleza moral. E Pedro se transformou no líder do colégio apostólico. Ele aceitou o desvio de Saulo, mas o convocou às portas de Damasco.
O amor do Cristo é desafiador, nos constrange. Porque Ele é um amor que ao mesmo tempo transforma, corrige, engrandece, mas também entende, perdoa, é indulgente. Nós, como cristãos, ainda não experimentamos esse amor. Nós estamos ainda vagando em torno de aspectos exteriores à mensagem cristã.

6.Então, o nosso problema hoje seria o amor fraterno?

Seria o amor cristão. Porque o amor cristão é um plus em relação ao amor fraterno. Amor fraterno já tinha na Grécia. Por exemplo, o “philia” de onde vem a filosofia. O amor de amigos, o amor de parceiros, já tinha. Os fariseus – Jesus fala isso – “Se cumprimentardes apenas os que vos cumprimentam, se amares apenas os que vos amam…” esse é o amor que a gente conhece. Que é o amor fraterno.
O amor cristão é mais desafiador. Porque você precisa amar ao adversário, você precisa orar por quem está caluniando você… A pessoa está lá divulgando, falando mal de você, falando mentiras a seu respeito e você está fazendo oração por ela. É desafiador. Esse é um amor que o mundo não conhecia. Nem o mundo grego, nem o mundo judaico. Porque o mundo judaico conheceu o amor. O amor profundo, um amor robusto, mas não nesse nível. Nesse nível, jogou o amor lá para o patamar da Espiritualidade.

7.Aprendemos com a Doutrina a certeza e a imortalidade da alma. Como conciliar essa certeza com a vida que nos exige todos os dias muito empenho em desempenhar nossos papéis, como profissionais, como cidadãos, como homens da sociedade. Como conciliar a imortalidade com o nosso dia a dia?

Tem um texto belíssimo do Kardec, quando ele compara a vida a uma viagem. Quando você está no mundo espiritual a estrada é ensolarada, ampla. Quando você encarna é como você estar numa floresta. Nós precisamos enxergar a vida corporal como uma viagem. Você veio equipado com recursos – nem sempre agradáveis – porque recursos não significam só dádivas, recursos são dores, desafios, expiações, provas. São recursos de aprimoramento. E você vem com propósito específico. Então, nós somos imortais? Somos. Mas, estamos aqui com um propósito específico. E, ao voltarmos à Espiritualidade, teremos que prestar conta dessa atividade, desse propósito. Até que nível quantitativo e qualitativo nós cumprimos esse propósito. Então, viemos com o propósito de aprender certas coisas. Nós temos que aprender. Porque Emmanuel diz assim: “Uma profissão é o quê? Uma oportunidade de aprendizagem, uma oportunidade de aprimoramento. É isso que é uma profissão.”
Então, eu preciso me entregar a ela, porque eu tenho que voltar com esse aprendizado. Uma família é um desafio, é uma oportunidade de desenvolver aspectos emocionais, habilidades emocionais que eu só vou desenvolver naquela família. Então eu preciso voltar para o mundo espiritual com essas habilidades desenvolvidas. Portanto, cada um de nós tem um programa de trabalho. Um programa de trabalho muito individual e muito específico. E nós precisamos pensar nossa vida corporal como esse programa de trabalho. Executá-lo com disciplina, com objetividade e com foco, com bastante foco. Porque senão nós nos perdemos no conjunto de distrações ou de gostos e nos esquecemos de compromissos assumidos, dos quais nós teremos de prestar contas porque nós fomos avalizados, amparados, recebemos recursos, circunstâncias foram conjugadas… Então, nós temos que desempenhar.
Eu falo assim: onde a gente ganha o jogo? Onde Deus nos colocou. Não é onde a gente quer estar. É diferente, é onde Deus nos colocou.

8.Poderia deixar uma mensagem de valor para todos nós que nos credenciamos a ser trabalhadores do Mestre Jesus?

Sim. Comungue com o Cristo. Isso é importante. Comungar com o Cristo. Tem uma mensagem linda de Emmanuel, onde ele diz assim: “Quando você está decepcionado, quando você está desanimado, quando você se sente desamparado, você está sendo alvo de crítica, quando seu trabalho não é reconhecido, comungue com o Mestre. Porque ali nesse processo de comunhão você lava sua alma, Ele repõe as energias, Ele restaura nossa esperança, Ele restaura as nossas forças e Ele nos conduz no cumprimento desse programa individual de trabalho.” Porque o Mestre não é apenas um orientador que fica de longe, ditando caminho. Isso não é Mestre, isso é GPS.
O Mestre é nosso Irmão mais velho, que nos ama e que está ao nosso lado entendendo as dificuldades do nosso nível evolutivo e do nosso percurso. Ele sabe quais dificuldades são essas. E está ali disponível para nos orientar, para nos amparar. Mas aí, nós precisamos desenvolver essa capacidade de comunhão. Essa capacidade de fazer um silêncio interior para deixar que Ele conduza, e que não apenas nossos desejos, nossas emoções, os nossos automatismos conduzam a nossa jornada. Senão a gente corre o risco de repetir processos que já não tem mais necessidade, não são mais adequados.

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita
da Federação Espírita do Paraná, na XXII Conferência Estadual Espírita, no Expotrade,
em Pinhais, em 15.3.2020, tendo como entrevistador Jackson Adriano Ferreira.
Em 4.3.2021.

Uma realização

Federação Espírita do Paraná
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