Entrevista Sandra Borba Pereira (2020)

1. A Evangelização Espírita Infantojuvenil chega ao século XXI ainda sem a total adesão que se esperaria de espíritas conscientes. As dificuldades parecem se somar. Que ações se poderiam empreender no sentido de conquistar pais e dirigentes para a adesão plena a essa área?

Na verdade, a questão da Evangelização Infantojuvenil, que já tem, em nosso país, mais de um século, é uma questão sempre presente, sempre necessária. Lembro-me que na década de 70, a Federação Espírita do Rio Grande do Sul lançou, nacionalmente, uma preocupação em relação a algumas dificuldades do trabalho da Evangelização. Dentre essas, a dificuldade com os pais e com os dirigentes.

Mesmo após inúmeras iniciativas, como foi a grande reunião do Conselho Federativo Nacional, na década de 70, em torno das questões da Evangelização, provocada, como já dissemos, pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul, vamos chegar ao lançamento, em 1977, da Campanha Nacional de Evangelização Espírita Infantojuvenil, ou seja, temos mais de 40 anos de Campanha de Evangelização e, dentre os focos, temos o evangelizador [óbvio] mais os pais e os dirigentes.

O que acontece? Há um conjunto de fatores. Em verdade, temos um Movimento Espírita Infantojuvenil exuberante, grande! Estudos do nosso querido companheiro Álvaro Chrispino em relação à população, movimento populacional, aumento populacional e estatísticas de população de Movimento Espírita de Evangelização. Esses estudos apontam que estamos crescendo cada vez mais. No entanto, há redutos, sem dúvida alguma, que são resistentes. São mentalidades ainda – com todo respeito – arcaicas. São pessoas, companheiros, pais e dirigentes que não têm o alcance acerca da tarefa, muito mais preocupados, às vezes, com as questões mais imediatas da desobsessão, da prática da ação social, enfim, da divulgação doutrinária, da palestra e o esquecimento, ou pelo menos um certo desleixo, em relação aquilo que o próprio plano espiritual tem dito como a tarefa primordial da Educação Espírita, que é, exatamente, a Evangelização das novas gerações.

Não devemos esperar que as crianças se tornem adolescentes, jovens, e mais adiante tenham seus comprometimentos e só depois, então, pelos processos de dor, de obsessão, cheguem à Casa Espírita. Afirma a Espiritualidade – e destacamos, em especial aqui do nosso Estado do Paraná a figura de Lins de Vasconcellos, nordestino, mas aqui do nosso Paraná – que sempre defendeu o programa educacional da Doutrina Espírita. E o programa educacional da Doutrina Espírita tem um papel mais forte ainda junto às novas gerações.

Então, o que é que tem sido feito? Continuamos com muitos materiais, campanhas, palestras públicas, ciclos de comemorações, encontros de pais, e uma coisa muito importante: que é cada vez mais fazer essa interface com a família para fortalecer o trabalho junto à criança e junto ao jovem.

São programas de formação, de divulgação e a responsabilidade também, esta muito pontual, ou seja, na Casa Espírita, o companheiro, a companheira, tem que valorizar. Porque muitas vezes se faz assim: faltou o orador, chama o evangelizador para fazer a palestra.

Como sempre também atuei na área da exposição doutrinária, chegavam para mim dizendo: Olha, o orador faltou. Eu não vou fazer a palestra, peça para alguém fazer, porque se eu for fazer a palestra, vou improvisar e quem assumir a minha tarefa de Evangelização vai improvisar. Matematicamente, são duas improvisações, então improvise-se uma só.

É preciso valorizar o trabalho. Valorizar, divulgar sempre, ciclos, encontros, e o trabalho tem sido feito. Porque esse é um processo de amadurecimento da própria visão espírita. A visão do Espiritismo, enquanto Doutrina eminentemente educativa, como nos diz Lins de Vasconcellos, através de Divaldo Pereira Franco.

2. Ainda se fala e se constata uma grande evasão do jovem, exatamente quando ele deixa as reuniões de Juventude e deveria estar plenamente integrado na Casa Espírita. Que se poderia fazer a respeito? O que nos falta?

Estatisticamente, não existe essa evasão. Ela é pontual. Volto aos estudos do Álvaro Chrispino, porque inclusive, eu diria, é uma fake. Entre nós, do Movimento Espírita, houve essa cristalização da ideia de que não se tem jovens, que o jovem abandona.

Fizemos e continuaremos a fazer as chamadas CONBRAJE, as confraternizações brasileiras, regionais, teremos a nacional e temos a participação imensa. É claro que a criança, por exemplo, são os pais que levam.

Na adolescência, temos umas demandas, como a demanda do curso superior, da formação profissional. Muitas vezes, se tem uma queda de frequência do jovem, em especial, nesses períodos.

Agora, estatisticamente, grosso modo, não existe, ou seja, o aumento populacional sob o ponto de vista de faixas etárias no Brasil é mais reduzido e o da Evangelização, ou seja, da presença da criança e do jovem é maior. Então, esses estudos revelam que não há realmente isso, embora esteja muito presente.
Quanto à problemática da integração do jovem é uma realidade, porque nós viemos de Movimento de Juventude. Graças a Deus, conheci a Doutrina Espírita na infância e, ontem, conversando com André [Trigueiro], ele é de Juventude Espírita, Raul [Teixeira] é de Juventude Espírita. Divaldo começou seu trabalho como jovem espírita, então, temos aqui o fruto, sob o ponto de vista de trabalhadores, de companheiros. Alberto [Almeida] é de Juventude Espírita.

Temos, hoje, a chamada safra dos que estão, inclusive, bem adultos, e alguns já chegando aos sessenta e tudo vem de Juventude [Espírita]. Essa integração é uma dificuldade, com certeza. Voltamos à questão da mentalidade. Porque há também na cultura, na nossa cultura, a ideia ou uma ideia que é meio extremista de um lado e de outro. Primeiro, a ideia extremista de que o jovem pode tudo.

Às vezes, encontramos pessoas que defendem no próprio Movimento: Vamos fazer Juventude Espírita só de jovens, ou seja, ter mais de 23-24 anos, põe para fora. Ninguém quer saber do adulto. Sabe-se que não é assim.

Emmanuel diz que o jovem pode e fará muito, se tiver o suporte, o amadurecimento de alguém, a experiência, o norteamento, a preocupação. E, se isso existe de um lado, do outro lado existe pior: o jovem não pode fazer nada. O jovem não pode, o jovem é imaturo, o jovem é isso, o jovem é aquilo, o jovem é promessa.

Cansei de ouvir essa história que o jovem é promessa. O jovem não é promessa, o jovem é presente. Já imaginou, Chico Xavier antes da publicação de Parnaso de Além-Túmulo – deixe-o prometer, quando ele tiver 70 anos… Não é assim.

Toda essa safra que acabei de falar, alguns companheiros novos estão aí participando, são lideranças do próprio Movimento Espírita. Por isso, não podemos imaginar que Juventude é futuro só, é promessa só, é presente.

E isso significa o quê? Espaços de integração. Aí, se vai formando, desde cedo, o trabalhador, vai agregando o jovem nos eventos, vai tendo espaço para que o jovem conheça as diversas áreas de atividade da Casa Espírita.

Hoje, por exemplo, no nosso Nordeste, em alguns Estados, a área de comunicação está nas mãos de jovens, com a colaboração de pessoas, pela facilidade do jovem no que diz respeito a instrumentos, equipamentos, as tecnologias…

Podemos ter o jovem também na oratória, aplicando passe, a depender, obviamente de todo o processo de formação. Podemos ter o jovem engajado nas atividades básicas da Casa Espírita, sem que tenhamos uma postura, com todo respeito, piegas. Qual é a atitude piegas? Querer ter o jovem, a todo custo, dentro da Casa Espírita. Por que ter a todo custo? Inclusive muitas coisas e muitas práticas estranhas ocorrem no Movimento Espírita para atrair o jovem.

Para atrair o jovem, daqui a pouco se estará fazendo baile funk. Não é isso. O que é que a Doutrina tem de melhor? Ela. O jovem precisa se apropriar da Doutrina. Claro, diante de um contexto, é preciso que ele tenha o chamado pertencimento. Usamos muito, hoje, a expressão protagonismo juvenil e infantil, nas atividades de Evangelização.

É preciso que o jovem comece a ser autor desse seu próprio processo de inserção no Movimento Espírita, o que vai requisitar uma cabecinha melhor, inteligente, mas também sem aquela ilusão de que o jovem pode tudo ou a outra ilusão de que o jovem não pode nada.

É sempre um desafio, meus queridos amigos, ouvintes, do equilíbrio. Mas essa preocupação é fundamental. O jovem não é promessa, o jovem é presente. Ele precisa ser integrado, de conformidade com suas possibilidades, recebendo, como todo adulto também recebe processo de formação, a fim de que o Movimento Espírita possa, de fato, aproveitar essa energia positiva, e principalmente esse entusiasmo que a Juventude apresenta e tem.

3. Qual sua avaliação dos tantos Encontros de Jovens Espíritas – não parece que há uma preocupação muito grande em promover dinâmicas, atividades artísticas, nesses momentos, com menos tempo dedicado a profundas reflexões sobre os conteúdos doutrinários?

Temos que ter sempre o equilíbrio. Se se fizer um encontro de jovens para estudo, se terá um esvaziamento muito grande. O que deve nos preocupar é o equilíbrio dessas atividades.

Entendo a questão e entendo que há situações em que vão reunir os jovens para brincar. A Casa Espírita não é um campo de recreação. A grande contribuição da Doutrina Espírita, a força da Doutrina Espírita está na sua filosofia, conforme Allan Kardec nos assevera. Não se pode reunir os jovens apenas para se divertirem.

Ter um ambiente saudável. Isso é bom, há que se ter a parte lúdica. Mas não esquecer do nosso objetivo, que é proporcionar à criança e, principalmente aos adolescentes e jovens uma ferramenta de compreensão da vida, uma ferramenta de autoconhecimento, uma ferramenta de inserção social responsável, que só o estudo pode trazer.

Por outro lado, é preciso entender que mesmo esses estudos também têm que ter um certo nível de agradabilidade. Isso também é cultural entre nós. É preciso que os encontros de Evangelização, sob o ponto de vista dos estudos, também tenham articulação com a realidade, que se chama de contextualização, porque o jovem não pode estudar o Espiritismo como se fosse uma coisa do século XIX, uma coisa distante.

Situamos uma via de mão dupla, que é a problematização e a contextualização. Sem essa preocupação também que os estudos têm problematizações, ou seja, levar os jovens a refletir sobre a vida, os fatos, as dificuldades, os problemas, os desafios e também a contextualização em que esse estudo doutrinário me ajuda enquanto pessoa, enquanto família, enquanto sociedade, enquanto planeta. É preciso que se vista mais a ideia. Nem reunir para só brincar, embora o lúdico seja também educativo. Com certeza, o grande foco deve ser sempre essa preocupação com o aspecto doutrinário, porque é o que a Doutrina tem de melhor. Diversão ele encontra em qualquer lugar.

4. Houve tempos em que os integrantes das Juventudes Espíritas eram bastante incentivados a visitas a hospitais, albergues, lares de acolhimento de idosos. Essa prática está sendo esquecida?

Eu sou jovem dessa época. Visitei muito hospital, favela. Eu tive a felicidade de ter muito estudo, mas também muita prática sob o ponto de vista de inserção em determinadas atividades. Isso foi muito positivo. Existem algumas coisas que temos que levar em consideração, por exemplo, a questão de segurança.

Eu ia para a Juventude Espírita, de ônibus. Hoje, tem lugar que não se faz isso. Há uma questão de segurança, um fator que termina influenciando. Outro fator: nós estudávamos regularmente nas escolas regulares, mas não era esse volume. Hoje, o adolescente tem um volume de atividades educacionais formais muito grandes.

Tenho uma neta no 5º ano, que o pessoal quer colocar aula no sábado. Achei interessante que no grupo do WhatsApp dos responsáveis todo mundo aplaudiu. Fui a única que disse, não, não acho, não gosto. A criança passa cinco horas dentro da escola, de segunda a sexta-feira e no sábado de manhã vai para aula de novo? É muito tempo! A própria criança está cansada, chega cansada porque ainda tem esporte. Outras têm ainda aula de inglês, tem não sei o quê, tem outro esporte também… Hoje, é um pouquinho diferente a vida do que era há um certo tempo.

Exigências, por exemplo. Se um menor vai fazer visita em hospital, já tem uma legislação em cima. Isso não implica que devam ser abandonadas essas práticas, principalmente porque promovem o contato com a realidade. Acredito que não podemos esquecer.

Podemos e devemos analisar essas situações porque hoje, por exemplo, para sair com um grupo pequeno de evangelizandos, se tem que ter pelo menos transporte, autorização formal dos pais. O mundo mudou muito em algumas situações. Mas, com certeza, essas práticas podem e devem ser mantidas, observadas as situações novas e as exigências novas. Como condição até em relação à teoria, conteúdo e prática.

5. Como trabalhar a conscientização do coordenador de Juventude Espírita de que, ao assumir a tarefa, ele se torna exemplo para os jovens sob sua tutela? Perguntamos porque percebemos muito descuido de alguns coordenadores com postagens sem critério, nas redes sociais, que reputam de caráter individual. Muitas vezes, inclusive, desdizendo, frontalmente, os conceitos espíritas, a postura do cristão.

Acredito que a compreensão de todo evangelizador deve ser de que ele é a liderança moral. Quer ele queira, quer não queira. Se ele não está consciente disso, ele está complicado. Temos que nos entender, enquanto evangelizadores, coordenadores, dirigentes, expositores, nós nos apresentamos com a nossa atividade enquanto liderança moral e isso tem uma série de implicações.

Seria, por exemplo, incoerente, e sabemos que acontece, o coordenador bacaninha, bonitinho dentro da sua Casa Espírita, mas quando se olha para o Instagram dele, se cai para trás. Olha-se para o Facebook e se desmaia. É preciso que o entendimento de que a tarefa de coordenador, evangelizador, dirigente, expositor, o remeta a uma busca constante de coerência, ou seja, de conduta moral.

Muitas vezes, a pessoa assume essa ou aquela tarefa, com todo respeito, não estamos aqui fazendo nenhuma crítica pessoal, mas a tarefa se apresenta como encantadora, é status.

Lembro de um jovem que conheci há pouco tempo, que me disse: Meu sonho é ser expositor espírita. Eu disse, você se prepare para ser, maravilha! Quando você quiser, sentamos para conversar. Expositor espírita não é quem está na vitrine para receber as louvaminhas, existe todo um processo que acompanha essa atividade, de exigências, de reforma íntima, de conduta, de coerência.

Acredito que a grande problemática hoje, em especial, envolvendo a mídia é a preocupação do próprio coordenador de Juventude de se manter enquanto alguém de referência, porque Jesus é o Modelo e Guia, Kardec, o nosso mestre. O evangelizador é a liderança moral. Ele é aquela pessoa a quem o evangelizando vai recorrer. Eu fui evangelizadora anos a fio, até hoje tenho como meus amigos, meus evangelizandos. Vejo que os evangelizandos procuram seus evangelizadores para conversar, para tirar dúvidas, para desabafar, para colocar as situações difíceis que enfrentam. Não podemos esquecer isso. E não esquecer de usar positivamente a mídia.

Há um grupo que é contra a mídia. Não, a mídia será boa se nós a usarmos de maneira correta, de maneira positiva. Por exemplo, tem instituições que dão férias. O que se faz com um mês e meio, dois meses de férias? O evangelizador usa a mídia. Como está, como vai… porque o momento da evangelização às vezes, é de uma hora e meia, duas horas, no máximo, dependendo da forma como a evangelização se organiza. E ele está recebendo lá fora toda enxurrada de influências.

Eu mesma, que convivo, regularmente, com evangelizadores de Juventude, quando começa período de férias, entro em pânico! Meu Deus do céu, os meninos! Chamo de meninos, mas são os adolescentes. Então, marco encontro, procuro fazer alguma atividade extra, vou acompanhando… E acompanho no Instagram, postagem, conversas. Há toda uma possibilidade de influência positiva a partir do uso desse meio de comunicação.

6. Temos visto proliferarem encontros ditos de arte espírita, nem sempre de boa qualidade e até alguns introduzindo dança espírita. Estamos perdendo o rumo?

Pessoalmente eu não entendo que a arte seja o caminho de um desvirtuamento. Tem desvirtuamento na aplicação do passe, no diálogo da reunião mediúnica, na exposição doutrinária, não é a questão da arte. Agora, a arte é um veículo extraordinário.

O grande problema nosso é a medida. Nós conhecemos um trabalho muito interessante de dança espírita, mas que é completamente diferente. A coordenadora trabalha – um trabalho muito bonito – o Evangelho, as mensagens de Emmanuel. Não é coreografia feita, as crianças e adolescentes fazem a coreografia, há todo um estudo doutrinário para aquilo. Então, na verdade, o famoso oba-oba é problema de quem faz, não é um problema da arte e nem a arte de inspiração espírita, como quer que queiram.

Sempre será aquilo que nós fizermos do instrumento. Acredito que seja isso. Então a música, nós aqui começamos a nossa Conferência com um trabalho belíssimo do Coral do Centro Espírita Ildefonso Correia. Em todos os eventos, vamos ter um teatro, uma expressão, artes plásticas, dança, enfim, mas o grande problema é como isso é feito. Porque no caso da arte – vou pedir perdão aos artistas – tem que ter muito cuidado com o ego. Mas o orador também tem que ter cuidado com o ego. O médico tem que ter cuidado com o ego. Todos temos que ter cuidado, não estou focando só no artista! Estou dizendo que também o artista vai ter que ter esse cuidado, ele é um instrumento para divulgação, para sensibilização ou ele está ali como acontece, ultimamente, de uma forma mais acentuada: usando a infraestrutura do Movimento Espírita para se dar bem ou para se colocar.

Tem que ter bom senso, mas não é só nessa área, porque eu gostaria de dizer, tem outras áreas que também estão acontecendo certas complicações, certos equívocos comportamentais. Acreditamos que deverá sempre ter o debate, a conversa, a orientação, a necessidade da orientação acima de tudo e a perguntinha chave: a utilização disso é para quê mesmo? Para projetar, para dizer que tem, é um processo catársico, enfim, é só para atrair? Qual é o objetivo da arte a serviço da divulgação doutrinária? Um certo bom senso e sempre a fundamentação doutrinária porque sem ela não vamos a lugar nenhum.

Uma curiosidade, há muitos anos que a gente acompanha esses encontros, eu sempre achei divertido – com todo respeito – toda vez que se fazia dramatização ou qualquer coisa, o umbral era uma coisa fenomenal. As coisas eram fenomenais no umbral, quando chegava na hora de uma coisa mais celestial parecia que não tinha lá muito recurso. O que é isso? Por exemplo, faz a peça e há coisas que, em determinados encontros é preciso saber se dá para criança assistir, tem criança que fica horrorizada com aquilo ali. As cenas umbralinas, menino! É uma coisa dantesca mesmo. Então, tem que ter bom senso em tudo na vida. André Luiz diz que o expositor é responsável pelas imagens que cria no seu público. Você vai lá detalhar… então, em tudo o fundamento doutrinário, a clareza do objetivo, qual é o objetivo? E o bom senso nas formas práticas em constante avaliação, inclusive para evitar desvios, equívocos e assim por diante.

7. Agradecemos a Sandra por estar conosco neste bate-papo e pedimos uma mensagem final para o nosso público.

Veio-me à lembrança uma grande figura da Igreja Católica, Santa Brígida da Suécia. Santa Brígida da Suécia conheci num livro espírita, chamado “A Mediunidade dos Santos”, da autoria de Clóvis Tavares, que não queria, a princípio, publicar o livro. Ele achava que os espíritas não iriam gostar de se falar da mediunidade dessas pessoas que foram consideradas santas pela Igreja Católica, dentro da sua configuração. Chico Xavier disse para ele: Oh! Clóvis, publica o livro “A Mediunidade dos Santos” é o canto dos cisnes, é o seu canto dos cisnes. É um livro maravilhoso. Ele faz muitos estudos das questões mediúnicas nessas personagens.
Santa Brígida me chamou atenção não pela mediunidade, mas por duas colocações dela muito importantes. Primeiro, o confessor dela – que era muito comum naquela época – diz Brígida, nós precisamos divulgar as suas virtudes, – porque ela batia papo com Jesus. De vez em quando, ela batia papo com Jesus. Ela diz algo que eu entendo que, para mim na condição de evangelizadora, de expositora [eu aplico para mim], seria interessante que todos nós analisássemos, ela disse para ele: Não, meu confessor, eu ainda estou no mar alto. Isso é muito bonito.

Nenhum de nós está imune às quedas, às complicações, aos equívocos, então é uma permanente avaliação. O que estou fazendo, como é que eu estou reagindo emocionalmente, como é que eu estou levando adiante a minha tarefa. E o segundo – aí vai para os expositores, para os evangelizadores, para todo aquele que trabalha de uma forma a influenciar pessoas pelo seu trabalho de oratória, de coordenação. O confessor disse: Mas, Brígida, você é alguém muito importante, seu trabalho, as suas virtudes… Ela olhou para ele e disse: Meu confessor, quando um menino leva uma carta para alguém e esse alguém que recebe a carta fica muito feliz por causa do conteúdo da carta, quem é que merece o aplauso? É o menino? Ele disse: Não! É claro que é quem escreveu a carta. E ela disse: Pois é, eu sou só o menino.

Então, qualquer trabalhador da tarefa espírita na divulgação, na evangelização, ESDE, coordenação de grupo mediúnico, atividade de assistência, diálogo fraterno, tudo! Nós somos apenas o menino. O conteúdo é a Doutrina, e quem escreveu, ou seja, Jesus e Kardec, nossos filtros permanentes a nos auxiliar na condução da tarefa. Nós somos, muitas vezes, o entrave da tarefa. Muito cuidado! É o que nós temos para nós, pessoalmente e ficamos muito emocionada na leitura dessa afirmativa de Santa Brígida.

Muito obrigada, canal FEP, muito obrigada a você também.

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita
da Federação Espírita do Paraná, na XXII Conferência Estadual Espírita, no Expotrade,
em Pinhais, em 15.3.2020, tendo como entrevistador Jackson Adriano Ferreira.
Em 5.5.2021.

 

Uma realização

Federação Espírita do Paraná
0