Entrevista Jussara Korngold  (2020)

Jussara é presidente da Federação Espírita dos Estados Unidos e está no Paraná há vários dias realizando palestras na nossa Capital.

1.Jussara, você é brasileira. Há quanto tempo está nos Estados Unidos?

Saí do Brasil há 27 anos. Durante quase 3 anos ficamos na Inglaterra [meu marido e eu], em Londres. Depois, há 24 anos, estamos nos Estados Unidos. Tem sido uma jornada.

2.Você já era espírita antes de ir para os Estados Unidos ou passou a ser espírita chegando lá?

Eu já era espírita aqui no Brasil, frequentei o Centro Espírita que minha mãe me levou, desde os 11 anos. Naquela época, eu tinha uma inclinação religiosa, mas quando cheguei no Centro Espírita, amei. Então eu pedia à minha mãe para me levar de volta ao Centro Espírita porque como se faziam as palestras, era tão diferente do que estava habituada no sermão dos padres, as explicações…

Então, saí espírita do Brasil. Naquela época, não era como hoje, que se pode procurar no Google onde encontrar um Centro Espírita, na Inglaterra ou nos Estados Unidos.

Consegui, através de uma pessoa, saber que existia um Centro Espírita na Inglaterra, que foi fundado por uma inglesa. Fui direto para lá e, felizmente, logo pude me engajar nos trabalhos, começar uma nova jornada e praticar o Espiritismo em inglês.

3.Como é o Movimento Espírita nos Estados Unidos? Quantos Centros Espíritas existem no país? As atividades são no idioma nativo?

Há um aspecto interessante para se analisar: o histórico do movimento espírita nos Estados Unidos. Ele chegou através dos hispânicos, pessoas que vinham do México, depois da Colômbia, se estabeleceram, começaram pequenos agrupamentos, no final da década de 20. Estamos falando de cem anos atrás, começo da década de 30. Durante mais ou menos uns cinquenta anos predominou o Espiritismo nos Estados Unidos no idioma espanhol.

Em meados da década de 80, começo da década de 90, uma leva de brasileiros foi viver nos Estados Unidos. É interessante, quando encontro brasileiros, pergunto: Quando mudou? Ah, em 89. E você? Ah, em 92. E você? Ah, em 87. Parece uma programação espiritual mesmo. E, a partir desse momento, não querendo dizer que não existiam brasileiros, que já participavam de movimentos (estamos falando de uma forma mais generalizada) mais especificamente, do final da década de 80, começo da década de 90, o movimento espírita brasileiro tomou uma proporção muito grande. Com isso, o movimento hispânico acabou ficando bastante reduzido. Até porque existem estudos que dizem que, após a segunda geração no país, no máximo terceira, os filhos, os netos já tendem a ter muita dificuldade em seguir o idioma dos pais, ou que era dos avós. Então, essa diminuição no movimento hispânico não se deve tanto ao aspecto dos brasileiros terem chegado e tomado conta, mas mais ao desenvolvimento natural dentro das famílias que frequentavam o Centro.

Hoje, estamos ainda vivendo, se tomarmos como base aqueles 50 anos hispânicos, os 50 anos brasileiros, que daqui há uns 20 anos acaba. E nós estamos fazendo muita força, não para acabar, mas para passar a ser prioridade o trabalho em inglês.

Obviamente, foi muito difícil, porque quando chegamos e começamos o trabalho com o Centro Espírita, com o movimento, no idioma inglês, não tínhamos nem as cinco obras da Codificação traduzidas. Foi um trabalho muito intenso nesse sentido de ter as obras, traduções de livros, materiais didáticos para dar suporte aos Centros Espíritas.

Hoje, felizmente, estamos em uma posição bem mais confortável, do que quando começamos. Temos vários grupos pelo país que se dedicam à prática do Espiritismo totalmente no idioma inglês. Mas, a maioria dos Centros pratica inglês-português-espanhol ou português-espanhol, ou só espanhol, temos toda essa variedade.

Temos, aproximadamente, noventa Centros Espíritas nos Estados Unidos, é o quarto país em número de Centros. Fala-se que americano não gosta do número quatro, só gosta do número um, mas não vamos ter chance de competir com o Brasil. Que seja o número dois, já está bom.

Tem sido bastante gratificante, na hora que analisamos, praticamente 25 anos que estou lá, olhar 25 anos atrás e o que é hoje. Os Espíritos são realmente extraordinários, porque não dava para imaginar que pudéssemos ter um avanço em tão pouco tempo, estarmos tão bem estruturados.

4.Você é secretária geral do Conselho Espírita Internacional, quais são suas tarefas no CEI?

Quando se pensa nos desafios que temos ao nível de um país, inclusive seguindo o histórico desse país, seus costumes, o próprio histórico da chegada do Espiritismo, porque o Espiritismo é um só, mas as vezes os países têm alguma forma um pouco diferente nesse seu trabalho, na sua visão. Então, o grande desafio, quando se pensa em nível mundial, é conseguir atender a todas essas demandas que cada país vai ter. Em relação ao Espiritismo, inclusive as próprias dificuldades locais que os países podem ter. Por exemplo, hoje temos um movimento espírita extremamente forte nos países hispânicos. Mas muitos desses países têm enormes dificuldades em termos de recursos.

Então, temos o espírita, a população sedenta em aprender o Espiritismo e não tem recursos para sequer ter livro no Centro Espírita. Chega-se em outro país que poderia ter uma situação inversa econômica, onde poderia ser mais fácil ter um pouco mais de recurso, mas aí falta o livro, falta a tradução. São diversos os desafios.

Dentro do possível, que possamos unir vários países, as federativas de cada país para identificar áreas e como, de repente, nesse movimento espírita geral auxiliarmo-nos uns aos outros.

5.Você também é tradutora de livros espíritas. Poderia nos dizer quais são as obras que você traduziu, e para quais idiomas, considerando sua fluência em inglês, francês, espanhol e português?

São quase cinquenta. É muita alegria. Por vezes, tive umas conversas com Deus, porque é um desafio muito grande traduzir um livro para um idioma que não o nosso. Por mais que se domine o idioma, eu conversava com Deus: Por que não ficou um pouco melhor? Mas, enfim, aceitamos os desafios, trabalhamos com equipe e, obviamente, a primeira obra que traduzi, inclusive, a pedido do querido Nestor Masotti, ex-secretário geral do Conselho Espírita Internacional, presidente da Federação Espírita Brasileira, foi uma obra de Emmanuel, o “Pão Nosso”.

Falei: “Não sei se vou dar conta.” Ele disse: “Não se preocupe, é por isso que tem revisão, faz segunda, faz terceira…” E começamos esse trabalho. Eu já tinha feito algumas coisinhas antes, mas esse trabalho foi de maior magnitude, juntamente com “O céu e o inferno” e “A gênese”, de Kardec, que, pela primeira vez, tivemos no idioma inglês.

Um fato muito interessante, porque às vezes as pessoas perguntam: conta um pouco do movimento espírita nos Estados Unidos, há quanto tempo ele existe. Conforme falamos, o movimento espírita existe há 100 anos, mas o movimento espírita para o nativo é muito recente. Falamos em 20 anos. Somente em 2004, tivemos as cinco obras de Kardec traduzidas para o inglês, disponíveis para o público. Hoje, temos mais de cem obras traduzidas, foi um grande momento. Mas estamos falando de 16 anos. Se lembrarmos que nos primeiros 15 anos o Espiritismo no Brasil era praticado em francês, é praticamente a mesma situação.

Agora, temos essas obras, e os Centros mais preparados. Foi por isso que, na realidade, ao fundarmos o nosso Centro Espírita em Nova Iorque em inglês, vendo que não existia recursos, não existia material de base, começamos a nos dedicar a esse trabalho de tradução.

Felizmente, pela facilidade dos outros idiomas, quando os livros estão originalmente em francês, se traduz do francês para o inglês, o que precisar. Mas tem sido muito gratificante, uma grande felicidade, poder ver até uma geração de trabalhadores que se formou graças a esses primeiros esforços.

6.É sua primeira participação na Conferência Estadual Espírita. Qual sua impressão a respeito?

Era um sonho que eu tinha porque tenho amigos aqui e acompanhamos sempre, do Exterior, as conferências. E nos diziam: “Você ainda não experimentou um evento espírita enquanto não for à Conferência Estadual Espírita do Paraná. ”

Eu vinha planejando, tentei vir no ano passado, não foi possível. Este ano fiquei muito feliz de poder vir e estou bastante impressionada com a organização, com o carinho, com o cuidado, com a participação do público e espero que não seja a única vez nem a última.

7. Deixamos o microfone à disposição para suas considerações.

Gostaria de agradecer a toda organização essa oportunidade de estar aqui conversando, de poder contar um pouquinho a respeito da nossa saga, toda dificuldade, mas também da alegria que tivemos de espalhar o Espiritismo, porque, afinal de contas, o maior sentimento que nos motiva nesse trabalho é justamente o sentimento daquilo que nós mesmos recebemos dessa Doutrina bendita que ilumina nossas vidas.

Pensando nesse sentido, com essa jornada que Deus nos preparou de nos levar para outros lugares, para visitar outros países, estar em contato com o Espiritismo no mundo, também podemos levar essa alegria que é contagiante e existe, não só na alma do brasileiro, mas especialmente na alma do brasileiro espírita. É isso que procuramos levar e que contamos com todos para ajudar neste movimento, lembrando que o Espiritismo é a raiz do Evangelho que está espalhada por todo mundo e todos necessitamos uns dos outros para fazer com que essa árvore esplendorosa que nos guia, nos alimenta, possa realmente alimentar outros irmãos de nossas terras.

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita
da Federação Espírita do Paraná, na XXII Conferência Estadual Espírita,
no Expotrade, em Pinhais, em 14.3.021, tendo como entrevistador Jackson Adriano Ferreira.
Em 2.2.2021.

elo whatsApp.
Em 25.1.2021.

Uma realização

Federação Espírita do Paraná
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