Entrevista Alessandro Viana Vieira de Paula (2021)

Alessandro é juiz de direito e membro da ABRAME – Associação Brasileira de Magistrados Espíritas. Articulista, tem colaborado com o Jornal Mundo Espírita, enriquecendo-nos com seus artigos. Veio pela primeira vez ao Paraná em 30 de setembro de 2012. E, desde então, tem comparecido nas Conferências Estaduais Espíritas, viajado pelo Interior do Estado, para encontros, seminários, palestras. Agradecemos por ter se disposto a estar conosco nesta entrevista.

1. Nossa primeira pergunta nos conduz ao tríplice aspecto da Doutrina Espírita. Existem companheiros que defendem que essa distinção tríplice não tem apoio em Kardec e que deveríamos abandoná-la. Qual a sua opinião a respeito?

Quando nós analisamos a Codificação Espírita, vamos ver que Kardec aborda, sim, esse tríplice aspecto: o aspecto científico, filosófico e religioso. Principalmente, quando nós vamos buscar a Revista Espírita – esse trabalho extraordinário do Codificador, que durou onze anos e quatro meses – são 136 revistas – ali nós vamos encontrar, de forma exaustiva, diversos textos de Kardec falando a respeito dessa ciência filosófica de conteúdo moral, de consequência moral. Talvez, a parte que mais causa dúvida, no Movimento Espírita, pelo que eu vejo, é a questão religiosa. Inclusive, nós vamos deixar para abordar no final de nossa resposta. A questão científica, a questão filosófica, vamos citar, por exemplo, a introdução de O livro dos Espíritos, no item 17, onde Kardec vai fazer referência a uma ciência, é uma filosofia.

Na Revista Espírita de setembro de 1859, no artigo Propagação do Espiritismo, nós vamos ver que Kardec também fala desse jato de luz, esse conhecimento vasto que vem do mundo espiritual para nós, onde diz que esse jato de luz se converteria numa doutrina, num conjunto de conhecimento, uma ciência e uma filosofia, que renova nossas esperanças, dissipa as nossas dúvidas e satisfaz a nossa razão. Portanto, não há dúvida alguma, Kardec nos apresenta o Espiritismo como ciência. O Espiritismo utiliza e utilizou o método científico da observação dos fatos, a parte experimental, para depois deduzir, de forma lógica, ideias, raciocínios, chegar a determinadas conclusões. A partir dos fenômenos espirituais – a parte experimental – os fatos que se repetiam, Kardec, totalmente imparcial, ele próprio chega a dizer até um tanto quanto incrédulo, começa a analisar as mesas girantes, os Espíritos por detrás das mesas e vai, portanto, deduzir conclusões. Então, o Espiritismo segue este método científico e nós sabemos que a ciência acadêmica, a ciência formal estuda as leis que regem a vida material. O Espiritismo, naturalmente, aceita essas leis que regem a nossa vida material porque também são provenientes de Deus, mas, neste aspecto ciência que estamos abordando, o Espiritismo não se detém nas leis materiais, não se detém à prisão dos cinco sentidos, porque o Espiritismo vai além, o Espiritismo vai nos apresentar a vida espiritual: o Espírito, as leis morais da vida, as leis que regem a vida do Espírito. Então, vemos diversos trabalhadores honrados da Doutrina falando que o Espiritismo não se detém no aspecto da ciência convencional: vai além, nos apresenta essa ciência que nos revela as leis do mundo espiritual, as leis que regem a vida do Espírito.

E também o Espiritismo é filosofia porque nos propõe, nos traz um vasto material, vastas lições, as leis divinas, para que a gente possa refletir. Filosofia nos remete a isso: a pensar, a filosofar, porque nós trazemos dúvidas existenciais. A criatura humana traz inúmeras dúvidas existenciais: de onde eu vim, para onde eu vou, qual é o verdadeiro sentido da vida, qual a razão do sofrimento aqui na Terra. Então, se percebe que a criatura humana vai trazendo essas questões íntimas que, muitas vezes, acabam a afligindo. O Espiritismo, neste aspecto de filosofia, vem responder a essas indagações porque os Espíritos nos revelam de onde viemos, para onde vamos, qual o verdadeiro sentido da vida. Não somos um corpo, somos um Espírito imortal numa experiência transitória na Terra, no corpo, para progredir. E esta filosofia nos traz diretrizes éticas e comportamentais, portanto, ciência e filosofia.

Mas, conforme dissemos, talvez a parte mais polêmica seja o conteúdo religioso. E aqui, é interessante nós observarmos algo importante: Kardec, na Revista Espírita, desde o início de janeiro de 1858 até novembro de 1869, portanto, em torno de quatro a cinco meses antes da sua desencarnação, ele sempre vai usar uma ciência, uma filosofia de conteúdo moral. Mas, num artigo da Revista Espírita de dezembro de 1868, era um discurso dele numa sessão comemorativa dos mortos, onde ele vai falar das assembleias religiosas, ele vai dizer porque não havia utilizado a palavra religião até aquele momento. Que a palavra religião estava comprometida com o conceito de rito, sacerdócio, hierarquia, vestimenta. Ele diz que, neste aspecto, o Espiritismo não é religião, mas no sentido amplo, no sentido – diz Kardec – de unir as criaturas humanas por um elo de sentimento e de fraternidade. Portanto, o que nos une e nos liga a Deus é uma religião. Então, vejamos que Kardec teve muito cuidado ao usar a palavra religião e, no final da sua vida, ele vai fazer essa observação na Revista Espírita nos apresentando o Espiritismo como uma religião que trabalha em nós o sentimento, a fraternidade, os bons valores que nos conectam a Deus. Portanto, nós vamos encontrar, sim, no trabalho de Kardec, na própria Codificação Espírita, que o Espiritismo é uma ciência, uma filosofia e uma religião trazendo para nós a moral cristã.

2. Face a tantas tendências, ideias que surgem, no sentido de desejar atualizar a Doutrina Espírita, adequá-la para a atualidade, você acredita que possamos preservar o Espiritismo em sua essência, segundo a Codificação Espírita? Como?

Não precisamos atualizar a Doutrina Espírita. Esses que advogam essa tese de que Kardec e o Espiritismo estão desatualizados, certamente, não estudaram a fundo a Doutrina Espírita: o pentateuco de Kardec, a Revista Espírita. E, não conhecendo a fundo a proposta espírita apresentada por Kardec, se apresentam como esses que querem atualizar o Espiritismo. Assim como vemos outras pessoas, em outras áreas que querem também apresentar a tese de que o Cristo está ultrapassado. Na verdade, o Espiritismo é o Cristianismo redivivo. Então, as propostas do Cristo, as propostas do Espiritismo, não estão desatualizadas.

Existem essas pessoas, que denominamos “novidadeiras”, que aparecem no Movimento Espírita, estudam muito superficialmente a Doutrina e querem novidades do mundo espiritual. A esses nós dizemos: mas você já estudou tudo da Doutrina? Você já estudou toda obra de Kardec? As obras complementares de Chico Xavier, de Divaldo? Porque, para nós podermos afirmar que está ultrapassado, temos que apresentar os pontos em que ela está ultrapassada. E se surgiu algo que vai além do Espiritismo, que demonstrou que ele está ultrapassado. E quando nós fazemos esta análise, vamos ver que nenhum ponto do Espiritismo está desatualizado ou ultrapassado. Porque traz para nós as leis divinas, revelam para nós essas leis morais da vida, que jamais estarão ultrapassadas. E nos capacitam para entender os diversos desafios e enigmas que a vida vai nos apresentando.

Portanto, como lidar com essas pessoas que apresentam essas teses? Convidando-as para o estudo profundo da Doutrina Espírita. Como evitar que na nossa Casa Espírita se formem pessoas com esse pensamento? Fomentando e propiciando sempre o estudo das obras de Kardec. Parece algo óbvio, mas ainda vemos muita carência, nesta área do estudo, dentro do Movimento Espírita. Porque quando se fala de estudo, a pessoa quer uma leitura rápida, apressada, superficial. E, quando falamos de estudo, à luz de Kardec, é realmente um estudo profundo, uma reflexão profunda. Então, quando eu me coloco a analisar o desafio, os fatos que a vida vai nos apresentando, cada vez mais eu vou percebendo a atualidade e a grandeza dos ensinos de Kardec, que revigoram o Evangelho de Jesus. À medida que vamos estudando essas leis divinas, que o Espiritismo vem nos revelando, vamos percebendo a grandeza da vida, o amor, a justiça e a misericórdia de Deus.

Só para citar uma obra, que nós gostaríamos de deixar como referência, que vem avalizar isso que nós estamos apresentando – é uma obra de Divaldo Pereira Franco, muito esquecida pelo Movimento Espírita, que se chama Atualidade do Pensamento Espírita, ditada pelo Espírito Vianna de Carvalho. Vianna de Carvalho foi um grande estudioso, um grande tribuno da Doutrina Espírita do século passado, um grande conhecedor, que tem inspirado Divaldo. Quando nós lemos o título do livro: Atualidade do Pensamento Espírita, alguns mais apressados poderão fazer uma interpretação – Está vendo? Há necessidade de uma atualização – mas a obra vai no sentido contrário, vai demonstrar que o Espiritismo está mais atual do que nunca. Estará sempre atual. Vianna de Carvalho, na obra, se propõe a responder perguntas de professores universitários de diversas áreas. O formato da obra é de perguntas e respostas, onde ali, utilizando este conhecimento da Doutrina Espírita atual, sempre atual, Vianna de Carvalho vai abordar temas dentro de áreas variadas: economia, vai trabalhar artes, psicologia, ciências jurídicas, ciências exatas, vai trabalhar a pedagogia, a medicina, embriologia, genética, enfim, é um livro extraordinário. Então, aqueles que se apresentam com a tese de que está ultrapassado, nós poderemos presentear a pessoa com essa obra, recomendando o estudo profundo das obras de Kardec, onde ela vai se colocar nesta condição de que vai estudar, vai perceber que as lições do Codificador estão mais atuais do que nunca. E permanecem conosco sendo uma verdadeira luz para os nossos passos aqui na Terra.

3. Você realizou alguns treinamentos enfocando a lei dos fluidos. Desejaríamos nos pudesse explicar a atuação dos fluidos quando Jesus, Espírito, se apresentou entre os Apóstolos, comendo com eles, no cenáculo e depois, em outro momento, na praia do lago do Tiberíades, repartindo com eles o pão e o peixe.

É uma pergunta bastante profunda, que nos remete a esses dois fatos que estão registrados no Evangelho. São momentos extraordinários, onde Jesus, após a Sua crucificação, portanto, em Espírito, aparece no cenáculo e depois no lago de Tiberíades onde ali ele iria se alimentar com os discípulos. Tivemos a oportunidade de fazer esse estudo dos fluidos, com os trabalhadores dessa equipe extraordinária da Federação Espírita do Paraná.

E, quando passamos a estudar essas questões dos fluidos, nós retiramos aquele aspecto do milagre. Kardec vai estudar muito essa questão do milagre, sobretudo na obra A gênese, porque desconhecíamos essas leis espirituais que regem a nossa vida. E, analisando um fato como esse, por exemplo, iriamos rotular de milagre, naquele sentido mais religioso, de um ato divino, derrogando as leis conhecidas. Mas, agora nós sabemos que estão dentro de leis conhecidas sobretudo, a lei dos fluidos, que explica muitos dos fatos que estão no Evangelho, como as curas e outros fenômenos.

Nesse caso, em particular, algo muito importante de nós anotarmos é que vamos usar um artigo da Revista Espírita, que Kardec escreveu em agosto de 1859, que é justamente “Os fenômenos sem o concurso dos Espíritos”, para nos alertar que nós temos dois tipos de fenômenos espirituais: aqueles em que a Espiritualidade aproveita o trabalho, o concurso do médium. Sempre que é possível, a Espiritualidade vai utilizar essa mão de obra da mediunidade. Por exemplo, se tem que produzir uma cura e há um médium de cura disponível, que fornece esse recurso fluídico, a Espiritualidade vai aproveitar. Se vai produzir uma materialização e há um médium que fornece esse recurso, o fluido magnético animal, o ectoplasma, a Espiritualidade, propiciando também uma tarefa, um aprendizado para nós, vai aproveitar. Mas, a ausência dos médiuns, como diz Kardec, no referido artigo, não é um obstáculo para que se produzam esses fenômenos espirituais. O Espírito, em sendo necessário e tendo condições para produzir o fenômeno por si só, utilizando a vontade, o pensamento e os próprios recursos fluídicos e, muitas vezes, os recursos da natureza, também fluídicos, poderá produzir curas diretas, como temos na Revista Espírita, do Doutor Demeure; poderá produzir aparições, materializações, tornar-se tangível. Mas, neste caso, falamos de Jesus, esse Espírito puro, esse Espírito grandioso, o Construtor e o Governador do planeta Terra: um Espírito que detém um conhecimento que nós não temos condições de avaliar, conhece as leis materiais, conhece as leis espirituais, conhece, portanto, a ciência dos fluidos. De forma que, nessas duas passagens citadas, vemos que Ele, utilizando o próprio recurso, porque não precisava do auxílio dos médiuns, não precisava de intermediário, Ele torna-se visível, possivelmente tangível e convive, nesses dois momentos, com os discípulos, o que não nos deve causar nenhuma estranheza dentro da Codificação Espírita, porque Kardec vai se referir aos agêneres, que significa sem geração. Espíritos que, também utilizando recursos próprios, se materializam e convivem, durante um período curto de tempo, conosco, sem que nós cogitemos que sejam Espíritos, achando que são encarnados. Convivem e usufruem dos nossos hábitos, os agêneres.

De forma que, perfeitamente plausível e hoje compreensível, à luz da Doutrina, que Jesus se materializou, conviveu com os discípulos, nesses dois momentos e ali com eles, seguindo os hábitos humanos, a necessidade de alimentação. Alimentou-se com eles, primeiro repartindo o pão e depois os peixes, à margem do lago. Então, vemos que o Espiritismo nos permite essa compreensão.

Essa lei dos fluidos é a grande chave para que nós possamos entender esse e outros fatos que estão no Evangelho e que estão registrados na História da Humanidade. Uma pergunta curiosa: Então, o Espírito pode se alimentar porque ali está visível, materializado. Quando nós vamos no “laboratório do mundo invisível”, no Livro dos médiuns, os Espíritos dizem que eles podem produzir, através dos fenômenos, alimentos que nos causam saciedade. Poderíamos perguntar: Mas e o alimento que Jesus ingeriu? Naturalmente, que Ele agiu com o poder da mente e com a lei dos fluidos, Ele fez com que esses alimentos se desmaterializassem e retornassem à origem, à fonte, ao fluido cósmico universal. Porque, numa via inversa, Ele fez isso na multiplicação dos pães e dos peixes, usando o poder do pensamento, mobilizando essas leis do mundo espiritual, a lei dos fluidos e pôde, portanto, materializar aqueles alimentos. Aqueles milhares de pães e peixes que foram distribuídos à multidão. Então, do mundo espiritual, Ele fez materializar os alimentos. E agora, nesse momento em que se alimentava com os discípulos, na via inversa, agindo dentro da lei dos fluidos – que hoje nós conhecemos – Ele fez com que esses alimentos se desmaterializassem, à medida que Ele ingeria, sem que os discípulos pudessem perceber, fazendo com que eles retornassem à origem de tudo que é o fluido cósmico universal.

4. E como você interpreta a expressão de Jesus, referindo-se a si mesmo como o Filho do Homem, considerando que Ele encarnou em nosso planeta, servindo-se de um corpo de carne, como todos nós?

Essa expressão “Filho do Homem”, que consta do Evangelho, é muito pertinente e nos traz indagações e conclusões à luz da Doutrina Espírita. Na obra Os Evangelhos e o Espiritismo, em que participam Raul Teixeira e Divaldo Pereira Franco, vamos ver a resposta do nosso querido Raul, a qual nós pactuamos, que está muito em conformidade com o que o Espiritismo ensina. Jesus, utilizando-se dessa expressão, está fazendo menção àquilo que diz João: “o verbo que se fez carne”. O Espírito puro, governador espiritual da Terra, que veio para o cenário físico, que se submeteu às leis naturais da vida, à lei de reprodução, ao corpo físico, portanto, estava num corpo físico; mas, era um Espírito puro. Descarta-se aquela tese do corpo fluídico de Jesus, analisada por Kardec e rechaçada por ele na Revista Espírita. Quando Jesus fala da expressão “Filho do Homem”, entendemos que esse Espírito puro veio das cumeadas das alturas espirituais. Não foi criado, dessa forma, por Deus. Não era um ser privilegiado, criado à parte, mas um Espírito que fez a Sua evolução, em outras moradas, nas muitas moradas da Casa do Pai, em tempos muito recuados.

A Terra, podemos dizer que tem em torno de 4,5 bilhões de anos, arredondando 5 bilhões de anos. Quando Jesus começa a cuidar da formação do planeta, Ele já era um Espírito puro, portanto, havia feito a Sua evolução em outras moradas. Mas, fez-se carne, repito, como disse João e demonstrou a Sua pureza, a Sua grandiosidade através das Suas lições, através das Suas ações, através dos fenômenos que produziu. É interessante, para que possamos fazer uma comparação com essa expressão, uma outra expressão encontrada no Evangelho: dos “filhos nascidos de mulher”. Vejam essa distinção que Jesus fez: dos “filhos nascidos de mulher” não há ninguém maior que João Batista. Portanto, estava se referindo aos Espíritos, que estão fazendo a evolução na Terra, dos Espíritos vinculados ao planeta Terra. Então, dos “filhos nascidos de mulher”, ou seja, dos Espíritos ainda em progresso, vinculados à Terra, ninguém é maior que João Batista, um Espírito evoluído para os padrões da Terra, mas, que não se comparava a Jesus. Porque Jesus, o “Filho do Homem”, não era um Espírito que estava fazendo ou fez o progresso no planeta Terra. É um Espírito mais antigo, que fez a Sua evolução em outras moradas, as outras moradas da Casa do Pai. Então, essas duas expressões nos permitem entender hoje essa grandiosidade do Cristo. Esse Espírito de luz que veio estar entre nós, nos convidando para que possamos também fazer brilhar a nossa luz, como Ele próprio propôs.

5. Alessandro, um trabalhador espírita, engajado no Movimento Espírita, que abandona as tarefas porque diz que precisa investir no seu intelecto, ilustrando-se mais, se compromete moralmente de alguma forma?

Sem dúvida, aqueles trabalhadores do Movimento Espírita que abandonam, com esse pretexto de cuidar do intelecto, e acabam abandonando as tarefas das fileiras espíritas, acabam se comprometendo diante da própria consciência e diante das leis de Deus. Quando falamos essa expressão intelecto – que faz parte da pergunta – poderemos fazer uma divisão. Existe a questão do intelecto, relacionado ao próprio aprendizado do Espiritismo e, à medida que nós vamos aprendendo, valorizando o intelecto espírita, ele vai nos convidando às tarefas; às tarefas do sentimento, ao envolvimento nas diversas frentes de trabalho do Movimento Espírita. Claro que é muito importante a qualificação do trabalhador, conforme a tarefa que ele vai desenvolver. Mas, não podemos, a pretexto disso, abandonar uma tarefa e passar toda uma reencarnação apenas preocupados com o intelecto.

O intelecto é importante, o sentimento também. Sabemos que estamos aqui na Terra para investir nessas duas áreas. São as duas asas que permitem que o Espírito possa alçar voos maiores: o intelecto e o sentimento. O intelecto é muito mais fácil porque, com um pouco de disciplina e persistência, vamos angariando, aprendendo através das leituras. Agora, o sentimento é mais desafiador. A tarefa espírita, às vezes, vai nos colocar mais diretamente com o relacionamento humano, a convivência com o próximo, o esforço no campo do servir. Sabemos que, às vezes, a tarefa espírita nos coloca com poucos trabalhadores à nossa volta e temos que trabalhar e trabalhar. Mas, este é o convite do Cristo. É o trabalho, é o sentimento, é a caridade, é o amor em ação. Então, quando esses trabalhadores – que, às vezes, já iniciaram uma tarefa e, por diversas justificativas que apresentam – movidos, às vezes, pela preguiça nessa área moral, muitas vezes pela insegurança, pelo medo que trazem de outras existências, abandonam a tarefa com esse pretexto que ainda precisa estudar mais, naturalmente que se comprometem, sobretudo se esse trabalho fica pendente.

Temos visto, pela nossa prática, que, normalmente, esses trabalhadores não retornam para a tarefa ou retornam, muito tempo depois, obsidiados, perturbados, com seus conflitos e com seus desafios. Importante é ir trabalhando o intelecto, ir aprendendo e estudando a Doutrina Espírita, qualificando e também irmos nos colocando diante das tarefas espíritas que vão sendo nos apresentadas para que a gente possa servir nesta causa do Cristo. Aprendendo e ensinando. Aprendendo e doando. Aprendendo e colocando o amor em ação. A teoria e a prática.
Conforme dissemos, mesmo que se fale no intelecto profissional – porque temos visto trabalhadores que, sob esse argumento de que o profissional vai exigir muito, a necessidade de muitos cursos de qualificação, abandonam a tarefa, também vemos com muita tristeza. Sabemos que há momentos da nossa vida em que as questões profissionais exigem muito de nós. Às vezes, somos mudados do posto de trabalho, às vezes, necessitamos, sim, fazer uma qualificação e isso é muito importante. Jamais seremos contra a importância da qualificação, mesmo no aspecto profissional. Talvez precisemos fazer algum curso, on-line, à distância, às vezes presencial, temos que passar dois ou três anos da vida com o profissional tomando conta de nós, às vezes, mais tempo. Precisamos ter essa maturidade para gerir os nossos compromissos diante da Doutrina Espírita. Veremos que podemos administrar bem a nossa vida. Se o profissional está exigindo de nós e não temos condições de, naquele momento, dar conta de uma tarefa, podemos fazer um recuo estratégico, uma pausa, mas não abandonar totalmente o Movimento Espírita, a tarefa.

Existem pessoas que abandonam totalmente e desaparecem da Casa Espírita e, às vezes, nunca mais voltam. Ou voltam, como disse, depois de muito tempo, aflitas e com problemas. Então, enquanto o profissional vai exigindo de nós, é perfeitamente natural que a gente vá gerindo, diminuindo o ritmo, fazendo os ajustes devidos. Mas, que possamos continuar vinculados ao trabalho, ao aprendizado e às tarefas da Casa Espírita. Às vezes, diminuindo um pouco o ritmo, às vezes, trocando uma tarefa por outra, fazendo esses ajustes, mas, jamais abandonando a tarefa.

Portanto, quando advém essa ideia ou essa inclinação para abandono de tarefa, poderemos estar diante de um processo obsessivo. Temos que orar, refletir bastante para que não tomemos uma atitude irrefletida, abandonando uma tarefa e, depois, futuramente, a nossa consciência nos cobrar. Aprendemos com a Doutrina Espírita que a nossa omissão no bem nos convida a resgates, às vezes, dolorosos no futuro. Tomemos muito cuidado, porque podemos dizer que é uma tese hoje muito usada pelos obsessores que querem causar esse afastamento dos trabalhadores, dentro do Movimento Espírita e dentro das tarefas religiosas, usar diversos argumentos. Um deles, é essa questão do intelecto. Tomemos muito cuidado. A Doutrina nos ensina que importante é cuidarmos das duas áreas: dos trabalhos, das tarefas e do aprendizado. Se percebemos que essas ideias persistem, colocam em dúvida, advém inseguranças e medo, vamos orar. Vamos persistir porque a tarefa no bem será a melhor resposta para as dificuldades e as dúvidas que estejamos passando.

6. Deixamos o microfone à sua disposição, para uma mensagem que queira nos deixar, em especial a nós, trabalhadores espíritas.

Como mensagem final, parabenizando a Federação Espírita do Paraná pelo tema central da Conferência, que nos remete à questão do sexto sentido, da mediunidade, portanto, fala muito de perto para nós, a respeito da inspiração e deste momento de transição planetária que passamos, este momento ainda de pandemia, de isolamento. Que possamos aproveitar essas lições que nos chegam, através dos flagelos e das dificuldades, para nos aprimorar e crescer.

São momentos, em que estamos sendo convidados para esse fortalecimento interior. São momentos para que possamos consolidar, firmar esse compromisso com a Doutrina Espírita, com o Cristo. São momentos em que nós temos realmente que nos colocar na condição de trabalhadores do bem. Não temos dúvida nenhuma que, nesta época de transição, neste momento desafiador e definidor que passamos, haverá muito sofrimento na Terra, muitas almas angustiadas que vão precisar dos trabalhadores do bem.

E nós estamos sendo convidados a sermos esses trabalhadores. Isso ocorre para quem pratica caridade material, a caridade moral, estar ali, na linha de frente na Casa Espírita, nas tarefas essenciais da Casa Espírita, levando a mensagem do Cristo, levando consolo.

Falando em sexto sentido, que possamos criar essa conexão, essa ligação espiritual com o Cristo, o nosso Modelo e Guia. Que Ele possa ser para nós essa fonte de inspiração permanente. Que possamos sempre lembrar das Suas palavras, que possam ecoar em nossa intimidade os Seus convites, os Seus alentos, as Suas palavras de esperança para que possamos permanecer fiéis, trabalhando, simbolicamente, segurando Suas mãos, recebendo a inspiração do Alto, orando, seguindo no bem, para que os benfeitores espirituais, que trabalham sob o comando do Cristo, possam contar conosco nestes momentos desafiadores. Que possamos ser um trabalhador, ainda que modesto, mas com a nossa luz brilhando para levar um pouco de luz, de consolo, de fortalecimento e de esperança às pessoas que estão à nossa volta.

Portanto, muito feliz esse tema central. Que possamos, através do Congresso virtual, permitir que essas palestras inúmeras ecoem em nosso coração e, fortalecidos, possamos criar esse vínculo sólido e agradecer ao Cristo e ao Pai pelas tarefas que surgem. E que possamos seguir fiéis a elas, construindo o reino de Deus que está dentro de nós.

Querido Alessandro, em nome de todo o Movimento Espírita do Estado do Paraná, queremos agradecer pelo seu tempo, pela sua preparação, pela entrevista que nos concedeu.

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita
da Federação Espírita do Paraná, em 14.3.2021, na XXIII Conferência Estadual
Espírita, realizada virtualmente, tendo como entrevistador o
segundo vice-presidente da Federativa, Adriano Lino Greca.
Em 3.11.2021.

 

Uma realização

Federação Espírita do Paraná
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