Entrevista Jorge Godinho Barreto Nery (2021)

Jorge Godinho Barreto Nery, presidente da Federação Espírita Brasileira, desde 2015, esteve no Paraná pela primeira vez em 14 de março de 2017. E tem contribuído, desde então, com o Movimento Espírita do nosso Estado, sobretudo, na Conferência Estadual Espírita pelo interior do Estado e também no Expotrade, em Pinhais. Nesse ano, estará novamente conosco, na 23ª Conferência Estadual Espírita, que se realizará virtualmente, face às questões do isolamento social impostas pela pandemia. Somos gratos por nos reservar seu tempo para esta entrevista.

1. Godinho, no presente ano somam seis anos à frente da Federação Espírita Brasileira. Nesse período, qual seria o destaque da sua atuação?

Eu diria, Adriano, o aprendizado. O aprendizado com todos, porque estamos construindo um trabalho coletivo, trabalho participativo, mas impessoal, onde, a cada dia, nós vamos evidenciando o Evangelho de Jesus, a Doutrina Espírita e as nossas personalidades vão cada vez mais sendo esquecidas para que apenas apareça a única personalidade que deve ser evidenciada, que é a de Jesus. Então, temos aprendido e procurado, ao longo desse período de convivência como estando presidente da Federação Espírita Brasileira, vivenciar o diálogo, a sinceridade de propósito, o trabalho impessoal. Mas, é um trabalho que é comum a todos nós que somos da FEB e que somos da FEB, como sendo o caminho seguro que vai nos fortalecer o respeito mútuo, vai evidenciar – e tem evidenciado, pelas nossas análises – a liberdade que cada um de nós temos, ao mesmo tempo que vai estreitando esses laços de fraternidade que nos unem e que nos unificam, no propósito de servir ao Cristo e de mantermos a bandeira de Ismael permeando as nossas relações, que devem ter como lema a caridade.

2. Com respeito à divulgação através do livro, poderia nos falar das medidas adotadas pela FEB, especialmente no que diz respeito às parcerias com editoras e livrarias das federativas estaduais?

A primeira medida, adotada pela Federação Espírita Brasileira, ao identificar que faltava uma orientação que norteasse o trabalho de divulgação pelo livro, aproveitando todo o potencial que o Movimento Espírita tem instalado, com as suas editoras, com as suas livrarias, ao mesmo tempo que pudesse fortalecer a sustentabilidade, foi realizar um trabalho coletivo, participativo – que você deve lembrar, porque você foi um daqueles que participou desse trabalho intensamente – o trabalho participativo de todo o Movimento Espírita, que veio resultar no documento norteador que hoje tem o título O livro espírita e a sustentabilidade do Movimento Espírita, já aprovado, este documento norteador, pelo Conselho Federativo Nacional. A partir de então, a FEB iniciou sua implantação, das diretrizes, das ações, que ali foram estabelecidas pelo Movimento Espírita, realizando parcerias com as editoras das federativas – aquelas que as possuem – para que fosse integrado no seu catálogo, no catálogo da FEB, as obras de todas essas editoras e que desejassem participar dessa parceria. E hoje, é fato as parcerias estabelecidas entre a FEB, a Federação Espírita do Rio Grande do Sul, a Federação Espírita Catarinense, a própria Federação Espírita do Paraná, a Federação Espírita do Estado de Goiás, a Federação Espírita de Mato Grosso, que são aquelas que têm as suas editoras em pleno desenvolvimento, como outras que, nesse trabalho, estamos identificando e, ao mesmo tempo, intensificando esse trabalho de parceria com as editoras cujas obras [muitas delas] estão sendo feitas em parceria com a Federação Espírita Brasileira. Por exemplo, as vendas que são realizadas com o catálogo único, que contempla as obras da FEB e de todas essas editoras que participam dessa grande rede, que o documento nos incentiva e estabelece como ações e diretrizes para que nós possamos fazer essa grande rede para divulgação e, ao mesmo tempo, manter a sustentabilidade.

Não só a questão da sustentabilidade. Normalmente, quando falamos, alguns pensam só na parte financeira mas o livro tem uma abrangência, podemos dizer uma visão cósmica da sustentabilidade que não se resume apenas à sustentabilidade financeira ou econômica, mas à sustentabilidade ambiental, espiritual, comportamental, todas essas que, no conjunto, fortalecem as nossas ações e as nossas atitudes, tendo o livro como sendo esse instrumento de união e de unificação.

O trabalho tem avançado na sedimentação da rede de sustentabilidade que, a cada dia, vai sendo implementada à proporção que as oportunidades vão surgindo. Afirmo que é um trabalho iniciado, mas que não terá fim. Por quê? Porque as perspectivas são infinitas, quando se observa o futuro de levar à Humanidade a mensagem consoladora do Evangelho de Jesus à luz da Doutrina Espírita e que hoje se encontra exarada nessas inúmeras obras que estão aí à disposição da Humanidade mas que, aos poucos, gradativamente, vai se divulgando. Com o passar do tempo, certamente grande parcela da Humanidade tomará conhecimento do conteúdo edificante de todas essas obras.

Só para informação, a FEB, a Federação Espírita Brasileira, ao longo de quase duas centenas de anos, atingimos o número de cinquenta milhões de obras já editadas, publicadas, espalhadas pelo mundo afora, iluminando as consciências, as mentes das pessoas. Então, temos assistido na atualidade, de uma forma muito intensa, esse trabalho que, na realidade, faz com que a aplicação daquele documento, que é o documento sobre a sustentabilidade através do livro, vá cada vez sendo mais implementado nessas parcerias com as federativas. Em síntese, é isso que podemos trazer nesta oportunidade como informação.

3. Temos assistido, na atualidade, de forma intensa, aparecerem médiuns dizendo-se portadores de informações privilegiadas, disseminando mensagens que contradizem os preceitos doutrinários. Têm aparecido propostas de reforma da Codificação Espírita. A pergunta é: se com tudo isso que encharca as mídias sociais, a internet, o Espiritismo, conforme codificado por Allan Kardec, sobreviverá?

Adriano, não tenhamos a menor dúvida de que o Espiritismo permanecerá cumprindo o seu papel de levar uma fé raciocinada e iluminar as consciências, ainda escurecidas pelos atavismos e as escolhas de um passado equivocado.

A Doutrina Espírita está navegando, nesses quase dois séculos, com tantas mudanças, com tantos avanços tecnológicos e com muitas turbulências, mas realizando um voo tranquilo e sereno, secundando esses momentos que nós dizemos de transição, levando à Humanidade a compreensão e o entendimento de que somos imortais e de que nós estamos diante de um momento em que as respostas milenares, que a Humanidade tem questionado a respeito de si própria, a Doutrina Espírita vem nos orientando e nos respondendo.

Sobre a nossa origem, de onde viemos, a nossa destinação, o que estamos fazendo aqui, para onde nós vamos. Este é um papel que a Doutrina Espírita já vem revelando, há quase dois séculos. Passando por esses séculos turbulentos, de mudanças, mas mantendo a sua serenidade ao levar à Humanidade essa mensagem consoladora, na expectativa de um mundo ou de um reino que não é deste mundo, da vida após a vida, com a consciência e a certeza da imortalidade. Então, jamais devemos esquecer ou devemos olvidar que o Espiritismo é o Evangelho redivivo de Jesus na sua pureza. E, portanto, conforme Ele mesmo, Jesus, nos anunciou e nos prometeu um outro Consolador, que explicaria tudo que Ele havia dito e que ainda traria muito mais informações para que nós pudéssemos assim compreender.

E o Espiritismo vem fazendo esse papel, com essa característica. Como uma doutrina progressista, vem sendo atualizado a todo momento, trazendo-nos as informações condizentes com as conjunturas diversas, que nós estamos vivenciando. E nada, tenhamos a certeza, impedirá o avanço do Espiritismo porque ele é de origem divina. Ele não foi criado pelos homens. Foram os Espíritos que vieram anunciar ao Codificador que chegou a época predita para a Humanidade, onde eles, como ministros de Deus e agentes da Sua vontade, vieram instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a Humanidade.

Está exarado nos Prolegômenos, logo no início de O livro dos Espíritos esta informação. Então, nada impedirá o avanço do Espiritismo, porque ele é de origem divina e, portanto, imune às anfractuosidades, às sinuosidades, às coisas que acontecem, nas mudanças temporárias em que passa a Humanidade.

4. Na sua opinião, como os espíritas, estudiosos e trabalhadores da Doutrina Espírita, devemos ver as teses espíritas defendidas no meio acadêmico?

Devemos olhar com bons olhos, pois é uma forma de divulgação da mensagem divina nas Academias, que ainda se limitam à visão do mortal: nascer, viver, morrer, simplesmente. E as teses espíritas, certamente, nesses ambientes, farão com que os estudiosos das ciências conheçam a ciência nova: o Espiritismo, que traz a visão do imortal, da vida sem os antolhos, que circunscreve do nascimento à sepultura. As defesas de teses, nesses ambientes acadêmicos, certamente vão esclarecer e ampliar a visão da vida aos que ainda não a têm e não concebem a imortalidade, além de trazer de volta o Cristo de Deus – Jesus – com o testemunho inigualável do amor ainda não amado, trazendo-O como Modelo, para que a Humanidade possa reconhecê-lO como o Cristo de Deus, o Enviado.

5. Em sua opinião, devemos concordar com Léon Denis quando diz que o Espiritismo será científico ou não sobreviverá?

Uma pergunta muito interessante. Devemos entender que a afirmação de Léon Denis está coerente com o que Allan Kardec definiu quando respondeu à questão o que é o Espiritismo. Diz o Codificador: o Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos, ou seja, entre os encarnados – que somos Espíritos também – e os desencarnados. Mas, como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.

Então, verificamos que a Doutrina Espírita é uma ciência que tem esses dois aspectos e depois Denis vem dizendo que podemos defini-la assim. O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal. Assim, como doutrina filosófica, como uma ciência nova, nós vamos encontrar os aspectos éticos, morais, de consequências religiosas, na sua parte filosófica, onde se encontra a religião. Mas, não a religião, conforme aquelas criadas pelos homens. Diferente dessas porque a afirmação de Léon Denis é de que o Espiritismo será científico ou não sobreviverá. Nesse sentido que Kardec nos traz de uma ciência nova, com esses dois aspectos, onde a verdadeira religião, o religare da criatura com o Criador se estabelece nesse laço divino que nos prende a cada um de nós com Deus nosso Pai, fazendo, nesse religare a verdadeira religião.

Por isso, Jesus não deixou nenhuma religião, a não ser a prática do amor e da caridade, que é o amor em ação. A afirmação de Léon Denis é perfeita, porque o Espiritismo será científico, porque é uma ciência nova, ou não sobreviverá. Científico, no sentido não da ciência que trata do princípio material, porque no Universo existem dois princípios: o material e o espiritual. Mas, acima de tudo, Deus. A ciência, conhecida pelos homens, no meio acadêmico, trata das leis divinas, que regem o princípio material, trazendo-nos à tona todas as informações necessárias para apoiar as leis, a compreensão que trata do princípio espiritual que são as leis morais, objeto do Espiritismo que, como ciência, vem nos trazer essas informações para, apoiando-se nessas leis divinas, que regem o princípio material, fazer-nos melhor compreender o princípio espiritual e as leis que regem o comportamento do Espírito, ao longo do seu processo evolutivo.

Por isso, a afirmação de Léon Denis realmente está coerente com aquilo que Kardec nos informou para que nós possamos encontrar na ciência aquilo que é necessário. Porque ela é que desvela a verdade, ou que revela a verdade. Por isso, o Codificador falou: se, em algum instante, a ciência trouxer uma verdade que o Espiritismo não contempla, fiquemos com a ciência. Porque o Espiritismo é uma ciência e ele nos revela as verdades divinas, que estão nas nossas consciências, explicando essas verdades, que Jesus nos trouxe através de parábolas, das simbologias, mas que prometeu outro Consolador para poder explicá-las.

6. Godinho, nós temos acompanhado algumas dificuldades, dissensões no Movimento Espírita nacional e internacional. Como o amigo vê o futuro do Movimento Espírita no Brasil e no mundo?

Adriano, esta é uma resposta que eu precisaria ter uma bola de cristal. Entretanto, não a tenho, mas, pelo pensamento, nós poderemos perfeitamente vislumbrar esse futuro. O Movimento Espírita será aquilo que os espíritas fizerem da Doutrina Espírita – já nos falou Léon Denis. A Doutrina Espírita nos convida a amarmo-nos mutuamente, a sermos fraternos, gentis uns para com os outros. Porque se você não é gentil, você não faz fraternidade. A fraternidade se faz com gentileza e se nós promovermos a fraternidade, naturalmente, nós estaremos promovendo a união, a unificação e o Espiritismo nos convida a promover a união e a unificação.

E nos convida a sermos caridosos, a desejar ao outro o que nós queremos para nós. Então, a casa dividida rui, conforme Jesus nos ensinou. Já fomos alertados por Jesus a esse respeito. Dessa forma, o futuro do Movimento Espírita será, com convicção, o de união. O de união entre os espíritas, entre as instituições, esse trabalho de conquista que, desde os dias de hoje, nós estamos realizando, no próprio Movimento Espírita brasileiro, quanto internacional. Com o exemplo da fraternidade, o exemplo de uma organização diferenciada daquela do mundo porque ter-se-á a compreensão de que o trabalho a ser realizado não é para atender aos interesses dos homens, mas para o cumprimento de um compromisso assumido com o governador da Terra, que é Jesus. Para levar à Humanidade uma uma fé raciocinada, para levar à Humanidade o celeiro de luminosidade, pelo testemunho do Evangelho de Jesus, a ser divulgado em espírito e verdade.

Dessa forma, é o vislumbre que eu tenho do futuro, porque este futuro é o caminho que está nos conduzindo para a regeneração. Naturalmente, aqueles que estarão protagonizando este futuro terão esta consciência de já regenerados fazer com que a Terra seja de paz. Para que ela seja de paz, é necessário a boa vontade entre os homens, a prática da caridade pela benevolência.

7. Querido amigo, queremos registrar a nossa gratidão pelas esclarecedoras respostas e o deixamos à vontade, caso queira dirigir uma mensagem final a todos que nos acompanham pelo canal FEP.

Adriano, inicialmente a nossa gratidão à Federação Espírita do Paraná, à sua direção, pela oportunidade que nos conduz, que nos dá e que nos deu de realizarmos reflexões sobre temas de tal importância. E, no ensejo, desejar a todos votos de muita paz, de muito trabalho, sobretudo, de visitação á intimidade para que possamos nos renovar a cada minuto, deixando para trás, por assim dizer, o espirito velho – o termo talvez melhor seja o homem velho – que necessita se regenerar, que necessita olhar para esse futuro promissor, como a Terra jamais teve um futuro tão promissor, que é uma Terra de paz. O nosso desejo é que pratiquemos a benevolência uns com os outros, para que construamos este mundo melhor, este mundo de paz, que não está muito perto, nem tampouco muito longe, mas que vai depender da nossa benevolência.
Muito obrigado à Federação Espírita do Paraná, ao carinho dos amigos e à atenção de todos que compartilharam conosco nesta entrevista.

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita
da Federação Espírita do Paraná, em 14.3.2021, na XXIII Conferência Estadual
Espírita, realizada virtualmente, tendo como entrevistador o segundo
vice-presidente da Federativa, Adriano Lino Greca.
Em 27.9.2021.

 

Uma realização

Federação Espírita do Paraná
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